‘Susto – O Incrível Segredo’ – Não é fácil fazer rir e só o faz quem tem muita competência para isso

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Hoje, quando a deliciosa e hilariante comédia “SUSTO – O INCRÍVEL SEGREDO” estiver reestreando, no Teatro dos 4, esta crítica já terá sido publicada, uma vez que foi escrita há bastante tempo, no dia seguinte ao da temporada anterior do espetáculo, a mais recente, no mesmo Teatro dos 4, que foi de 15 de janeiro a 27 de fevereiro deste ano, em horário alternativo, com imenso sucesso, de público e de crítica, e guardada para este momento, porque eu já sabia, pelos idealizadoresprodutores e atores da peçaRODRIGO FAGUNDES e WENDELL BENDELACK, que ela, possivelmente (Era intenção deles.)  voltaria ao cartaz e achei melhor não queimar minha modesta opinião terminada a temporada. Só fiz alguns acréscimos.

Na verdade, a peça, que foi encomendada a um dramaturgo e diretor paraenseSAULO SISNANDO, pela dupla e, de início, surgiu com outro título, “O Incrível Segredo da Mulher-Macaco”dirigida pelo próprio autor, contando com a luxuosa supervisão artística de DUDA MAIA, com estreia na cidade serrana de PetrópolisRio de Janeiro, no início de 2011. A experiência serviu como um balão de ensaio, uma espécie de termômetro, para medir a popularidade do espetáculo e avaliar como o público o receberia. Foi um sucesso absoluto e a peça desceu a serra, passando a cumprir temporadas na cidade do Rio de Janeiro. Primeiro, uma curta passagem pelo pequeno Teatro Candido Mendes, em Ipanema; na zona norte, no popular e ótimo Teatro Miguel Falabella, dento do Norte Shopping, onde assisti a ela pela primeira vez, numa temporada bem mais longa, com LOTAÇÃO ESGOTADA, em várias sessões. Na época, eu ainda lecionava e me lembro de ter levado muitas e muitas dezenas de alunos para vê-la, o que já havia feito, anteriormente, quando os dois, RODRIGO e WENDELL, protagonizaram um marco da comédia brasileira, “SURTO”, que ficou, por 11 anos, em cartaz. De lá, a montagem migrou, mais uma vez, para a zona sul do Rio, no antigo, infelizmente, hoje, desativado, Teatro Tônia Carrero, onde a revi, uma das três salas, cujo conjunto formava o emblemático e inesquecível Teatro do Leblon (As outras salas homenageavam Fernanda Montenegro e Marília Pêra.). Assim foi até 2014, a partir de quando a peça passou a viajar pelo Brasil, sempre recebendo a mesma boa receptividade do público e da crítica.

Em janeiro deste ano (2019)RODRIGO WENDELL, às sua próprias expensas, como voltam a fazer agora, ou seja, produzindo com seus recursos, sem qualquer patrocínio, resolveram voltar com a peça ao cartaz, sem ser em horário nobre, com nova roupagem – cenários e figurinos –, mantendo o ótimo texto e com uma alteração no título: “SUSTO – O INCRÍVEL SEGREDO”, que me pareceu, por três motivos, uma bela jogada de “marketing”, visto que – lá vai o primeiro – “SUSTO” reporta a “SURTO”, de onde saiu o personagem Patrick, vivido por RODRIGO, composição que alavancou a carreira do ator, na TV, tornando-o conhecido, do grande público, em todo o território nacional. O segundo é o fato de o enredo da peça girar em torno de um grande segredo, ou de outros, que, é óbvio, não revelarei (#spoillernão). O terceiro, de acordo com os próprios produtores, é que o título anterior poderia sugerir que se tratava de uma peça voltada para crianças ou de algo meio “bagaceira”, o que, em absoluto, não é verdade. É, sim, uma produção muito bem cuidada, sofisticada e, embora a indicação etária tenha sido fixada em 12 anosnão é um texto para crianças, se bem que o público “teen”, muito frequente, na plateia, se diverte à farta, isso porque a peça é para nos fazer dar boas gargalhadas, sem qualquer tipo de apelaçãoÉ uma comédia para toda a família.

 

SINOPSE

“SUSTO…” conta a clássica história de um desconhecido que para numa mansão misteriosa e pede para dar um simples telefonema.

Mal sabe ele que ali mora um terrível segredo, que habita o segundo andar da casa.

Tudo começa, quando o desconhecido encontra, no meio da sala, um cadáver.

A partir daí, inicia-se o jogo de detetive, para se descobrir o que, de fato, existe por trás daquelas pessoas: uma jovem adolescente, enlouquecida com os preparativos do seu casamento; uma velha enigmática, presa numa cadeira de rodas; uma diva do cinema, que volta para se vingar; um noivo bobo e milionário, alheio a tudo; e a austera e misteriosa AGATHA, a governanta da casa.

