Solo de ficção científica ‘Yellow Bastard’ adota um caminho difícil de seguir

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no CCBB, “Yellow Bastard”, da Companhia Teatro Inominável e com direção de Andrêas Gatto e Diogo Liberano, é um mergulho de seus criadores na ficção científica. Se o processo de exposição interior costuma ser o “modus operandi” da maior parte das companhias teatrais cariocas, a investida no campo da ficção científica é bem rara.

A dramaturgia de Diogo Liberano coloca um advogado descobrindo-se marciano (do planeta Marte mesmo). A peça divide-se, grosso modo, em duas metades: na primeira, o personagem recebe a mãe em sua casa, vai para o trabalho, sai para um encontro, enfim… Leva uma vida humana padrão. Na segunda metade, ele é preso, e sua natureza é gradativamente revelada para ele mesmo e para o público, num processo de reconhecimento trágico semelhante a “Édipo Rei”, de Sófocles.

O cenário de Elsa Romero também divide o palco em duas metades (diagonalmente, o que me parece plasticamente muito mais interessante do que a oposição direita/esquerda ou frente/fundo), que comportam os dois momentos do monólogo. De um lado, espaço vazio, dando liberdade ao ator para a expressão cênica do cotidiano; do outro, a estrutura que traduz visualmente a peça: algo como um módulo lunar (imagem emblemática do contato do homem com o espaço), que serve como prisão do protagonista e núcleo de seu autoconhecimento (e desvelamento para nós, espectadores). Tudo a ver!

O figurino de Ticiana Passos também busca esta diferenciação dos dois momentos do personagem, e o faz por remoção das roupas, o que acaba sendo uma solução prática e simbólica ao mesmo tempo.

A atuação de Márcio Machado é o elemento permanente desta variação. O ator se entrega totalmente à difícil tarefa de incorporação deste humano-alienígena. Contudo, talvez pela própria leveza do ator, talvez por características da peça, tudo se desenvolve a partir de uma dinâmica que acaba ficando desconectada do todo. Na primeira parte não é tão grave, pois Márcio atua como um narrador-personagem, descrevendo suas próprias ações e estados emocionais, e emulando-os simultaneamente. Vê-se ainda uma conexão entre personagem e mundo. Na segunda parte, no entanto (quando a peça fica mais complexa e tem sua grande revelação), não há mais narração ou simulação: preso sem motivo claro, toda a ação migra agora para o interior do personagem, em sofrimento profundo. À medida que o enredo se expande, a cena se comprime, e tudo adquire um caráter de devaneio, de suspensão espaço-temporal, onde o ator debate-se entre as paredes de seu confinamento.

“Yellow Bastard” parece buscar a identificação emocional do espectador via sentimento de não pertencimento. Entendo a possível intenção, mas me parece que o real motor do não pertencimento (a pele amarela, a origem extraterrestre) chega tarde para produzir um efeito consistente, que se faça presente em cena. Sem ele, o que vemos é um sofrimento agudo de um personagem que, a rigor, poderia ter inúmeras causas, até bem menos criativas.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas e sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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