‘Por que não vivemos?’ é uma provocação à linguagem teatral, baseada em um de seus maiores expoentes “literários”

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no teatro I do CCBB, no Centro, “Por que não Vivemos?” traz a primeira peça, manuscrita e inacabada, do célebre escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904). Escrito no inverno de 1878 e com apenas uma montagem no Brasil, em 1980 (dirigida por Maria Clara Machado), o texto foi publicado em diversos países com o título “Platonov”, nome de seu personagem central.

A peça gira em torno do encontro de amigos de longa data em uma festa, onde antigas paixões, intrigas e questões mal resolvidas vêm à tona. A encenação marca esse misto de sensações a partir de uma fusão entre o espaço cênico, o espaço da plateia e o espaço do CCBB. Tudo torna-se parte da ambientação, inclusive o sentimento de não participar do total dos acontecimentos, o que é particularmente interessante.

O cenário compõe-se de uma grande mesa central repleta de jarros com água/vinho, taças e plantas, tudo constantemente manipulado. Ao redor da mesa, cadeiras, e em meio ao público, sofás. O caráter bucólico da mobília contrasta com a interação realizada pelos atores, cuja informalidade remete ao conceito já naturalizado das casas de veraneio, abandonadas durante a maior parte do ano para, subitamente, transformarem-se em palco de uma grande e festiva reunião de amigos.

Os figurinos intercalam elementos formais, casuais, e outros completamente descontextualizados, o que estabelece o encontro como algo entre a solenidade de um evento especial, o despojamento de amigos íntimos e a desmedida emocional.

Os atores transitam entre a alegria genuína e frustrações/decepções escondidas sob uma falsa felicidade. Na maior parte do tempo, tudo corre bem. Em momentos de maior agitação, contudo, as atuações tendem a cair em um registro exagerado, sobretudo o elenco masculino, que é, de um modo geral, mais leve, mais solar. O elenco feminino carrega a melancolia que passou a caracterizar Tchekhov em suas obras posteriores.

“Por que não Vivemos?” parece investir na tradução cênica, a começar pelo excelente título, de pontos essenciais do universo tchekhoviano; a estética distinta adotada entre o primeiro e o segundo atos talvez seja a maior evidência disso. Neste processo, a existência de diferentes planos, tanto do ponto de vista dos objetos, quanto de cenas, mas sobretudo da movimentação, concretiza no espaço os inúmeros planos que Tchekhov estabelece em seus textos, e que vão da linha temporal à montanha russa emocional de suas personagens. É uma investigação de linguagem preciosíssima, principalmente para quem ainda acredita no teatro e na sua famigerada “teatralidade”.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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