Trabalho online, isolamento, incerteza financeira… Artistas relatam primeira semana de isolamento por Coronavírus

Do Rio Encena

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

Atores, diretores e produtores que estavam em cartaz ou ensaiando para isso Fotos: Divulgação

Como não poderia deixar de ser, a classe artística também se viu extremamente baqueada quando o governador Wilson Witzel anunciou na sexta-feira (13) da semana passada um decreto para evitar aglomerações pelo estado na tentativa de conter a pandemia do novo coronavírus. Afinal, os teatros, que vivem exatamente das grandes reuniões de pessoas, precisaram ser fechados. Então, logo uma porção de questionamentos passou a habitar a cabeça dos artistas: Quando acaba essa quarentena? Como vai ficar a situação financeira? O que fazer enquanto a normalidade não volta?

Uma semana após tais medidas enérgicas serem tomadas contra a covid-19 – que já tem mais de 100 casos confirmados no Rio de Janeiro, além de três mortes – o RIO ENCENA procurou atores, diretores, dramaturgos e produtores que estavam em cartaz ou ensaiando para isto a fim de saber como têm lidado com a atual rotina.

Todos se mostraram a favor do isolamento social como medida de prevenção ao vírus, mas confessaram suas frustrações por terem seus trabalhos interrompidos, a preocupação por não estarem trabalhando como gostariam, a angústia do isolamento e da comunicação apenas virtual, mas também a esperança de que os palcos voltem a ser ocupados o quanto antes.

Confira as respostas abaixo:

Foto: Divulgação

PV Israel – Ator, produtor e dramaturgo
— Está sendo angustiante! Conseguimos nos organizar rapidamente, mas a incerteza do amanhã está nos preocupando muito. A cultura já vinha resistindo a falta de investimentos, escassez do público e falta de políticas públicas para a nossa classe. Agora com esse caos instaurado ficamos cheios de incertezas. Toda a nossa equipe se falou por e-mail ou WhatsApp e estamos solidários com a situação. Todos os artistas estão solidários uns com os outros. Estamos em casa respeitando a quarentena, nos articulando para nossa volta e torcendo para que consigamos nos reerguer com saúde e mais apoio por parte do governo.

Foto: Divulgação

Mariana Rego – Produtora
— Assim que soubemos do decreto, estávamos indo para o ensaio. Nossa estreia (da peça “A Protagonista”) seria no dia 20. Até recebermos o comunicado oficial do Sesc sobre o adiamento da temporada e a falta de calendário, tentamos ensaiar, mas era impossível. Estávamos todas tensas e preocupadas. O decreto veio no dia 13, e nos dias 14 e 15 aconteceria o segundo fim de semana da oficina do processo criativo do espetáculo. Eram mais de 20 pessoas para comunicar às pressas, algumas delas viriam de outras cidades. No sábado, cheguei a ir buscar um elemento do cenário, mas haveria um frete e precisamos desmarcar. O elenco e a direção chegaram a fazer um ensaio prático no dia 15, mas nos demos conta de que manter ensaios presenciais seria muito arriscado. Elas têm conversado via chamada de vídeo e as atrizes têm recebido tarefas da direção que podem ser feitas em casa. Como produtora, o mais frustrante é saber que muitas pessoas da equipe precisam da grana, que estavam contando com esse trabalho para pagar contas ou para a vida mesmo; e agora nem se sabe quando será feito o pagamento. O calendário está todo suspenso.

Foto: Divulgação

Pedro Henrique Lopes – Ator e diretor
– O primeiro impacto da quarentena foi de preocupação para todos. Não só com o publico e nossas equipes, mas com toda classe artística que se viu sem muitas alternativas num primeiro momento. Seguimos todas as orientações do isolamento, para tentar minimizar os impactos dessa pandemia aqui no Rio. Paramos tudo que exigisse deslocamento e encontros. Entendemos ser extremamente necessário essa pausa para que seja breve e normalize o quanto antes. Adiantamos alguns planos de conteúdo on-line para atender a demanda do nosso público, principalmente as famílias com crianças em casa. E em home office estamos planejando o retorno, que esperamos ser breve, com novidades para o segundo semestre.

Foto: Divulgação

Francisco Ohana – Diretor
— No começo, ninguém estava dimensionando muito a amplidão desta pandemia. E, na semana passada, fomos entendendo que não dava para continuar os trabalhos. Tem uma questão de transmissão envolvida, de cuidado com as pessoas. E, além disso, não tem clima. Estamos mais recolhidos, também aproveitando este momento para repensar as nossas relações afetivas e de trabalho. O grupo que eu dirijo, o Bestas Urbanas, fez uma leitura na quinta-feira da semana passada; na sexta, quando tudo parou, achei que fosse possível continuar com algumas atividades, alguns encontros presenciais, mas acabamos suspendendo tudo que não possa ser feito de maneira remota. É um momento de recolhimento até a situação se normalizar e podermos retomar a nossa rotina artística, que nos preenche tanto. Na volta, certamente haverá novas reflexões sobre o nosso trabalho e nossa forma de estar no mundo como artista e ser humano.

