‘Não é panfletária, é abrangente’, explica atriz sobre espetáculo que retrata revolta contra tirano

Luiz Maurício Monteiro

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Na adaptação teatral, a revolta contra o tirano Fernão de Gusmão é ambientada numa fábrica

Em tempos de um país polarizado quando o assunto é política – onde muitos defendem fervorosamente um lado, enquanto outros tantos abraçam incondicionalmente o outro – quem for assistir ao espetáculo “Fonte Ovejuna”, em cartaz no teatro Cesgranrio, no Rio Comprido, não vai ver qualquer tipo fanatismo. Em bate-papo com o RIO ENCENA, Luísa Vianna, atriz e uma das idealizadoras do projeto, admite que a peça carrega convicções políticas da Fricta Cia. – responsável pela montagem – mas garante que as críticas feitas não possuem um político específico como alvo.

Adaptação da obra homônima lançada pelo dramaturgo espanhol Lope de Vega há 400 anos, o espetáculo pretende mostrar que certas questões mudaram pouco ou nada em quatro séculos. Na trama, funcionários de uma fábrica, sobretudo mulheres, se revoltam contra Fernão de Gusmão, manda-chuva da empresa que vem abusando das pessoas em diferentes sentidos.

Para Luísa Vianna, que vem trabalhando no projeto com os parceiros de cena Hikari Amada e Vinicius Teixeira desde a fundação do grupo teatral, em janeiro deste ano, a peça, dirigida pela dupla Manu Hashimoto e Samara Pinheiro, aproveita esta história para chamar atenção para “o sistema”, sem direcionar desaprovações para A ou B.

— A crítica que o espetáculo faz é ao sistema de uma forma geral. Somos seres políticos, nossas convicções estão ali, mas não focamos numa pessoa só. É uma crítica a esse sistema que cria pessoas capazes de falar e fazer atrocidades como (o presidente brasileiro Jair) Bolsonaro e (o presidente americano Donald) Trump. Mas a peça não faz uma crítica ao Bolsonaro, por exemplo. Ela não é panfletária nesse sentido, mas, sim, abrangente para falar do sistema, do patriarcado, do capitalismo que fazem as pessoas sofrerem há tanto tempo — explica Luísa, que, assim como os outros atores, deu contribuições pessoais para a adaptação no texto arrematado por Nina Tomsic.

Luísa Vianna (C), Vinicius Teixeira e Hikari Amada são os idealizadores da peça, Fotos: Aloysio Araripe/Divulgação

Dentre estas adaptações, está o fato de a história ser ambientada numa fábrica chamada Fonte Ovejuna e não num povoado de mesmo nome, como acontece na obra original de Lope de Vega. Mas independentemente do cenário, o vilão é o mesmo. Fernão é opressor e abusa, especialmente, de mulheres. Isto até que uma delas inicia uma revolta que culmina na morte do tirano. Para Luísa, até mesmo o antagonista é vítima do sistema que ela já havia mencionado.

— É um sistema de poder que oprime as pessoas, tanto opressor quanto oprimido. O Fernão, que é o dono da fábrica, o dono de tudo, abusa das mulheres. Ele já sofreu muito e hoje acha que isso é o certo. Até que uma mulher dá um basta e gera a revolução. É uma peça sobre luta feminina e união do povo — acrescenta a atriz, relembrando como decidiram montar “Fonte Ovejuna”: — Vinícius e eu sempre fizemos musicais, o que é legal, mas não dá muita autonomia. Queríamos fazer uma coisa nossa. Começamos a procurar um texto que não tivéssemos que pagar direitos autorais, até que um amigo nos apresentou este. E gostamos! Uma mulher fazendo revolução há 400 anos, achamos que poderia ecoar nos dias de hoje.

As reações do público, porém, não têm sido exatamente aquelas que o elenco imaginava. Luísa conta que o retorno que tem tido dos espectadores é, na maioria das vezes, tomado pela emoção.

— A gente achou que as pessoas sairiam enraivecidas, mas saem emocionadas. É uma coisa menos inflamada, as pessoas ficam tocadas de perceber que se identificam com o que acontece na peça. A gente trabalhou muito tempo nesta peça, e quando se está num processo longo assim, muitas vezes se perde a noção do que as pessoas podem estar achando. Então, fiquei surpresa de elas ficarem tocadas. É uma peça difícil, não é tranquila de se ver, com cenas violentas e tristes, mas quando acaba, elas dizem “nem vi o tempo passar”. Achei legal ficarem presas à história — encerra.

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