‘Meu Seridó’ – O Seridó é nosso

RIO ENCENA

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Tempo estimado de leitura: 10 minutos

Em abril deste ano (2019), mais uma vez, fui convidado, pelo SESC, para participar dos eventos de abertura do Projeto Palco Giratório, o que acontece, a cada ano, numa capital diferente. Neste, foi em Natal, Rio Grande do Norte. Quem estiver interessado em detalhes, acesse este “link”, que contém um artigo que escrevi sobre o Projeto, à época, no meu blogue.

Uma das atrações, talvez a mais aguardada de todas, é, no último dia do evento, a apresentação de um espetáculo teatral, escolhido dentre os que foram selecionados para “girar”, pelo Brasil, graças ao Projeto. A peça com que nos brindaram, fechando, com chave de ouro, a festa de encerramento, foi “MEU SERIDÓ”, uma produção da CIA. CASA DE ZOÉ, sediada na cidadã anfitriã. O espetáculo fez, em agosto, dos dias 8 a 11, no seu “giro”, apenas quatro apresentações no Rio de Janeiro, em unidades diferentes do SESC (SESC Ginástico, SESC São João de Meriti, SESC Tijuca e SESC Nova Iguaçu, respectivamente), e, infelizmente, embora muito desejasse, não consegui disponibilidade, na agenda, para revê-lo. Torci muito para que conseguissem fazer uma temporada por estas bandas, até que, para a minha surpresa e imensa alegria, recebi convite para uma curtíssima temporada de “MEU SERIDÓ”, no Teatro de Arena da Caixa Cultural. Não pude deixar de ir no dia da estreia, mesmo sob forte temporal, que não me impediu de matar meu incomensurável desejo. E voltei três dias depois, num domingo.

Trata-se de um espetáculo de refinadíssima qualidade e bom gosto, uma montagem muito bem cuidada, que vem arrancando, como naquela noite, em Natal, muitos aplausos, em todas as praças que tem percorrido. E não poderia ser diferente, no RioUm grande sucesso, de público e de crítica.

No artigo acima referido, prometi que, quando, e se, a peça viesse para o Rio, eu escreveria a crítica que ela merecia, o que faço agora, ainda que de forma um tanto superficial, em função dos atropelos de final de ano, quando o tempo cronológico parece aumentar sua velocidade e o psicológico nos atormenta, uma vez que não conseguimos dar conta de tudo o que temos para fazer. Creio, porém, que vou conseguir condensar, em palavras, o que esse espetáculo desperta em mim e me provoca a vontade de revê-lo todos os dias.

SINOPSE

Você conhece o Seridó?

Fica no sertão do Rio Grande do Norte, e um espetáculo teatral resolveu trazê-lo até as pessoas, pelos palcos da vida.

“MEU SERIDÓ” proporciona um passeio imaginário e delirante por esse lugar arcaico e mítico.

Um território nostálgico, de arengas e amores.

Em apenas 65 minutosdez mil anos passarão diante de seus olhos.

Universal, ao falar da própria aldeia, “MEU SERIDÓ” versa, acima de tudo, sobre o mais atual (e eterno) dos temas.

Trata da relação do Homem com a Terra – que, nos últimos tempos, infelizmente, vive um grave impasse.

Tudo, é claro, com muito humor, música e boas doses de reflexão.

peça apresenta um olhar poético e divertido sobre a origem e os costumes da região do SERIDÓ, terra natal da atriz TITINA MEDEIROSidealizadora da montagem.


CASA DE ZOÉ é uma produtora, idealizada pela atriz TITINA MEDEIROS, em NatalRio Grande do Norte, com o intuito de promover encontros artísticos e suas derivações criativas. Tendo como seu primeiro grande projeto o espetáculo “MEU SERIDÓ”, essa realizadora de arte e cultura tem sua ênfase voltada para o TEATRO, mas já vem despontando com projetos em diversas outras áreas de expressão artístico-cultural.

espetáculo é fabuloso, porque, de forma lúdica, porém provocando muitas reflexões a respeito do nosso passado histórico, refletido e projetado no presente que, infelizmente, ainda vivemos, diverte e nos proporciona o prazer de ver um trabalho de interpretação tão correto, feito por um quinteto de admiráveis atores / músicos – TITINA MEDEIROS, NARA KELLY, CAIO PADILHA, MANU AZEVEDO (substituta eventual), MARCÍLIO AMORIM e IGOR FORTUNADO -, sob uma criativa e enriquecedora direção, de CÉSAR FERRARIO, para um rico e bem escrito texto, de FILIPE MIGUEZ, que partiu de uma profunda e profícua pesquisa, de LEUSA ARAÚJO.

É bem possível que aqueles que não assistirem a “MEU SERIDÓ” continuarão com uma imagem embaçada, distorcida, falsa e incompleta do nosso passado histórico, da formação da nossa cultura e de nossa gente, tudo muito parecido, guardadas as devidas proporções, em todo o território nacional, aqui representado por um pedaço de Brasil, situado no sertão da região nordeste brasileiro, abrangendo dois estadosRio Grande do Norte e Paraíba, uma localização interestadual, portanto, oriunda da antiga região da Ribeira do Seridó, abrangendo vários municípios daqueles dois estados.

“Há divergências quanto à origem do topônimo ‘Seridó’. Segundo o folclorista e historiador Luís da Câmara Cascudo, vem do linguajar dos tapuias, transcrito como ‘ceri-toh’, que quer dizer ‘pouca folhagem e pouca sombra’, em referência às características da região. No entanto, existe o fato de que os colonizadores eram cristãos-novos, descendentes de judeus, os termos “sarid” e “serid”, seriam oriundos do hebraico, que significaria ‘sobrevivente’ ou ‘o que escapou’. Ou, ainda, ‘she’erit’, no sentido de ‘refúgio dEle’ ou ‘refúgio de Deus’”(Wikipédia). Essa questão, inclusive, está inserida no texto da peça.  Qualquer hipótese etimológica do nome da região, dentre as três apresentadas, poderia ser aceita, entretanto, considerando as características climatológicas do lugar e um quase “oásis’, que ele representa, com relação à totalidade do nordeste brasileiro, embora também com temperaturas elevadas e sofrendo os impactos da seca, eu ficaria com as duas primeiras. Mas isso não vem tanto ao caso, com relação à peça; apenas como uma ilustração. Ou não?!

Sobre a montagem, extraído do “release”, enviado por CATHARINA ROCHA (MÁQUINA DE ESCREVER COMUNICAÇÃO)assessora de imprensa“‘MEU SERIDÓ’ nasceu de um desejo da atriz TITINA MEDEIROS, de falar sobre o seu lugar de origem, a região do Seridó, no sertão do Rio Grande do Norte. Pensado, inicialmente, como um espetáculo solo, o projeto ganhou maiores proporções, com a chegada do dramaturgo FILIPE MIGUEZ e do diretor CÉSAR FERRARIO. Em cena, TITINA passou a ter a companhia dos atores NARA KELLY, IGOR FORTUNATO, CAIO PADILHA – assinando, também, a trilha sonora – e MARCÍLIO AMORIM. A pesquisadora LEUSA ARAÚJO conduziu a equipe, numa árdua pesquisa histórica, com imersões no próprio Seridó. Foram oito meses de montagem, com 25 profissionais envolvidos (…).”.

Pegando carona nas palavras de TITINA“O espetáculo conduz o público, em um passeio imaginário e delirante, por um lugar arcaico e mítico, no sertão potiguar, com um tom nostálgico de arengas e amores.”. Mas não é que é isso mesmo o que se vê em cena?! E muito mais! Parodiando Shakespeare, com o máximo atrevimento, posso afirmar que há mais coisas entre o céu e a terra do Seridó do que pode imaginar nosso vão conhecimento. E ficarão, mesmo, sem conhecer os que não assistirem à peça. E vale tanto a pena conhecer tudo sobre o Seridó!!!

“A nossa narrativa não tem um compromisso histórico. Ela tem seu início através de uma menção ao plano mítico do Seridó, onde o Sol e a Terra disputam o amor de Chuva.”, explica o diretor da peçaCÉSAR FERRARIO. A intenção de mostrar uma evolução, do ponto de vista histórico, da região, a constituição de seu povo e sua cultura, é de suma importância, no espetáculo, entretanto isso não é apresentado num formato didático, que, certamente, não agradaria tanto ao público. Há um toque de poesia e de misticismo, os quais dão o pontapé inicial para a narrativa, mais do que imprescindíveis e super enriquecedores, sem que nos esqueçamos do bom humor e da música, dois grandes atrativos da montagem. E a teatralidade, é óbvio!

