‘Navalha na Carne’ – Uma linda e merecida homenagem a Tônia Carrero

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

Com 18 anos recém-completados, em setembro de 1967, ganhei de presente, dos meus pais, o dinheiro destinado à compra de um ingresso para uma peça, sobre a qual muito se falava, de um “dramaturgo maldito”, muito corajoso, e que escrevia para o povo, no sentido de escrever simples, sobre o dia a dia, sobre pessoas comuns, numa linguagem acessível a qualquer um, escolado ou não. Nua e crua. A peça era “NAVALHA NA CARNE” e o autorPLÍNIO MARCOS, com apenas 32 anos, na época, e que já começava a ser conhecido, e muito discutido, provocando amor ou ódio, por outros textos, tão “fortes” quanto “NAVALHA…”, como “Barrela”, escrita em 1958, aos 23 anos, cuja encenação só fui conhecer bem mais tarde, e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, na inesquecível montagem carioca, a primeira, salvo engano, também em 1967, estreada no dia 3 de outubro, curiosamente, no requintado Teatro Maison de France, dirigida por Fauzi Arap, tendo este e Nélson Xavier, nos papéis de Tonho e Paco, respectivamente. Depois dessa temporada, seguiu-se outra, no Teatro Gláucio Gill, até fevereiro de 1968. Essas duas peças me marcaram para sempre. Assisti às duas montagens mais de uma vez. De lá para cá, até estes nossos dias “de chumbo” (Já vimos esse filme e não gostamos. Era em preto e branco e o mocinho morria no final.), eu e PLÍNIO, vivemos um “casamento platônico”, sem que ele disso soubesse. Não chegamos a nos conhecer, pessoalmente. Aliás, lamento muito nunca ter tido a oportunidade de lhe dizer, cara a cara: “Você é um gênio!”. Mas tantos o fizeram por mim, e ainda o fazem, hoje, em pensamento. Já passa, portanto, de meio século a minha paixão declarada por um dos nossos maiores dramaturgosPLÍNIO MARCOS de Barros, falecido em 1999 e que tanta falta nos faz, hoje, nesta nossa luta por liberdade de expressão e respeito à diversidade humana, contra uma “ditadura legítima e democrática (?), paradoxalmente eleita”.

Em pleno regime de exceção, imposto pela maldita ditadura militar de 1964 – FOI GOLPE, SIM!!! – (“Página infeliz da nossa história…” – Chico Buarque de Holanda.)PLÍNIO ousou, com muita coragem e bravura, desafiar os “gorilões” de plantão, questionando o que havia de mais podre no regime e mergulhando nos porões da alma humana, daqueles menos favorecidos, dos marginalizados, na intenção de retirar, dos olhos de uma burguesia acomodada (pleonasmo), as vendas que a impediam de enxergar uma realidade em chagas e fazê-la ter a consciência de que a Terra poderia ser azul, como revelou, em 1961, o cosmonauta russo Yuri Gagarin, mas que a vida não era cor de rosa.

É impressionante como um homem que, academicamente, só havia concluído o curso primário pudesse ter a visão de mundo que PLÍNIO tinha e, autodidata, em dramaturgia, tenha deixado uma extensa lista de obras dramáticas (quase 30 peças), a grande maioria de grande sucesso, além de muitos livros e 4 peças infantis (uma inacabada)! Pasmem!!! PLÍNIO MARCOS é comparável, nesse sentido, ao grande compositor Cartola, um estupendo poeta, “de poucas letras”. A prova do grande talento de PLÍNIO é que, além do enorme sucesso que seus textos sempre fazem, no Brasil, suas peças já foram traduzidas para outros idiomas (inglês, espanhol, francês e alemão) e representadas em várias cidades onde se falam essas línguas. “NAVALHA NA CARNE” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja” são os seus textos mais encenados e dos mais conhecidos e apreciados, ainda que, na minha modesta opinião, outros a esses dois se equivalham. Algumas de suas peças também receberam versões para o cinema.

Se eu me propusesse a falar, com detalhes, sobre a vida e a obra de PLÍNIO MARCOS, esta crítica ficaria muito longa. Fico, então, com a proposta de dissecar a NAVALHA…”, mais propriamente, a montagem que encerrou temporada na Arena do SESC COPACABANA, mas que já está agendada para estrear no Teatro Gláucio Gill, em 11 de maio próximo. Façam como eu fiz: assisti na primeira temporada e o farei, novamente, na segunda!

