‘O Anjo do Apocalipse’ – Existem anjos e ‘anjos’. O do Apocalipse é um perigo. Lúcifer foi um anjo

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Por mais atarefado que eu esteja, consegui tirar um tempo, para escrever, não da forma aprofundada, como gosto de fazer, e é meu hábito, sobre a peça “O ANJO DO APOCALIPSE”, em cartaz no Teatro Ipanema. (VER SERVIÇO.). Não ficaria em paz com a minha consciência, se não o fizesse, uma vez que muito me agradou a montagem.

peça, já editada, em livro, publicado pela Editora Scortecci, foi escrita por CLÓVIS LEVI e conta a “história de um amor impossível, que atravessa um casal, ao longo de várias vidas”, tratando de questões tão atuais, como a intolerância e a violência, “cada vez mais radicais, entre os que pensam diferente, tendo como pano de fundo os conflitos no Oriente Médio”.

Como para quem, como eu, não conseguiu, até hoje, entender muito bem a mecânica e o porquê dos conflitos entre judeus e palestinos (defeito meu), fica um pouco difícil compreender certos detalhes da trama, ainda mais que a narrativa atravessa muitas encarnações, nas quais os protagonistasZAHAR (JULIANE ARAÚJO) e ELIAKIM (DANIEL DALCIN) se reencontram, mas é possível acompanhar a trama e se interessar bastante por ela.

 

SINOPSE

ZAHRA (JULIANE ARAÚJO) e ELIAKIM (DANIEL DALCIN) formam um casal apaixonado, que vem atravessando os tempos, morrendo e renascendo, um em busca do outro.

Esse amor atravessou as vidas de ambos, ao longo dos séculos, e fez com que se reencontrassem, mais uma vez, no tempo atual.

Agora, no século XXIZAHRA é uma árabe da Palestina e ELIAKIM, um judeu.

Vivem conflitos particulares, querem transformar as suas realidades, mas acabam sendo movidos por suas respectivas obsessões: a criação do Estado Palestino (para ZAHRA) e a permanência e segurança do Estado de Israel (para ELIAKIM).

ANJO GUERREIRO (MARCELLO ESCOREL), que vive numa dimensão diferente da que se encontram ZAHRA e ELIAKIM, acompanha e comenta a saga do casal, fazendo paralelos com histórias passadas em diferentes momentos da humanidade.


Trata-se de uma produção bem simples, em termos técnicos e de criação, porém se sustenta num tripé, com firmeza, num texto de boa qualidade, numa direção inteligente e num trabalho de interpretação de bom nível, no qual se destacam MARCELLO ESCOREL e JULIANE ARAÚJO.

Recebi, generosamente, de presente, um exemplar do livro, por intermédio do autor, e comecei a lê-lo, achando, porém, um pouco difícil acompanhar a leitura e imaginar aquilo encenado. Parei na metade e decidi reiniciá-la, após ter assistido ao espetáculo, o que já fiz, e as coisas mudaram. Aí, tudo ficou diferente e essa leitura reforçou a minha admiração pelo espetáculo, dirigido por MARCUS ALVISI, de forma inteligente, como já disse, e criativa, trabalhando com os parcos recursos de que dispunha, o que já se tornou uma constante no atual panorama do TEATRO BRASILEIRO. A falta de dinheiro e de patrocínios tem de ser compensada por inteligência, criatividade, mangas arregaçadas, além de cumplicidade de um grupo de profissionais, com o firme propósito de erguer um espetáculo de TEATRO, como ocorre aqui. Todos dando o máximo de seu sangue, para nos proporcionar um bom espetáculo teatral.

O tema é mais do que atual, o que motiva o interesse do público, desde a primeira cena. Repito que, de início, também no palco, sente-se (Eu, pelo menos, senti.) um pouco de dificuldade para se entender em torno do que gira a trama; mas é por pouco tempo. Paulatinamente, vamos nos inteirando dela, compreendendo a relação daquele casal, tudo isso se tornando mais plausível, a cada aparição e interferência do ANJO GUERREIRO, ou seja, o do APOCALIPSE.