“Para FERRARIO, essa é uma fábula muito coerente com as questões que atravessam toda a história de qualquer lugar sertanejo e seu imaginário. ‘A partir disso, ela transita pela história do Seridó em seus espelhamentos terrenos, desde a chegada do homem andino até a vinda do vaqueiro e do português. O entrelaçamento dessas raças perpassa as histórias que vão sendo contadas ao longo do espetáculo’”., completa.

Ignorante confesso, até ter conhecido a peça, das particularidades do Seridó, posso assegurar que a pesquisa, de LEUSA ARAÚJO foi bastante profunda e merece nossos aplausos, do mesmo modo como o texto, de FILIPE MIGUEZ, escrito com muito critério, esmero e cuidado formal, procurando deixar bem explícitos todos os fatos, mantendo um nível popular, no melhor sentido do adjetivo, de “ao alcance de todos”, sem erudição nem rebuscamentos.

pesquisa “mergulhou à profundidade” de dez milênios, para encontrar provas dos primeiros seres humanos que habitaram a região. Felizmente, LEUSA não é “terraplanista” e aceitou as evidências científicas encontradas em seu árduo trabalho. (Momento descontração.) Há, no texto – não poderia deixar de fora o registro -, uma brincadeira, abordando a passagem, pela região, de um certo “homo seridoenses”, representado por um pequeno boneco. Depois, é a vez da chegada de um povo andino, de indígenas, do vaqueiro anônimo e dos portugueses, em dez mil anos. Quanto aos lusos, considerando-se a presença, até hoje, de costumes judaicos, ou a eles semelhantes, na cultura seridoense, não é possível determinar, parece-me, se, realmente, os d’além-mar que, primeiro, lá se estabeleceram foram os portugueses cristãos ou os judeus convertidos ao cristianismo. O fato é que, como em todo o território nacional, formou-se uma grande miscigenação.

Considero uma tarefa bastante difícil, para qualquer dramaturgo, reunir dados, coletados numa pesquisa científica, como foi o caso de FILIPE MIGUEZ, e transformá-los em histórias, em forma de dramaturgia, ou melhor, uma excelente dramaturgia, no que resultou “MEU SERIDÓ”, preservando, o autor, todas as informações e dando vida e ação a vários personagens, como JOSÉ DE AZEVEDO DANTASPAJÉ CUÓ, o português RODRIGO DE MEDEIROSMARIA PARAIBANAJOSEFA MENINA e tantos outros, vividos por apenas cinco atores, os quais seguem um texto escrito em versos, na sua maior parte, outro detalhe importante e difícil de ser atingido em bom nível, como ocorre aqui, alguns com rimas ricas ou, até, preciosas. A ideia de juntar, aos fatos históricos, o tom poético e mítico, que dá início à peça, com bastante ênfase, e reaparece, no seu final, de forma mais meteórica, parece-me um grande achado, assim como todas as metáforas que o texto encerra. Ele diz, com todas as letras, e, também, sugere, com todas as entrelinhas. A contenda entre o Sol e a Terra, na disputa pela Chuva, tão importante para o Chão, contando com um pouco de participação do Vento é um dos melhores momentos do espetáculo e serve para dar o seu tom e prender a atenção do espectador, até a última cena. Também encontramos, no texto, detalhes que podem sugerir relação com o atual momento político e sociocultural por que passa o Brasil. E como é fácil, para MIGUEZ, inserir o humor, no seu texto, com o objetivo de fazer críticas e dizer coisas sérias! Podemos afirmar, creio eu, que, para atingir a todos, FILIPE se utiliza de uma linguagem universal, muito expressiva pelo gestual, também, porém não abre mão – e, se o fizesse, o texto seria “falso” – de palavras e termos regionais“certeiras”, no dizer de TITINA MEDEIROS, como  como “arenga, acauã, caatinga, chocalhos, juremas, ribeiras e curimatã, o peixe (…)”, além de abestadoapois, bolacha seca, carecer, caritó, eita, cabra da peste, mainha, oxente, vixe