 

SINOPSE

 

NEUSA SUELI (LUÍSA THIRÉ) é uma prostituta decadente e explorada por VADO (ALEX NADER), seu cafetão. Moram numa pensão de décima categoria, um verdadeiro pardieiro. Em meio a brigas e desavenças, ela vai às ruas, para ganhar dinheiro, enquanto VADO sai com outras mulheres e passa a vida sossegado, sem trabalhar, na vagabundagem.

O que eles não esperavam era que VELUDO (RANIERI GONZALEZ), um homossexual que trabalha como faxineiro, na pensão, roubasse todo o dinheiro de cima do criado-mudo do quarto dos dois, enquanto NEUSA SUELI estava fora, “fazendo a vida”, e VADO dormia, vadiando.

Ao retornar da rua, chegando de seu trabalho, entrando no quarto insalubre que habita, NEUSA SUELI encontra seu explorador, VADO, muito irritado e agressivo, por não ter encontrado o dinheiro que ela “deveria ter deixado para ele” e que a meretriz jurava tê-lo feito, ao sair, para ganhar a vida, deixando-o sobre o já citado móvel.

A prostituta, consequentemente, é intimada, por VADO, a dizer onde estava o tal dinheiro e o proxeneta inicia uma calorosa discussão com a amante, cobrando-lhe o que “lhe era de direito”.

O casal passa a investigar o principal suspeito do “sumiço da grana”, VELUDO, a única pessoa com acesso ao aposento. Ele é, então, chamado ao quarto, para esclarecer sobre o roubo.

Após acirrada discussão entre os três, VELUDO, depois de violentamente agredido por VADO, assume a autoria do furto, “justificando” o seu ato como uma “necessidade”, pois precisava de dinheiro para “comprar amor”, para dá-lo a um rapaz, como pagamento pelos seus “préstimos sexuais”. Promete, contudo, devolver a grana, quando recebesse seu salário mensal e consegue fugir das garras do violento VADO.

A briga revela preconceitos e ignorância, intolerância e humilhações, agressividade e desamor, poder e subserviência.

Depois de desvendado o mistério do roubo, NEUSA SUELI dá todo o seu dinheiro para o cafetão, já que este ameaçava ir embora, sumir da vida daquela mulher-objeto.

NEUSA SUELI tranca o quarto e esconde a chave, ameaçando seu amante com uma navalha, caso este insistisse em se recusar a manter relações sexuais com ela.

VADO consegue levar NEUSA SUELI na conversa, seduz a prostituta, recupera a chave e abandona-a, solitária, no quarto imundo, frio e impessoal, o seu microuniverso.

“NAVALHA NA CARNE” conta, num tempo curto, de uma madrugada, a história de três personagens marginais, ou marginalizados, que falam dos seus cotidianos, suas condições de “vida” (?), deixando à vista as cicatrizes marcadas pelo tempo e expondo, cada um deles, o seu nível de conduta, para atingir a “felicidade”.

Os três encarnam a existência subumana, marginalizada, a qual, normalmente, é varrida para debaixo do tapete.


Extraído do “site” oficial da peça: “NAVALHA NA CARNE” conta a história de três pessoas, cujas diferenças e visões distintas do mundo corroboram para que haja conflitos em apenas um ato, trazendo uma tonicidade existencial, ao falar de três marginalizados. A força, porém, do texto extrapola o âmbito do extrato social ao qual pertencem os personagens, elevando o texto a uma sensível discussão de questões inerentes ao ser humano, independentemente da classe social ou da época à qual pertençam.”.

texto de “NAVALHA…” obedece ao estilo pliniano, de uma dramaturgia violentamarginalrealistacruel, amada, respeitada e disputada por toda a classe artística do TEATROatores e diretores. Todos desejam montar PLÍNIO; um currículo de um ator/atriz ou diretor/a não estará completo, se não houver uma montagem de um se seus textos, pelo menos. Acaba se tornando um sonho de consumo e uma realização profissional.

peça foi encenada, pela primeira vez, em São Paulo (1967), após uma luta ferrenha por sua liberação, uma vez que a nojenta e burra Censura Federal, um câncer para a CULTURA, não queria liberá-la, para ser levada ao palco. À frente da batalha contra os censores, os (falsos) “guardiões da moral da família brasileira”, estavam a própria TÔNIA CARREROWalmor Chagas e Cacilda Becker (Que trio inesquecível e saudoso!!!), principalmente, além de outros artistas e intelectuais. Na verdade, a sua liberação se deu graças à insistência de TÔNIA e ao descrédito do ignorante general/censor, que duvidou de que uma mulher como ela, linda, culta e de alta estirpe, conseguisse viver a personagem feminina da peçaNão levou fé o idiota. Ainda bem, porque TÔNIA se propôs à desconstrução de um estereótipo já construído, em função de papéis anteriores, de uma mulher lindíssima e que só fazia personagens ricas e felizes, e construiu uma NEUSA SUELI como poucas atrizes conseguiriam fazer.

