‘Um Dia a Menos’ – Um presente para os ‘convidados’

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Normalmente, quando se comemora um aniversário, o presente vai para o/a aniversariante, e não vem dele/a. No caso de ANA BEATRIZ NOGUEIRA, que está em cartaz no Teatro Petra Gold (Antigo Teatro Leblon – Sala Marília Pêra), ela está comemorando 35 anos de uma brilhante carreira profissional, nos palcos e nas telas, a grande e a pequena, entretanto é ao público que ela oferece um presente. Aliás, um presentão: interpreta um belíssimo conto da magistral CLARICE LISPECTOR, inserido no livro “A Bela e a Fera”. Trata-se do solo “UM DIA A MENOS”na íntegra, apenas com uma passagem, da terceira para a primeira pessoa do singular, adaptado por LEONARDO NETTO, que também dirige o espetáculo.

 

SINOPSE

 

MARGARIDA (ANA BEATRIZ NOGUEIRA) vive só, desde que sua mãe morreu, na mesma casa onde nasceu e cresceu.

A funcionária doméstica da vida inteira está de férias, não há mais ninguém por perto, e ela tem, diante de si, a árdua tarefa de atravessar mais um dia inteiro sozinha, dentro de casa.

Ela cumpre seus rituais diários, esquenta sua comida, almoça, torce para que o telefone toque e vai buscando o que fazer, até a hora do jantar, quando, finalmente, anoitece e pronto: um dia a menos.

Até que, esgotada pela repetição infinita, MARGARIDA tem um rompante inesperado, que não pode ser revelado nesta sinopse; precisa ser visto.


De acordo com o “release”, enviado por STELLA STEPHANY (JSPONTES COMUNICAÇÃO)“UM DIA A MENOS” é um dos últimos contos escritos por CLARICE LISPECTOR (1920-1977), já no ano de sua morte. O texto fala da solidão e dos possíveis muros que, às vezes, levantamos, sem perceber, ao nosso redor.”.

Antes de começar a tecer qualquer comentário sobre a montagem em tela, é preciso cumprimentar ANA e LEO, pela coragem, “ousadia”, no melhor sentido conotativo da palavra, por terem abraçado um projeto teatral em torno de CLARICE. Ela não é para os fracos. Considerada uma das maiores escritoras da literatura brasileira, parece que sua obra foi escrita para leitores solitários, que devem fazer sua leitura da forma mais intimista possível, contudo, em espetáculos anteriores, utilizando textos seus, e neste, podemos chegar à conclusão de que seu legado literário também é bem dramático, servindo a uma dramaturgia que sempre agrada aos espectadores.

CLARICE era ucraniananaturalizada brasileira. Adaptou-se muito bem à nossa cultura, mas jamais perdeu um pouco do seu sotaque, sempre com uma voz rouca, culpa (?) do cigarro, e mansa, falando sempre pausadamente. Como o espetáculo é uma grande homenagem a ela, convém deixar registrados alguns poucos detalhes de sua vida pessoal e profissional, da forma mais breve possível. Nasceu em Chechelnyk, em 10 de dezembro de 1920, tendo falecido no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1977, antes de completar 57 anos de idade, vítima de um câncer. Além de escritora, também foi jornalista. Escreveu romancescontos e ensaios, é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX e a maior escritora judia, desde Franz Kafka. Sua obra está repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, reputando-se como uma de suas principais características a epifania de personagens comuns, em momentos do cotidiano. Chegou ao Brasil, ainda pequena, em 1922, com seus pais e duas irmãs. É incluída, pela crítica especializada, entre os principais autores brasileiros do século XX. (Informações extraídas, com supressões e adaptações, da Wikipédia.)

Depois de uma abertura, a primeira cena da peça, com o texto abaixo, pode-se esperar tudo:

“Eu desconfio de que a morte vem. Morte? Será que, uma vez, os tão longos dias terminem? Assim, devaneio calma, quieta. Será que a morte é um blefe? Um truque da vida? É perseguição? E assim é. O dia começara às quatro da manhã, sempre acordara cedo, já encontrando, na pequena copa, a garrafa térmica, cheia de café. Tomei uma xícara morna e lá ia deixá-la para Augusta lavar, quando me lembrei de que a velha Augusta pedira licença, por um mês, para ver seu filho. Tive preguiça do longo dia que se seguiria: nenhum compromisso, nenhum dever, nem alegrias nem tristezas.”.