CÉSAR FERRARIO, a partir de um excelente texto, ergueu o espetáculo com uma proposta lúdica e dinâmica, dentro da seriedade que há, no fundo, na temática abordada. Apesar de, na ficha técnica, o gênero do espetáculo aparecer como “drama”, eu diria que se trata de uma comédia dramática; acho mais adequado, mais apropriado. Não que o objetivo primeiro da peça seja fazer rir; longe disso -, entretanto FERRARIO encontrou ótimas soluções para as cenas, ou a maior parte delas, engraçadas, de modo a deixar a narrativa leve, solta, jocosa e, ao mesmo tempo, profunda, provocando reflexões, por trás dos risos. É certo que o material humano à sua disposição deve ter-lhe facilitado bastante o trabalho, entretanto, é incontestável a excelente qualidade de “maestro” do grupo, com marcações exatas, tirando, de cada ator, o tom na medida para cada personagem, valorizando todos os aspectos do texto já aqui citados (história, humor, poesia e misticismo). A direção nos surpreende, a cada cena, com uma novidade, cada uma mais interessante que a outra, em termos de criatividade.

Sinto pena de quem não consegue ter acesso ao TEATRO, fixando-se na TV e, raramente, no cinema, e fica achando que sabe o que é ser um bom ator. Nada contra os dois últimos veículos de mídia – muito pelo contrário – nem estou querendo dizer que, neles, não haja bons e, até mesmo, ótimos profissionais da representação –, mas é porque, antes, sabem fazer bem TEATRO -, entretanto é indiscutível – e já perdi a conta de quantas vezes já disse isso – que é no TEATRO que se identifica quem tem, verdadeiramente, talento para a atuação. Porque é real, não dá para repetir, enganar; não há como regravar; é preciso ter “jogo de cintura”, para enfrentar o que não estava previsto nem ensaiado; saber improvisar, quando necessário. É preciso ter muita garra e determinação, além de um desapego ao “glamour”. Também tenho piedade dos que acham que só no eixo Rio/São Paulo se faz TEATRO de excelente qualidade. O elenco de “MEU SERIDÓ” é constituído por atores de TEATRO, da melhor estirpe, sem exceções: TITINA MEDEIROS, NARA KELLY, CAIO PADILHA, MANU AZEVEDO (“stand-in”), MARCÍLIO AMORIM e IGOR FORTUNATO. Há um perfeito nivelamento de talento entre o quinteto, um entrosamento total, e cada um, a seu modo e à sua hora, destaca-se dos demais, formando o todo, um dos elencos mais coesos que já vi atuando. Não farei nenhum destaque, pois não teria como proceder a isso. Além de grandes atores, ainda se defendem, bem, cantando e tocando instrumentos musicais. Na primeira vez em que assisti à peça, no RioTITINA MEDEIROS foi muito bem substituída por MANU AZEVEDO.

Como é talentoso JOÃO MARCELINO, responsável pela plasticidade do espetáculo, como artista criador do que, na ficha técnica, é identificado como direção de arte, abrangendo cenografiafigurinos e iluminação (Apenas a que faz parte do cenário.)! São três trabalhos bem distintos, via de regra, executados por profissionais diferentes, cada um na sua área, mas, indubitavelmente, são três elementos que dialogam entre si, e nem poderia ser de outra forma. Como, no caso, cenografia e figurinos foram idealizados por um só grande artista de criação, tudo é ótimo e não há como se atribuir um destaque maior a um deles. Temos, sim, que reservar, a MARCELINO, um aplauso múltiplo.

cenografia pode ser considerada simples, sem muitos elementos fixos, no espaço cênico, entretanto o que há de adereços – aí já entra, também, a mão do figurinista – é de uma riqueza a toda prova. Cada objeto acrescentado a uma cena traz consigo uma carga significativa incrível. As molduras, que ficam ao fundo, fixas, nas quais os personagens se enquadram, são um elemento muito importante no conjunto da obra. Lembram aqueles retratos na parede, dos velhos patriarcas das famílias, mormente do interior. As gerações perpetuadas.

Um elemento de cena, que eu não saberia descrever, precisamente, uma grande “engenhoca amorfa”, também é bastante bem explorado, em várias cenas, desdobrando-se em muitas utilidades, assumindo diversas posições em cena, reservando-nos ótimas surpresas.