Na primeira montagem, na capital paulista, o elenco era formado por Ruthnéia de Moraes (NEUSA SUELI)Paulo Villaça (VADO) e Edgard Gurgel Aranha (VELUDO), com direção de Jairo Arco e Flexa. Depois da montagem carioca, que contou com brilhantes e inesquecíveis interpretações de TÔNIA (NEUSA SUELI)Nélson Xavier (VADO) e Emiliano Queiroz (VELUDO), sob a direção de Fauzi Arap, o texto voltou a ser censurado, pela ditadura militar, depois de fatídico AI-5, e só pôde ser encenado 13 anos depois.

São incontáveis as montagens da peça. Assisti a várias, feitas por profissionais, estudantes de TEATRO e amadores, porém todos os meus mais calorosos aplausos vão para a de TÔNIA e a atual, dirigida, brilhantemente, por GUSTAVO WABNER e tendo, no elencoLUÍSA THIRÉ (NEUSA SUELI)ALEX NADER (VADO) e RANIERI GONZALEZ (VELUDO).

A propósito, a atual montagem, no título, vem acompanhada por uma espécie de subtítulo“UMA HOMENAGEM A TÔNIA CARRERO”. Trata-se de um projeto de sua neta, LUÍSA THIRÉ, que começou em março de 2018, para comemorar os 95 anos da atriz, completados em 23 de agosto de 2017TÔNIA faleceu no dia 3 de março de 2018 e a peça estreou, em São Paulo, no dia 23 de agosto de 2018, quando a atriz completaria 96 anos. Fez um estupendo sucesso, cumpriu apresentações em Niterói (RJ) e nos festivais de Pernambuco e Curitiba, neste ano; agora, está à disposição dos cariocas. Inclui uma exposição sobre a grande diva do TEATRO BRASILEIRO – “ETERNA TÔNIA” -, com curadoria de LUÍSA THIRÉ e ambientação de SÉRGIO MARIMBA, também responsável pelo cenário da peça. Antes do início do espetáculo, o espectador é brindado com um vídeo, de cinco a seis minutos, narrado por Carlos Arthur Thiré, também neto da homenageada, com ótimos depoimentos da própria e de PLÍNIO, sobre a peça (“A arte, nas mãos dos poderosos, constrange mais do que as armas.” – PLÍNIO MARCOS.).

TÔNIA CARRERO foi uma mulher à frente do seu tempo, das mais respeitadas e admiradas no país, por sua exagerada beleza, seu contagiante carisma e seu indiscutível talento. Para ela, “NAVALHA…” lhe daria, por meio de uma personagem “gauche”, a oportunidade de provar que também era uma intérprete de forte potencial dramático, como o fez e continuou fazendo, até o seu abandono dos palcos. Convenceu os mais céticos.

Sobre o texto, muito bem construído, diga-se de passagem, por meio de diálogos simplescurtos e contundentes, chegando a chocar os mais puritanos, predominando, como não poderia deixar de ser, o linguajar chulo do trio de personagens, podemos dizer que ele encerra, de forma bem verossímil, um quadro do submundo universal (A peça faz sentido em qualquer ponto do planeta Terra. O tema é universal e atualatemporal, ficaria melhor). Ou falar de violência contra a mulher, de homofobia, da supremacia de opressores contra oprimidos não é prato principal nas mídias de hoje, em qualquer parte do mundo? Ou a exploração sexual também não existe em todas as esquinas das pequenas e grandes cidades? Ou o “bas-fond” só existe na literatura, na imaginação dos escritores?

