‘Saia’ é metáfora sensível, e um show à parte da iluminação

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Em cartaz no Teatro SESI, no centro, “Saia”, que tem direção de Joana Lebreiro, narra a relação de uma mãe “superprotetora” com suas filhas, que vivem literalmente sob sua saia. A peça é linda, com elementos de qualidade, e com destaque para a iluminação memorável de Ana Luzia de Simoni.

A história gira em torno de uma mãe, que após testemunhar a morte de seu marido em plena rua, decide proteger suas filhas, mantendo-as sob sua saia. E assim segue sua rotina, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, todos os dias, com as crianças. Aquiles e Neném passam nove anos ali, interagindo, brincando, e aprendendo a ler graças à biblioteca onde sua mãe trabalha. Um belo dia, um furo se abre na saia, e através dele Aquiles, a filha mais velha, observa o exterior e descobre que o mundo não se resume ao que conhecia até então. Em uma bela releitura do mito da caverna, de Platão, Marcéli Torquato constrói uma trajetória não apenas de autodescobrimento, mas de desvelamento de toda uma realidade. Tudo é feito com uma gradação preciosa.

O cenário (direção de arte de Marieta Spada) compõe-se de uma escada que figura a enorme saia da mãe, sob a qual repousam as crianças, e de livros que se dispersam pelo palco, figurando tanto o ambiente de trabalho da mãe quanto a estrutura de mundo das filhas.

O espaço vazio deixado pelo cenário é preenchido pela vigorosa iluminação de Ana Luzia de Simoni, de uma personalidade que vi poucas vezes. Para começar, a profusão e intensidade das cores dá vida não só aos diferentes ambientes, mas também às diversas horas do dia e estados emocionais das personagens. A manutenção dos focos laterais que demarcam a rua estabelece um visual único, ao mesmo tempo em que simboliza o véu que limita o mundo das crianças. Há também uma diferenciação da atmosfera geral, dividida entre a primeira metade do espetáculo (quando as crianças ainda estão dentro da saia e a mãe carrega uma sensação de rotina segura) e a segunda (quando Aquiles sai e a mãe redescobre as filhas, e decide abrir mão do controle). A iluminação (com a fumaça) parece imprimir temperatura, é impressionante.

As atrizes são repletas de carisma e doçura, muito à vontade em cena. Elisa Pinheiro encarna a mãe resiliente que só encontra um mínimo de felicidade e realização na segurança que provê às filhas. Eliane Carmo vive Neném, a irmã mais nova e inocente, cuja pureza reverbera no compromisso de Aquiles de construir um mundo a partir do que vê. Vilma Melo, como Aquiles, dá o tom e a dinâmica das nuances, que colorem uma narrativa quase lírica.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE