‘Menines’ – Vamos ‘brincar’ de falar de gênero?

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

Em tempos sombrios, de polarização radical, quando tentam que nos curvemos a uma ditadura social, retrógrada, como, aliás, é toda ditadura, chegando ao extremo absurdo de tentar nos impor que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, o TEATRO, que sempre salvou, salva e continuará salvando, lutando contra os mais poderosos inimigos, surge, com alguns espetáculos, para tratar de assuntos muito importantes, ligados à causa LGBT+, como um grito de alerta e uma forma de resistência a essa hipocrisia de uma parte da sociedade, que insiste em que os que pertencem àquele universo (LGBT+) são pessoas inferiores, “do mal”, e não seres humanos, como todos somos, cidadãos, que pagam seus impostos e têm seus direitos, e que, portanto, merecem todo respeito, de todos, simpatizantes ou não da causa.

peça motivo desta crítica é “MENINES” e estreou, recentemente, para uma curtíssima temporada, no Teatro FIRJAN SESI Centro.

texto é da consagrada dramaturga MARCIA ZANELATTO, que também dirige a montagem, junto com CESAR AUGUSTO, outro bom diretor e ator, com quem MÁRCIA já vem mantendo uma vitoriosa parceria faz um bom tempo.

Por meio de, exatamente, seis esquetes, carregados de humor e leveza, com forte apelo lúdico, a autora “explora o atrito entre afetos e tabus num mundo balizado pelo binarismo, através de cenas curtas – casuais, porém reveladoras –, que se passam entre enamorados, como em “ROMIET E JULIEU”; entre amigos, como em “CASAL GRÁVIDO”; entre pais e filhos, como em “NO ARMÁRIO” e “EM FAMÍLIA”; diante de autoridades, como em “EXPLIQUE-SE”. Na cena “DRAG”, o espetáculo faz uma homenagem a Shakespeare que, segundo estudiosos, teria inventado esta palavra (DRAG), ao usá-la como sigla para a rubrica “DRESSED AS A GIRL” – em português, “VESTIDO COMO UMA GAROTA”, como consta no “release”, enviado por JSPONTES COMUNICAÇÃO (JOÃO PONTES e STELLA STEPHANY).

 

SINOPSE

 

ROMIET E JULIEU”: O enamoramento entre duas pessoas não-binárias, aquelas cuja identidade de gênero não é nem inteiramente masculina nem inteiramente feminina, revela a beleza do amor acima de qualquer tabu.

EM FAMÍLIA”: Uma mãe “paternal” e um pai “maternal” estão às voltas com seus filhos, um menino superprotegido e uma menina empoderada, liberando a filha e prendendo, em casa, o filho. contrariando o “natural”, ou “convencional”.

CASAL GRÁVIDO”: Dois casais se encontram para um jantar. Um dos casais está grávido e a barriga está… no homem. Ainda assim, os quatro têm que lutar muito, para tentar se livrar dos grilhões das convenções binárias, que se revelam na escolha das cores do enxoval do bebê. (NOTA: Este texto foi escrito em 2016, bem antes do recente episódio público, ocorrido acerca das cores “apropriadas” para meninos e meninas).

DRAG”: Um certo SR. WILLIAM e uma certa trupe de TEATRO estão às voltas com um problema de época: a Lei do Pudor, que, durante a Inglaterra do Século XVII, proibiu que mulheres subissem aos palcos. O primeiro ator da trupe discorda sobre a estratégia do autor, para driblar a lei: fazer com que atores homens se vistam de mulher.

“NO ARMÁRIO”: LUCA tem um mundo mágico, porém secreto: o armário de sua mãe, no qual vive trancado e de onde a mãe quer que ele saia. Comovidos com os conflitos de LUCA sobre “que peças do vestuário pode ou não usar”, em dado momento, o SAPATO DE SALTO e a PERUCA resolvem contar-lhe suas próprias e verdadeiras histórias.

 “EXPLIQUE-SE”: Num interrogatório surreal, PEDRO se vê diante da possibilidade de ser acusado de ter cometido um crime mais surreal ainda. As autoridades em vigor acabam de determinar que só se pode comer laranjas em cubos e não admitem que PEDRO possa gostar de chupar laranjas.


texto foi escrito sob encomenda, o que MARCIA já fez outras vezes, e sempre muito bem, para o projeto “Conexões de Fomento à Dramaturgia Jovem”, criado pelo National Theatre / Londres, no qual a querida dramaturga, para orgulho nosso, foi premiada, recentemente, como autora e realizadora, pelo International Brazilian Press Award, na categoria Perfomance Arts, pela ocupação “Brazil Diversity – LGBT+ short plays”, no Theatre503, em Londres / Inglaterra2018.

ISSO JÁ É UMA BOA CREDENCIAL, PARA QUE SE ASSISTA À PEÇA AQUI ANALISADA.

Além disso, MARCIA vem escrevendo seu nome no exterior, já tendo participado de debates internacionais (Women Playwrights International Conference / Chile, 2018Female Voices from Brazil, Martin E. Segal Center Theatre, Nova York, 2018Pen Word Voices, Martin E. Segal Center Theatre, Nova York, 2017Outburst Queers Arts Festival / Irlanda do Norte, 2017Birth Debate, Royal Exchange Theatre / Inglaterra, 2016) e outros fóruns ligados à causa LGBT+.

“MENINES” é um texto inédito, que costura seis esquetes, ainda que independentes, mas voltados para a mesma temática, todos em cenas curtas e com muito dinamismo, já no corpo da escrita, ampliado pelo trabalho de direção“Com ‘MENINES’, eu percebi que é preciso sonhar e lutar por um futuro melhor”, diz CESAR AUGUSTOdiretor convidado por MARCIA ZANELATTO. São esquetes muito bem humorados, “que montam um jogo de desconstruir certezas e provocar novas perguntas”.

Segundo a autora e codiretoraMENINES é uma brincadeira de dar três voltas em tornos das convenções binárias, rindo. Nada resiste ao riso, confio nele para nos dizer para onde o mundo deve ir. Nunca é de mais lembrar que, através do humor, chega-se, mais facilmente, à crítica. O espectador ri e reflete, em seguida, sobre o que o motivou a achar graça de algo que, no fundo, é muito sério. Acho que um dos maiores méritos do espetáculo reside no humor e na leveza do texto, nas boas soluções encontradas pela direção e no elenco de jovens e talentosos atores, os quais, além de interpretar, cantam, dançam e, alguns, tocam instrumentos musicais. Trabalho completo.

Quer em cenas nas quais se destacam mais, como “protagonistas” (Não se pode falar em “protagonismo”, propriamente dito, nesta peça.), quer em trabalhos em conjunto, todos os atores demonstram talento e estar muito conscientes de suas funções no espetáculo. Além de SIMONE MAZZERatriz e cantora, das boas, especialmente convidada para esta temporada de lançamento da peça (Espero que jamais deixe o elenco.), todos merecem destaque: (em ordem alfabética) AGNES LOBOBRUNO MARIA TORESELISA CALDEIRAIAN BELISÁRIOMAÍRA GARRIDOPEDRO MARQUEZ e ZANE“O elenco, escolhido nas peças das novas gerações e nas salas das escolas de TEATRO, coloca em cena um grupo de novos talentos de 20 a 25 anos, o que renova, também, a plateia do TEATRO carioca, dando voz e representatividade a uma geração que, raramente, vê suas questões nos palcos profissionais.”.

Pela sucessão dos (Ou das; prefiro o vocábulo no masculino.) esquetes, vamos aos destaques:

“ROMIET E JULIEU” – Uma excelente ideia de inverter os papéis, para abordar o amor do amantes de Verona. Se viva, ainda, fosse, talvez, uma determinada senhora, crítica afamada, profunda conhecedora e admiradora da obra do bardo inglês, ficasse chocada. Ou nãoROMIET é vivido por PEDRO MARQUEZ (excelente ator, com um ótimo “timing” para o humor) e o papel de JULIEU cabe a AGNES LOBO, também em boa atuação. Há, na cena, um toque de deboche, “do bem”, uma sátira muito bem feita às convenções estabelecidas pela sociedade, que não se diferenciam muito, as daquela época, das de hoje.

“EM FAMÍLIA” é outra ideia sensacional. Talvez seja a minha cena preferida. A inversão dos papéis e das situações é o ponto alto da cena, nas quais os dois casais de atores têm um rendimento totalmente nivelado; para cima. O pai, BRUNO MARIA TORRES, comporta-se como a mãe, e esta, vivida por MAÍRA GARRIDO, age como um pai, tradicionalmente falando. Ambos impõem cortes às asas do filho (ZANE), não o liberando para as “baladas”, com a justificativa de que “é muito perigoso” – o “menino” pode se perder” ou “ser, facilmente, “corrompido” pelas meninas – (mais a mãe), ao mesmo tempo que “liberam geral” a filha (ELISA CALDEIRA). O lema da mãe, diante do empoderamento da filha, é “Prendam seus bodes, que a minha cabra está solta!”, numa “subversão” total quanto ao que dizem os pais (homens) machistas.

“CASAL GRÁVIDO” – Também bastante interessante, este esquete apresenta, logo de cara, o insólito de, num casal, quem está, literalmente, “de barriga” é o pai. Entre eles, gira uma acalorada discussão acerca de ir contra os padrões estabelecidos, as convenções sociais a respeito do que pode ou não pode um menino e uma menina, o que cabe, ou fica melhor, a um e a outro. Chega às raias do patético, provocando muitas gargalhadas na plateia. O destaque maior vai para as cores que as crianças devem vestir: azul, para meninos, e rosa, para meninas. O curioso é que a cena é atualíssima, ainda que tenha sido escrita antes de uma certa senhora, que ocupa um ministério, neste (DES)governo federal pífio, de chanchada (de terror), ter apresentado, sua opinião, sua “tese”, catastrófica, sobre o assunto, em ampla divulgação, no Brasil e no exterior, para a nossa vergonha do alheio. Achei genial a ideia de chamar o grávido, PEDRO MARQUEZ, de PÃE e AGNES LOBO, a mulher do casal, de MAI. Além deles, estão, nesta cena, IAN BELISÁRIO (ELE) e ELISA CALDEIRA (ELA).

“DRAG” pega o espectador, aquele que é apaixonado pelo TEATRO, pela emoção e pela afetividade, pois põe em cena um personagem, um certo SENHOR WILLIAM, facilmente identificado, por um adereço, uma gola, como Shakespeare, um mito, um gênio da dramaturgia universal de todos os tempos, e faz alusão a um fato real, “de certa forma”, já abordado num excelente filme, “Shakespeare Apaixonado”, título com o qual foi batizada, no Brasil, a película britano-estadunidense, de 1998“Shakespeare in Love”, indicado a vários prêmios e vencedor de muitos. Era vedado a mulheres atuar no TEATRO e, caso houvesse lugar para uma personagem feminina, coisa rara, o papel deveria ser feito por um homem, devidamente caracterizado de mulher. (Releia os primeiros parágrafos desta crítica e a sinopse.)BRUNO MARIA TORRES, em excelente interpretação, é o SENHOR WILLIAM; os atores da companhia são AGNES LOBOPEDRO MARQUEZMAÍRA GARRIDO e ZANE, este o ator que se recusa a se travestir.

“NO ARMÁRIO” é uma cena muito criativa, em que o jovem LUCA (ELISA CALDEIRA), metaforicamente, nega-se a “sair do armário”, por não saber o que vestir, no que é pressionado por um SAPATO DE SALTO (MAÍRA GARRIDO) e por uma PERUCA (SIMONE MAZZER), ícones da padronização de um travesti, que “dialogam” com o personagem indeciso. É bem interessante ver o comportamento de alguém diante do medo de se assumir “gay” e de como seria a reação da sociedade em que vive, a começar pela família.

“EXPLIQUE-SE” – cena totalmente construída sobre uma metáfora, é bem interessante e muito bem escolhida, para encerrar o espetáculo. Por trás do surreal que o esquete apresenta, está a cobrança social, a não-aceitação do diferente, que não se encaixa nos padrões de gênero estabelecidos pela sociedade, a “punição” a quem “sai da caixinha”, a quem prefere “chupar” laranja a “comer” a fruta. Não é preciso desenhar; é?. É preciso, sim, ir logo ao Teatro FIRJAN SESI Centro, para assistir ao espetáculo.

direção da peça optou por um palco livre e poucos elementos cenográficos: ao fundo, alguns instrumentos musicais; tapadeiras de fitas largas, ao fundo e dos lados; uma pequena escadaria; uma arara de roupas; uma bola de pilates e um ou outro material de cena. Esse é o resumo cenográfico, idealizado por CESAR AUGUSTO e BELI ARAÚJO.

iluminação, de ADRIANA ORTIZ, os figurinos, de MARIA DUARTE, e o visagismo, de MÁRCIO MELLO / ESPAÇO RIO e BRUNO MARIA TORRES, jogam a favor da montagem.

LAVÍNIA BIZOTTO faz um simples e bom trabalho de direção de movimento, trazendo frescor à peça, e a direção musical, a cargo de LUIZA TOLEDO MAIRA GARRIDO, também agrega valores ao espetáculo. Vale a pena lembrar que as canções da trilha sonora são originaiscompostas por alguns dos atores, como consta na ficha técnica, assim como MARCIA ZANELATTO aproveitou dois poemas incidentais, no texto, também presentes da ficha técnica.

A encenação de ‘MENINES’ busca a estética da expressão corporal no século XXI, em que os papéis atribuídos a meninos e meninas se renovam e se fundem nos espaços de trabalho, de estudo e de lazer; nas ruas e nas casas. ‘MENINES’ é um espetáculo feito por jovens, para todas as plateias, e pretende ser uma celebração da alegria de ser e de viver.

Acho que os objetivos da peça são alcançados e ela deverá fazer uma boa temporada.

Recomendo-a e espero que a divulgação “de boca em boca” consiga lotar o Teatro FIRJAN SESI Centro, uma vez que são muito parcos os recursos da produção, para a divulgação deste bom espetáculo na grande mídia.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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