Ou pobrezamiserabilidade marginalidade existem apenas na ficção? No fundo, no fundo, a solidão é o grande tema da peça. Ao mesmo tempo, “NAVALHA NA CARNE”, título metafórico, dúbio, expressivo e muito bem escolhido pelo autor, é um texto visceralviolentorealista e… poético. Mais do que uma visão metafórica, enxergamos, em cena, uma alegoria gigante de opressor sobre oprimido, em embates, nos quais os papéis daquele e deste são trocados, cena a cena. Ora VADO pisoteia NEUSA SUELI, humilhando-a de todas as formas, física e/ou moralmente; ora é ela quem tripudia sobre o acuado e frágil VELUDO; ora é VADO, sempre dando as cartas, quem pisa, com todo o seu peso, sobre os dois mais fracos. Nos confrontos, entram em cena a força física do mais forte sobre o mais fraco, a sedução, como moeda de barganha, assim como a autopiedade e a total falta de empatia.

GUSTAVO WABNER, que, há algum tempo, vem trabalhando na assistência de direção de consagrados diretores, como Sérgio MódenaGabriel Vilella e Naum Alves de Souza, tem a oportunidade, em sua primeira assinatura, como diretor, em seu primeiro voo, como encenador, de mostrar o quanto aprendeu com seus mestres e optou por uma encenação despudoradamente realista, exigindo o máximo de verdade dos atores, os quais respondem à altura de tal exigência. Segundo o diretor, tal opção se deve ao fato de o realismo propiciar, ao espectador, “um maior entendimento, maior clareza, sobre o universo que o dramaturgo retrata”. E segue: “Nosso grande desafio foi tentar descobrir os silêncios, não cair na armadilha do grito, e, assim, descobrir as camadas e a humanidade dos personagens. Tentamos descobrir, também, alguma leveza e, quem sabe, até, alguma poesia”. Percebe-se uma total obediência do diretor ao texto, acrescida de interessantes pitadas pessoais, que enriquecem, sobremaneira, o trabalho. Os sentimentos de raiva, ira, ódio, que consomem o interior de cada personagem, principalmente VADO, são externados, de forma explosiva, em cenas muito verdadeiras, violentas, que, a despeito de qualquer técnica empregada pelos atores, no trabalho de interpretação, podem render-lhes ferimentos físicos. É tudo muito real, muito impressionante. É um espetáculo tenso, que prende a atenção do espectador, desde a primeira cena, e desperta-lhe uma ansiedade incontida, por saber até onde os três personagens conseguirão sustentar aquela situação.

É extremamente satisfatório o rendimento do elenco. Cada um dos três apostou todas as fichas em seus personagensLUÍSAALEX e RANIERI mergulharam, profundamente, nos estereótipos que representam. Ela não passa de uma mulher que respira, mas não vive, totalmente sem esperança, incapaz de alimentar sonhos, refém de uma rotina miserável, completamente submissa à tirania de seu homem. Um retrato simbólico de tantas neusas suelis que, diariamente, sofrem violências e humilhações, de toda sorte, por parte de seus maridos, noivos, namorados, quando não são assassinadas por eles. É excelente o trabalho de LUÍSA THIRÉ, a qual, por vezes – sem exagero de minha parte – me fez enxergar TÔNIA, sob as luzes dos refletores.

VADO também é um grande ponto positivo na carreira de ALEX NADER, um ator visceral, o que já provou em espetáculos anteriores a este. Seu VADO foi construído à luz de muito estudo e observação de tudo o que já se disse a respeito da figura dos exploradores de mulheres. O ator convence, plenamente, o público na pele de seu personagem, violento e debochado, insensível e egocêntrico, cabotino e arrogante, machão e cafajeste…

RANIERI GONZALEZ, até então, desconhecido para mim, salvo engano, carrega nas tintas, na composição do homossexual, o que, absolutamente, deve ser considerado como uma crítica negativa. Ao contrário, parece-me que o personagem deve ser mostrado, mesmo, como ele o faz, exageradamente afetado e demonstrando uma fragilidade, como se uma mulher fosse. É inevitável que provoque risos, vez por outra, com suas falas e trejeitos, o que pode ser decodificado, talvez, como uma espécie de preconceito, por parte de alguns espectadores, a despeito de, por outro lado, seu comportamento ser totalmente esdrúxulo e, portanto, fora dos padrões estabelecidos por uma sociedade preconceituosa. Aplausos também para o trabalho desse ator.

Os criadores responsáveis pelos elementos técnicos da montagem, todos profissionais do mais alto gabarito e premiados, foram muito felizes em seus projetos, individuais, porém interligados. Um só serve e satisfaz em função do outro. Falo de cenografiafigurinosiluminaçãotrilha sonoradireção de movimento e visagismo.