Maria Rezende – Atriz e poeta
— O decreto fechando todos os equipamentos culturais do Estado me pegou bem na primeira semana de temporada do “Mulher Multidão”, meu espetáculo de poesia todo centrado no feminino. Foi um baque. Meses de preparação, muito tempo, afeto e dinheiro investido. Achei que ia ficar muito triste, mas é tudo tão maior, né? E neste momento nada me parece mais importante do que respeitarmos o isolamento social e ficarmos em casa. O espetáculo nasceu do meu desejo profundo de falar sobre coisas que me tocam, e tem cenário, figurino, luz, mas a poesia não precisa de nada disso. A poesia não precisa de quase nada, e por isso ela é resistência. Então, no dia do decreto, tive a ideia de apresentar “Mulher Multidão” através de um live no Instagram na hora em que estaria em cartaz. Quase 300 pessoas assistiram – e a lotação do teatro era de 53. Assim a quarentena nos tirou os toques, mas não as palavras, nos tirou os encontros mas não a arte. E ainda criamos a quarentena às avessas, trazendo para junto gente de todo canto, Brasil afora, mundo adentro.

Foto: Andrea Nestrea/Divulgação

Karen Accioly – Produtora, atriz e diretora
— Eu estava na França, antes do caos se instalar, e cheguei no Rio anteontem (17/03). O que consegui fazer, para me tirar do espanto e da paralisia, foi escrever dicas para as crianças e pais que estão em casa e preparar vídeos contando histórias – ainda não estão prontos. Acompanhei também por Whatsapp todo o movimento da Aptr para reagir e prevenir maiores tormentos, criando ações e documentos importantes para as esferas governamentais.

Que os Deuses nos abençoe!

Foto: Divulgação

Maria Siman – Produtora e atriz
— Na segunda e terça ainda trabalhei organizando as coisas para a paralisação.

Desde ontem (18), já em confinamento caseiro, aproveito o tempo para a prática de outras atividades artísticas .

Dedico a quarentena às artes visuais , criando bordados artísticos e planejando uma série de trabalhos para futura exposição.

Foto: Divulgação

Miriam Freeland – Atriz
— Tivemos que cancelar a menos de quatro dias da nossa estreia no Teatro Multiplan. Seria nossa última temporada de “Diário de Pilar na Grécia” aqui no Rio. Depois seguiríamos o Festival de Curitiba, que cancelou, e para nossa temporada em São Paulo. Como recomendação, não me encontrei mais com o elenco, somente pude comunicá-los via celular. Ficaram muito impactados e preocupados com a produção, já que toda nossa campanha estava na rua e eu preocupada com eles, quanto a expectativa de trabalho e remuneração. Na ausência da arrecadação da bilheteria, ainda não consegui ter recursos para amenizar isso em relação a equipe e elenco.
Estou renegociando prazos com fornecedores e serviços já iniciados para adiar um pouco o pagamento. Quanto a atividades extras, ainda estou às voltas com a administração de toda essa mudança e seguindo à risca a indicação de isolamento domiciliar. O desejo é que tudo se reorganize o mais breve possível, para que possamos voltar com todas as agendas do espetáculo, acreditando muitíssimo na nossa aglomeração tão potente e única que somente a experiência do teatro nos permite.

Foto: Divulgação

Luiza Loroza – Atriz e diretora
— Estreamos “Yabá – Mulheres Negras” dia 12, dia 13 saiu o decreto para o fechamento de teatros. Além de ficarmos muito tristes por termos um fluxo cortado, o momento mais esperado pelos artistas depois de alguns meses de intenso trabalho, perdemos a chance de amadurecer com o tempo e o dia-a-dia do espetáculo, o crescente burburinho do público. Entendemos e concordamos absolutamente com o decreto. De casa, tentamos não nos afastar das histórias, das personagens, das energias que conseguimos encontrar no processo. No meu caso, como diretora sonho todas as noites com o espetáculo e continuo trabalhando possibilidades até nosso reencontro e reestreia. Teatro é vivo, e o momento em que vivemos se inscreve diretamente na obra. Fico pensando, como esse vácuo, esse afastamento compulsório vai interferir na peça, no entendimento do texto e das cenas. Tentando descobrir o que de bom podemos tirar disso. Minha mãe sempre dizia que de longe dá pra ver a ilha inteira e talvez até entendê-la melhor. Estou me apegando nesse ditado, esperançosa.

Foto: Divulgação

Junior Dantas – Ator
Minha quarentena está sendo totalmente em casa.

Cancelei todos os ensaios e nesta primeira semana não encontrei nenhum companheiro de teatro .

Consegui fazer muita coisa de trabalho pela internet e estou dedicando meu tempo para estudar, escrever, ler, ver filmes, documentários e ouvir muita música boa.

Foto: Divulgação

João Pedro Zabeti – Ator
Fomos pegos de surpresa quando terminamos o espetáculo e soubemos da paralisação devido ao risco de contágio pelo corona vírus. Desde então viemos pras nossas casas com medo de como ficaria a a nossa temporada de estreia.  Somos um grupo de artistas negros, periféricos e favelados e essa era nossa primeira temporada no Sesc Copacabana. Também foi difícil ver amigos nessa mesma situação como os artistas do Grupo Atiro, da Maré que estavam iniciando sua temporada no Sesc Ginástico. Como somos um coletivo independente, continuamos nosso trabalho através de chamadas de vídeo para pensar nos outros setores do coletivo como a inscrição em novos editais e a parte das mídias e redes sociais. De toda forma, entendemos que a saúde da população está em primeiro lugar, mas também esperamos que o governo olhe para o nosso setor e para o setor de trabalhadores autônomos como empregadas domésticas e diaristas que infelizmente estão tendo que se expor ao vírus para não perderem seus empregos.

PUBLICIDADE