‘Sangue’ é boa encenação de um texto complicado

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Em cartaz na arena do SESC Copacabana, “Sangue” é um aglomerado de coisas, do qual se extraem algumas belezas, sobretudo da encenação.

O prólogo apresenta o drama de um casal, Rosa e Eric, que, por conta da ditadura chilena, acaba exilado na França e com o filho desaparecido. A peça começa com ela, escritora, sendo entrevistada a respeito de seu mais recente livro, que narra esta experiência. Eric, psiquiatra, parece neutro emocionalmente, mesmo diante da insistência de Rosa por atenção, carinho, proximidade. Logo depois, descobrimos que ele possui uma relação homossexual com um jovem, Luca, muito mais novo e ex-paciente. A peça basicamente desloca-se para esta relação, que coroa a complexidade de Eric e expõe uma espécie de possessão histérica de Luca. Para além destes temas, existe ainda a Aids, que emerge em determinado momento mas não evolui, e um fetiche sexual peculiar de Rosa, que sugere mais uma camada para a personagem, mas que o autor sueco Lars Nóren também não desdobra…

A cenografia de Vinicius Fragoso e Bruce Gomlevsky compõe muito bem o espaço da arena do Sesc com uma série de malas de porte enorme, que são movidas facilmente pelo palco formando os mais variados cômodos. Conseguem não revelar circunstâncias específicas e, ao mesmo tempo, imprimir um clima solene e, quando necessário, pesado.

Os figurinos de Maria Duarte ambientam a Paris contemporânea e deixam claras as diferenças entre as personagens, mesmo transitando apenas pelos tons escuros. Eric e Rosa mais formais, e Luca completamente despretensioso.

Os atores Luciana Braga e Charles Fricks, como Rosa e Eric, dão o tom do espetáculo, estruturado em cima de sua doçura e sensibilidade. São os relevos encontrados pelos dois que dotam a encenação de ritmo e dinâmica, mesmo quando um deles está fora de cena. Quando ele, a cena abraça a leveza e a comicidade carismática de Luciana; quando ela, o palco rende-se à maestria de Charles de colorir mesmo a mais insignificante das falas, ou dos silêncios. Pedro di Carvalho acaba perdendo a mão na busca pela psicopatia de Luca. O registro adotado fica interessante na última cena, quando a máscara já caiu e o personagem parece resignado. Sura Berditchevky tem participação pequena para análise mas, de toda forma, toma a cena com a propriedade de sempre.

Lars Nóren aponta para muitos lugares, mas desenvolve poucos. E o coração de sua peça, na minha opinião (a relação Rosa/Eric em função de sua história), é a trama menos acolhida, o que me soou particularmente estranho. Mesmo com todas as qualidades da montagem, em todos os elementos descritos acima e mais a direção de Bruce Gomlevsky, “Sangue” acaba prejudicada pela obsessão de Nóren por revelações e reviravoltas.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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