A propósito, extraído do “release” da peça, enviado por BARATA COMUNICAÇÃO, com cortes e adaptações: “A equipe criadora (…) imaginou o quarto de pensão, onde se desenvolve toda a ação dramatúrgica, como se ele existisse, onde tudo o que acontece fosse possível, realmente, ocorrer. Representamos o quarto da pensão da maneira mais natural. Na hora em que a NEUSA SUELI abre a torneira, sai água de verdade. A luz que existe nesse quarto de pensão é uma iluminação possível de existir, não há liberdades estéticas; há um neon, que reflete no quarto, pela janela, que vaza pela fresta da porta. Na trilha, não há música que venha de fora do quarto. Há um rádio/cd, fisicamente presente, na cena. Ele é usado, para trazer todos os momentos musicais do espetáculo. Quando o rádio toca na peça, ele toca de verdade. Quando há a trilha incidental, são barulhos que existem na vizinhança: um caminhão que passa, a sirene da polícia, um cão que late etc.. A ideia do diretor é que neste “quarto/ringue”, os três personagens sejam invadidos por tudo o que acontece ao redor”.

SÉRGIO MARIMBA projetou e construiu um cenário perfeito, para a peça, não só nas dimensões e formato do quarto, como também com relação a tudo o que existe dentro dele. Trata-se de uma estrutura que se abre, triangularmente, para a plateia, e esse formato me pareceu bem simbólico, se considerado o triângulo formado pelos personagens, não, exatamente, amoroso. É impressionante o nível de detalhamento, com relação ao que se poderia chamar de direção de arte. Todos os objetos e peças em cena têm uma função e são a prova mais contundente de um refinado trabalho de pesquisa do cenógrafo, o qual, dentro da proposta realista da direção, faz até com que, como já foi dito, de uma torneira, numa pia, jorre água de verdade. Os traços de desgaste e deterioração do ambiente são impressionantes. Trabalho merecedor de prêmios.

Os figurinos, propostos por um craque, MARCELO MARQUES, caem como uma luva para cada personagem. Todas as peças foram escolhidas, minuciosa e acertadamente, pelo figurinista. Junto com o ótimo trabalho de visagismo, de ROSE VERÇOSA, eles são responsáveis pela perfeita identidade visual de cada estereótipo.

Em consonância com a cenografia, e para mais valorizá-la, PAULO CESAR MEDEIROS executa, nesta peça, um de seus mais marcantes trabalhos, como iluminador, dosando intensidades e cores, atentando para detalhes que podem passar despercebidos ao espectador comum, porém serão sempre observados e aprovados por quem assiste ao espetáculo com uma visão e conhecimento mais técnicos. O detalhe do neon, na fachada do prédio, que fica parcialmente visível, quando a janela está aberta é um deles. Mais importante, nesta montagem, que a presença da luz é a ausência ou precariedade dela, o que está totalmente de acordo com a proposta da direção.

Os detalhes da direção musical, a cargo de MARCELO ALONSO NEVES, já foram comentados, em algum dos parágrafos acima, no que diz respeito à sonoplastia, a sons incidentais. Só me resta acrescentar que se trata de um excelente trabalho, faltando falar do aspecto brega das canções escolhidas para a trilha sonora, a cara dos personagens e da peça.

Para fechar os comentários sobre a parte técnica, faz-se necessária uma menção elogiosa ao desafiador trabalho de direção de movimento, assinado por SUELI GUERRA, responsável pelos deslocamentos dos atores em cena e de uma “coreografia”, para os embates físicos, de forma que LUÍSAALEX e RANIERI passem muita verdade, com o cuidado de não se ferirem em cena.

Desde sua estreia, no ano passado, em São Paulo, eu aguardava, ansiosamente, a oportunidade de conferir esta montagem, na certeza de que ela me agradaria muito, porém confesso, com muita alegria e, também, orgulho, dos nossos artistas, que ela superou, em muito, tudo o que eu esperava dela. Merecia, mesmo, portanto, uma segunda temporada; quiçá, outras.

Recomendo, com o maior empenho, esta peça e, em especial, parabenizo, LUÍSA THIRÉ, pela idealização do projeto, e GUSTAVO WABNER, pela coragem de debutar, como diretor, com este clássico de PLÍNIO MARCOS, fazendo-o com muita competência, o que já o credencia a assumir outras direções. Só não gostaria de perder o bom ator, que ele também é.


E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

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