Como grande representante de uma literatura intimista, com características do nosso modernismoCLARICE preocupava-se em descrever o psicológico das personagens e voltava-se para falar do dia a dia comum, estabelecendo, em suas narrativas, análises da realidade de seus personagens, sob uma ótica subjetivaparticular. Ora seus narradores se apresentam na 3ª pessoa, ora na do singular, mas, ao que tudo indica, era sempre ela falando de si, de suas experiências e vivências, de momentos e desejos por que passara ou estava passando.

espetáculo já começa a chamar a nossa atenção pelo título, pois ele está subordinado a um ponto de vista. Pode ser voltado para o lado bom ou o ruim. Todos gostamos, quando, ao fim do dia, nos damos conta de que aquele foi “um dia a menos” para a espera de algo que nos virá fazer bem, trazer alegria, felicidade. Assim enxerga o otimista. E na visão oposta? “Um dia a menos” para quê? Para que chegue ao fim uma longa e triste espera? Isso o espectador fica sabendo, neste solo, por MARGARIDA, a personagem de ANA BEATRIZ.

Por que, para ela, se trata de “um dia a menos”? Ela tem, diante de si, o grande desafio de enfrentar a solidão, uma vez que a outra pessoa da casa, a serviçal, está de licença. MARGARIDA está sozinha e solitária, que são departamentos bem distintos. Aquele está ligado ao mundo exterior; este, ao interior. Mas quem pode assegurar que, mesmo quando acompanhada da velha Augusta, não sozinha, portanto, ela já não se sentia solitária? A triste perversa “solidão a dois”, que não é a dos casais que continuam juntos, por conveniência ou necessidade. É a solidão de quem não se abre nem se permite ter a intimidade invadida.

texto contém um pouco de tudo. É dramático, porém, ao mesmo tempo, a personagem apela para a comicidade, resvalando, até mesmo, para o patético. A forma como ela se mostra, nos seus sentimentos, chega a ser patética, por vezes. MARGARIDA é uma mulher como qualquer outra, em princípio; aparentemente, normal. Mas será mesmo? Ela carrega consigo uma dose de humanidade que pode fazer a diferença, pode despertar, nos espectadores, os mais diversos sentimentos.

É uma delícia ouvir um texto escrito com tanta delicadeza e técnica. CLARICE era uma artista da palavra, uma artesã, uma tecelã, que trabalhava com fios de ouro, que ia, com sua marca inconfundível, tecendo seus panos raros, que tanto nos aquecem até hoje e aquecerão as gerações vindouras. E ANA BEATRIZ NOGUEIRA não pretende representar CLARICE, mas ela fala como CLARICE, pausadamente, proporcionando-nos o prazer de saborear cada palavra e ir, com ela, numa viagem de sonhos.

espetáculo é tão lindo, na mesma proporção que é simples. Não há grandes aparatos cênicos, pois tudo se concentra no texto e na impecável interpretação da atrizCenário simples e descomplicado, uma ambientação cênica do diretor e da atriz: apenas uma poltrona de couro (“escolhido por Augusta”) e uma mesinha de canto, ou de lado, com pouquíssimos objetos sobre ela, destacando-se um telefone, peça importante na trama. Apenas um figurino, criado por KIKA LOPES, sóbrio, um “robe de chambre” sobre uma roupa “de andar em casa”, complementando, um pouco, uma aparência um tanto desleixada, visível nos cabelos da personagem. Um bom desenho de luz, bastante econômico e direcionado para o minúsculo espaço cênico, obra do grande AURÉLIO DE SIMONI, contribuindo para uma ambientação puxada para o sombrio, se não exagero.

Paradoxalmente, porém totalmente possível, como consta, no “release”“UM DIA A MENOS”, além de um espetáculo complexo na sua simplicidade, é, também, uma reafirmação da crença no poder de comunicação do TEATRO, que, se resiste, há cinco mil anos, e sobrevive a todas as crises, é porque pode abrir mão de tudo, menos do humano. Do elemento humano, do questionamento humano, do pensamento humano. Ainda temos muito o que entender sobre nós mesmos.”, nas palavras de LEONARDO NETTO.

peça está inaugurando o novo horário das 17 horas, aos sábados e domingos, para peças adultas, no Teatro Petra Gold, o que considero uma das grandes ideias mais recentes, ligadas ao TEATRO. Começou há tão pouco tempo e já pode ser considerado um grande sucesso o empreendimento, o qual já tem outros grandes espetáculos pautadosFiquem atentos à programação do Teatro! Parabéns a Well Aguiar e sua equipe de funcionários e colaboradores!

Para finalizar, digo-lhes que é um privilégio e um prazer indescritível assistir a “UM DIA A MENOS”. Por CLARICE. Por ANA, Por LEO. Pelo TEATRO BRASILEIRO.

Merece uma recomendação com ênfase.

E VAMOS AO TEATRO!!! OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!! A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!! RESISTAMOS!!! COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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