Um detalhe interessante, e importante, do texto é que o autor não toma partido de nenhum dos lados, deixando os espectadores livres para fazê-lo, contudo não deixa de “levantar questões, como a influência do fundamentalismo religioso na sociedade, investigar as origens do conflito e refletir sobre o futuro do Oriente Médio”; e, também, por analogia e extensão, “refletir um pouco, ou muito, sobre o Brasil”. Talvez, o interesse maior de CLÓVIS LEVI tenha sido este mote dos conflitos no Oriente Médio, usando-o como uma espécie de “cortina de fumaça”, para poder falar das nossas próprias mazelas, do momento político-social difícil por que passa o Brasil. Ou eu estaria exagerando e vendo chifre em cabeça de burro? Mas a ARTE não existe para uma única leitura, não é mesmo?

texto apresenta-se, visivelmente, como bastante atual, na medida em que “provoca reflexões sobre a conscientização do valor da vida e sobre o direito que cada cidadão tem de acreditar em seus princípios e em lutar, civilizadamente, na defesa deles”. Não teria a polarização entre o casal ligação com o que vem acontecendo, em “terras brasilis”, e no mundo também, de uns anos para cá e, mais acirradamente, no último ano, por aqui?

O trio de atores apresenta-se num bom nível de interpretação. Além de ESCOREL, só conhecia o trabalho de JULIANE na peça “A Reunificação das Duas Coreias” e fiquei bastante bem impressionado com o rendimento da moça, principalmente na cena em que ela narra (Não darei “spoiler”.) um triste fato, acontecido com sua mãe, numa de suas encarnações. Na sessão a que assisti, a atriz foi aplaudida, muito merecidamente, em cena aberta. Quanto a DANIEL, jamais o vi num palco e nem sei se é sua estreia no TEATRO; fui informado, contudo, de que já atuou em vários trabalhos na TV. Ele alterna momentos bons, de interpretação, com outros, simplesmente, “normais”, ficando, na média, com um saldo positivo. Além dos personagens, a dupla intercala breves momentos de narração, quebrando a quarta parede.

Apesar da temática, girando sempre em torno de contendas, guerras, sangue derramado, mortes de inocentes, o dramaturgo houve por bem pincelar o texto com ótimos momentos de humor, sempre trazido pelas asas do ANJO GUERREIRO, vivido, de modo formidável (Um dos adjetivos preferidos de Nelson Rodrigues, que Dona Fernandona usa muito. Uma homenagem aos dois.) por um ator de grandes recursos, para o drama e a comédia, com larga experiência no campo da representação: MARCELLO ESCOREL. O deboche é a marca do personagem. Seus ensinamentos são pontuados por ironia e soam como “parábolas jocosas”, se isto fosse possível e admissível. Ele sempre entra em cena para quebrar a tensão e aliviar, um pouco, o espírito do espectador, aquele que se deixa envolver, emocionalmente, pelos diálogos de ZAHRA e ELIAKIM. O personagem estabelece um ótimo contraponto entre o sério e o engraçado. No “release”, enviado por JSPONTES COMUNICAÇÃO, assim está escrito, sobre o personagem“Carreirista e imprevisível, debochado e irreverente, o ANJO é um dos mais próximos auxiliares de Deus. Com frequência, discorda de seu superior, mas, dono de um caráter duvidoso, jamais o confronta ou revela o que, verdadeiramente, pensa. Como um antigo Bobo da Corte, ele expõe as verdades ‘inconvenientes’, evitadas pelos outros.”.

Para lá de um espetáculo simples, no quesito elementos técnicos e de suporte, apresenta um palco vazio, com rotundas pretas à volta. O cenário, de JOSÉ DIAS, se resume a três cadeiras, as quais estão em cena poucas vezes. Os figurinos, de MARIA DUARTE, não têm nada de especial a ser comentado, mas atendem às exigências da montagemMARCUS ALVISI assina uma boa trilha sonora, e o mestre AURÉLIO DE SIMONI é responsável por uma iluminação bem simples e descomplicada, já que o texto e a proposta da direção, a meu juízo, não pedem muito da iluminação.

Confesso, apoiando-me na transparência e na sinceridade, das quais muito me orgulho, que fui ao Teatro Ipanema bastante cético. Mas sempre vou, sem preferências de gêneros e independentemente das distâncias ou de que, no elenco, haja “globais” ou não. Vou pelo TEATRO. Vou, sempre que convidado, primeiramente, pelo prazer de ser um compulsivo espectador de TEATRO e também pela minha função de crítico e jurado de Prêmios de TEATRO. O ceticismo leva a duas vertentes, sempre, ambas marcadas pela surpresa: ou se gosta do espetáculo, ele nos surpreende positivamente; ou não se gosta dele e se volta, para casa, frustrado. Se querem saber, voltei para a minha casa muito feliz. Assim, recomendo o espetáculo.

E VAMOS AO TEATRO!!! OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!! A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!! RESISTAMOS!!! COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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