‘Os Desajustados’ une temática de fácil assimilação com atores de peso

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro SESI, no Centro, “Os Desajustados” se esforça, e tem considerável sucesso, para alcançar objetivos variados.

O texto de Luciana Pessanha nasce de uma fotografia de um jantar íntimo que reuniu quatro das personalidades mais célebres do meio artístico mundial dos anos 1950: Marilyn Monroe, Arthur Miller, Simone Signoret e Yves Montand (dois casais). Como mote do texto (e o que achei mais interessante, particularmente), uma oposição entre casais: o primeiro, Marilyn e Arthur, em crise, compõe-se de duas figuras insatisfeitas com suas carreiras; o segundo, um relacionamento maduro e estável, traz Simone e Yves em bons momentos (também) profissionais. Os conflitos emergem a partir de ciúmes e autoestimas postos a prova, além de desconfortos entre os aspectos público e privado dos personagens: em primeiro lugar, de expor sua intimidade para um fotógrafo “penetra”; em seguida, por transpirarem fragilidades sendo expoentes em suas áreas.

A montagem, que tem direção de Daniel Dantas, aborda as tensões da pessoa privada/pública de maneira muito elegante e funcional: uma 5ª atriz, em cena, de fato fotografa os outros atores, e as fotos são projetadas em tempo real no fundo do palco.

Os conflitos intra e inter casais ficam por conta dos atores, que propõem estilos diferentes, que em parte colorem a dinâmica, em parte (menor) comprometem a harmonia, parecendo, por vezes (e com certo exagero para deixar claro), que cada um está num jantar. Isio Ghelman e Cristina Amadeo adotam interpretações mais naturalistas, trabalhando com pausas, entrelinhas e relevo de entonações; Tainá Müller tenta emular uma Marilyn Monroe que ficou conhecida por todos nós, o que a mantém num registro mais artificial (o que supre uma das atmosferas da peça, e bem… não havia muitas opções para a atriz diante de uma figura icônica como Marilyn).

Felipe Rocha, por fim, transita num terreno intermediário, de comicidade ímpar, que dialoga tanto com o conforto natural de Isio quanto com a teatralidade de Tainá, tornando-se o catalisador dos inúmeros elementos díspares que a peça procura dar conta. Para mim, o ponto alto do espetáculo.

A cenografia de Marcelo Lipiani e Fernanda Vizeu faz uma opção interessante por resumir o cenário a uma única mesa, pequena e quadrada, no canto do palco. Para além de concentrar os personagens a uma convivência muito próxima, permite uma oposição espacial entre o lugar da socialização (o “espaço de comunicação”) e o do devaneio, das relações paralelas (o “espaço interno”).

Os figurinos de Marcelo Olinto dialogam com as atuações, o que é muito bom! Enquanto Marilyn (Tainá Müller) mantém-se num registro público, com cabelo e decote tão característicos, os outros transitam o registro privado, mais casual no caso dos homens, mais formal no caso de Simone Signoret (Cristina Amadeo), personagem de fato mais sóbria, e que a atriz reforça.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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