Os atores WENDELL BENDELACK e RODRIGO FAGUNDES desafiaram o dramaturgo e diretor teatral paraenseSAULO SISNANDO, a escrever uma peça cômica, que seguisse os moldes das películas clássicas “noir hollywoodianas”.

Mergulhando no universo do impecável romance inglês “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, o autor transportou a trama das charnecas bucólicas (terrenos áridos e não cultivados, onde só crescem plantas rasteiras e silvestres) de Yorkshire para a “meca” do cinema – Hollywood –, onde as loiras são geladas e os galãs têm caráter duvidoso.

SAULO os presenteou com uma história desmiolada, divertida, leve e absurda, recheada de revelações bombásticas. E muitas, muitas piadas.


De acordo com o “release”, enviado por WENDELL BENDELACK“SUSTO…” é uma comédia que passeia por vários gêneros. Do besteirol ao melodrama. Do suspense ao clássico. Uma celebração à sétima arte, Hitchcock e as grandes divas dos áureos tempos de Hollywood. Também uma homenagem aos livros de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e outros. No palco, WENDELL BENDELACK e RODRIGO FAGUNDES vivem diversos personagens. (…) Todos têm seus segredos lúgubres e são movidos por uma grande paixão: o cinema.”.

Por vezes, a peça nos faz lembrar “O Mistério de Irma Vap”, não pela história, em si, completamente diferentes, mas pela ambientação e por tantas trocas de roupas e entra e sai de personagens, num tom de “vaudeville”. É de nos fazer sair do Teatro com a mandíbula doendo, de tanto rir. Eles não nos dão trégua e parecem que querem testar a nossa capacidade de vencer a morte, pelo riso excessivo, um eufemismo para a hipérbole “morrer de tanto rir”. E o público fica preso, o tempo todo, à pergunta: Quem matou quem? (Se é que alguém matou e outro alguém morreu.). E haja vocação para detetive!!!

texto, muito bem escrito, com diálogos excelentemente construídos, debocha, da forma mais inteligente e “cafona” (Por que não?) de tudo o que já foi escrito e filmado acerca do gênero terror, com referências facilmente reconhecíveis pelos que admiram tal tipo de filme e literatura. A dupla de atores consegue dar conta, em cena, de todos os personagens que representam – assassinos frios e calculistas, mocinhas puras e indefesas, lacaios subservientes (pleonasmo), detetives perspicazes; todos guardando segredos -, num ritmo frenético, que exige, do público, uma atenção redobrada, para não perder nenhum detalhe, já que tudo, entrelaçado, é muito importante para se entender o final da trama, quando ela chega.

Trata-se de um belo trabalho de equipe, de dedicação total, de entrega ao TEATRO, por amor à Arte, para que o resultado seja o mais favorável possível. E isso é de um valor inestimável, uma vez que estamos falando de comédiagênero que, embora considerado “menor”, por muitos ignorantes, sempre é um grande desafio para qualquer atorFazer rir não é para os fracos; é para quem tem muito competência para isso, o que sobra em RODRIGO e WENDELL, talhados para os personagens que representam nesta peça, na qual aproveitam para despejar “cacos” absolutamente próprios e ajustados às situações em que surgem.

Ainda, em pequenas participações, não por isso menos importante, há a presença de RENATO BAVIER, que acompanha a dupla, desde “Surto”, famoso como o “Trakinas”, um apelido, improviso que deu certo e foi incorporado ao texto daquela peça.

Um ator de comédia precisa de um “timing” especial, para fazer rir, e, em geral, se apoia num(a) “escada”, alguém do elenco que serve de  suporte, para que o outro possa “aparecer”. Aqui, não há isso, já que um serve de apoio para o outro, numa grande generosidade entre dois grandes artistas e amigos.

Todos os elementos técnicos funcionam a contento, nesta montagem, desde o cenário e todos os objetos de cena (direção de arte), a cargo de RODRIGOWENDELL e SAULO, com detalhes muito significativos e característicos desse tipo de ambientação, passando pelos requintados e extravagantes figurinos, de MARCELO MARQUES, com uma parada para uma atenta observação da trilha sonora e dos efeitos especiais de sons, selecionados por RODRIGO e SAULO, acrescentando-se a luz especialíssima, de PAULO ROBERTO MOREIRA, construindo a atmosfera lúgubre que a peça exige.

Não penso duas vezes, para dizer que este espetáculo se trata de uma das melhores comédias a que já assisti em toda a minha vida que merece, portanto, ser vista, principalmente no momento político pelo qual passamos, que nos puxa para baixo, afeta o nosso ânimo e o nosso moral. Aí, vem “SUSTO…”, estendendo-nos as mãos, para nos puxar para cima. E nunca podemos nos esquecer de que ninguém morre se “SUSTO”.

E, por falar nisso, vida longa ao espetáculo!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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