Os figurinos, os quais vão sendo montados sobre uma base, de acordo com cada um dos vários personagens, com o acréscimo de outras peças e de muitos adereços, são alegres, coloridos, criativos e lúdicos, além de apresentarem detalhes que provocam risos, por sua exuberância e “ousadia”.

iluminação, propriamente dita, o  desenho de luz, da lavra de RONALDO COSTA,  independentemente das variações de intensidade e de cores, de acordo com cada cena, traz um detalhe muito interessante, representado por muitas gambiarras, que fazem parte do cenário, como já foi dito, idealizadas por JOÃO MARCELINO, cruzando o alto do espaço cênico, com pequenas lâmpadas coloridas, as quais ficam acesas a maior parte do tempo, lembrando as festas da roça, dos quintais do interior, ou quermesses de igrejas interioranas. Muito bonito e ótima ideia! Afora isso, é muito variada a paleta de cores empregada, criando imagens de raro encanto e beleza, servindo para realçar detalhes de cada cena.

E o que dizer da corretíssima direção musical, assinada por CAIO PADILHA, com trilha sonora original, com raríssimas adaptações, executada ao vivo, apoiada em vários ritmos sertanejos, como o xote, o baião, o forró pé de serra, a ciranda, havendo espaço, também, para um “vira” ou “fado português”Nada, além de excelente! Melodias que ficam retidas nos nossos ouvidos e letras muito bem construídas; as sérias e as cômicas. CAIO também vive, paralelamente, da música, tendo iniciado sua vida artística como compositor, participando de festivais de música, além de ministrar aulas de rabeca, um dos instrumentos que toca na peça. Ele também já se apresentou, diversas vezes, no exterior e tem discos gravados.

Há certos detalhes, nesta montagem, que ficam marcados, para os espectadores, por seu nível de criatividade, beleza e poesia, como, por exemplo, o fato de os atores entrarem em cena e permanecerem completamente mudos e estáticos, por um longo tempo, dois de um lado e três do outro, olhares fixos, um no olho do outro, como se ignorassem o público. Soa como uma provocação, que, na verdade, incomoda um pouco, mas se trata de uma excelente estratégia da direção, para captar a atenção do público, podendo, também, como decodifiquei, significar o silêncio do sertão, quebrado, vez ou outra, pelo som emitido por um animal ou, talvez, pelo sino que os bois carregam ao pescoço.

Nem tanto original, mas muito significativo é o fato de um dos atores, logo na abertura do espetáculo, quando começa a descrever o Seridó, num belo e simples ritual, despejar, sobre o círculo de linóleo, que cobre o piso do Teatro, um punhadinho de terra, que diz ser ter vindo do Seridó. Ele, representando todos os colegas de cena, leva, literalmente, o Seridó a qualquer parte em que a peça esteja sendo encenada.

O emprego do recurso de utilizar a linguagem de radionovela também é muito bem inserido, no espetáculo, e excepcionalmente executado, com alguns atores dando, ao fundo, as falas dos personagens, os quais, representados por outros atores, só fazem mímica, à frente. A trama envolve JOSEFA ARAÚJO PEREIRA, filha do fundador, e CAETANO DANTAS CORREIA. Aqui, entra a provocativa questão do papel da mulher dentro da sociedade seridoense, representando, na verdade, um microcosmo de um Brasil da época. (Eu disse “da época”).

“MEU SERIDÓ” carrega, no seu bojo, boas doses de humor e teatralidadepoesia e misticismoverdade histórica e “oniricidade” (Acabei de criar um substantivo que se relaciona ao adjetivo “onírico”. Adoro neologismos!), sendo “uma fábula que traz temas como a condição da mulher no sertão, a extinção do indígena em detrimento do boi, a desertificação e questões que atravessam a história de qualquer lugar sertanejo e seu imaginário”.

O trabalho de todos os envolvidos neste grandioso projeto deve ser exaltado e supervalorizado, e confesso que, desde a primeira vez em que vi o espetáculo, realizado num local improvisado, um salão de festas de um hotel, na orla de Natal, com tudo dando certo, custou-me muito crer que se tratava da primeira produção da CIA. CASA DE ZOÉ.

Só lamento que a temporada, que se encerra no próximo domingo, 22 de dezembro (2019), tenha sido tão curta e realizada num Teatro que comporta um pequeno público. Que os DEUSES DO TEATRO, na sua “divina” sabedoria, possam abrir novas pautas para esta produção, que é motivo de grande orgulho para os brasileiros!

O que estão esperando mais? Que eu RECOMENDE O ESPETÁCULO? E precisa?! OXENTE!!!  SE AVEXA NÃO, CABRA?!

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
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O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!
CENSURA NUNCA MAIS!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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