‘Mojo Mickybo’ retrata cotidiano com excelência, mas texto carece de conflito claro

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Em cartaz no Teatro XP Investimentos (antigo Teatro do Jockey), na Gávea, “Mojo Mickybo”, que tem direção de Diego Morais, traz texto do irlandês Owen Mccaferty inédito no Brasil. O esmero na adaptação, a opção por um naturalismo que reflete bem o texto, e a qualidade de cada elemento (sobretudo os atores) fazem a montagem valer a pena.

A história gira em torno de dois garotos que desenvolvem uma amizade em uma cidade aparentemente pequena, pobre e sem futuro. Digo “aparentemente” porque nada no texto é claro, e isso se torna um problema. Exemplos: um dos personagens mora na “rua de cima”, e isso instaura um clima de tensão, mas não sabemos o motivo ou a intensidade; há um pano de fundo de desalento, há a menção a soldados… Mas nada disso estabelece um contexto. É tudo muito subjacente, muito subjetivo para construir um conflito sólido o suficiente para carregar a narrativa e a peça.

O cenário de Clívia Cohen preenche esse espaço, digamos assim. A cidade ganha uma estrutura clara, com uma profusão de objetos para interação, planos diferentes, etc. A caracterização metálica sugere uma impessoalidade, o que tem a ver com a ideia exposta no programa.

Os figurinos, também de Clivia Cohen, seguem uma direção diferente do cenário e fornecem uma estética mais arquetípica. Retratam meninos quase simbólicos, como se não fizessem parte daquela realidade pesada e fria, com roupas coloridas, macacões maleáveis que transformam-se conforme a necessidade de metamorfose dos atores.

Estes, por fim, costuram os aspectos díspares dos elementos descritos até aqui. Cirillo Luna e Pedro Henrique Lopes conseguem chamar a atenção para a relação dos personagens, seus anseios de infância, seu imaginário riquíssimo que dá sentido àquela realidade nada generosa.

Em suma, “Mojo Mickybo” ganha o espectador na medida em que retrata um dia-a-dia com dedicação e sensibilidade, mesmo seu significado permanecendo oculto na ausência de um conflito central claramente expresso. O cotidiano, tão ausente do teatro carioca e das discussões da própria classe teatral, segue sendo nosso primeiro e último reduto de humanidade, o terreno onde passamos a maior parte de nossas vidas.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

* As críticas de Péricles Vanzella são publicadas aos domingos, mas nesta semana, excepcionalmente por problemas técnicos, a publicamos nesta terça-feira

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