‘Meninas e Meninos’ – Depois da curva, um soco na boca do estômago

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Numa atitude bastante corajosa, KIKO MASCARENHAS e MARIA EDUARDA DE CARVALHO fazem uma ocupação artística, de dois meses, coisa rara, hoje em dia, no Teatro Poeirinha, com dois monólogos. De 3ª a 5ª feira, é a vez de MARIA EDUARDA apresentar “MENINAS e MENINOS”; de 6ª feira a domingo, é KIKO quem ocupa aquele simpático espaço, com “TODAS AS COISAS MARAVILHOSAS”. Por ora, falarei apenas sobre “MENINAS E MENINOS”, a única, das duas, a que assisti até agora.

Antes de qualquer primeira palavra sobre o espetáculo, é preciso fazer justiça ao nome de DIEGO TEZA, por seu precioso trabalho de curadoria, garimpando, entre dramaturgos do mundo inteiro, nomes que, realmente, dignificam a profissão e merecem ser conhecidos do público brasileiro. DIEGO já vem fazendo isso, há alguns anos, e todos os textos por ele descobertos e encenados no Brasil fizeram grande sucesso, de público e de crítica, uma prova cabal de seu “faro” para esse tipo de descobertas.

Desta vez, TEZA nos apresenta DENNIS KELLY, um dramaturgo britânico, de 48 anos, que, além de escrever para o TEATRO, também faz grande sucesso como roteirista de TV e cinemaKELLY é coautor do festejado “Matilda – O Musical”, escrito em 2010, que conquistou vários prêmios. Embora não seja um dramaturgo quase desconhecido em palcos brasileiros, mas não inédito, este texto o é.

espetáculo “MENINAS E MENINOS” teve sua estreia mundial em 2018, no The Royal Court Theatre, em Londres, e chega, portanto, bem “fresquinho” ao Brasil e num momento muito propício a passar a sua mensagem.

 

SINOPSE

 

protagonista do texto é uma mulher, de idade não especificada, que conta, ao público a história da sua vida.

Abordando, corajosamente e com muito humor, questões delicadas como sexo, maternidade e machismo, a personagem vai desenhando um novo perfil feminino, que, ao longo de séculos, tem lutado para se libertar das amarras patriarcais e experimentar um jeito completamente original de tornar-se mulher no mundo atual.

O trauma e as vicissitudes da vida também são o foco de “MENINAS E MENINOS”, em que MARIA EDUARDA descortina, em cena, a relação da mulher contemporânea com seu trabalho, filhos, marido e angústias, reforçando a célebre citação de Simone de Beauvoir“Não se nasce mulher. Torna-se mulher”.


Uma história de vida todos temos, umas mais interessantes, ricas e plenas que outras, entretanto, talvez, todas as histórias de vida pudessem ser transformadas num bom texto de TEATRO, na dependência de quem as escreveria. DENNIS KELLY executa essa tarefa com muita propriedade, e DIEGO TEZA, ainda que eu não conheça o original, parece-me ter feito uma bela tradução e adaptação, para o público brasileiro. A narrativa, nesta obra, é ficcional, embora ela nos deixe a impressão de que o autor escreveu sobre fatos reais. Na verdade, ele criou uma história de vida, ou de vidas, envolvendo personagens saídos de sua imaginação, mas que bem poderiam ser os nossos vizinhos de porta.

Ninguém espere ir ao Poeirinha para mera distração. A peça nos prega uma grande peça, nos seus minutos finais, daquelas que nos deixam perplexos. E é nisso que reside, a meu juízo, o valor maior do texto, de sua engrenagem. Somos enganados, no bom sentido. E muito bem enganados.

Imagine-se passeando num campo bucólico, passos leves, pensamentos positivos, alegria total, em comunhão com a natureza exuberante, experimentando o cheiro de uma relva fresca e úmida, ouvindo pássaros canoros, tropeçando, sim, aqui e ali, numa pedrinha, que não chega a machucar, esperando só o surgimento dos Sete Anões, voltando para casa, cantando, e, de repente, apenas após uma advertência da atriz, de que você deve se preparar para algo terrível, do nada, tudo se transforma numa terrível tempestade, de raios assustadores, riscando a placidez do céu, e trovões pavorosos, invadindo, agressivamente, os seus ouvidos, numa experiência que deixa o espectador, no mínimo, incomodado, pelo final do relato da personagem, algo que nos leva a refletir e a procurar encontrar uma razão e uma resposta para as mais diversas possibilidades de reação de um ser humano, diante de um grande revés em sua vida. Também é um alerta para que jamais tenhamos a certeza de que conhecemos, de fato, as pessoas com as quais convivemos, na mais íntima relação.

peça é um grande desafio para a jovem atriz MARIA EDUARDA DE CARVALHO e exige muito dela, do ponto de vista emocional. O texto leva-a a dar uma guinada de 360° graus no seu trabalho de interpretação, na sua emoção, completamente inesperado pela plateia, a qual reage à altura do drama vivido pela personagem. E isso se dá de uma forma muito “natural”, porque, a julgar pela seriedade do fato narrado, a atriz faz a transição, demonstrando sua dor interior, porém numa dose sem exageros, sem apelar para recursos dramáticos que caracterizam um momento de desespero.
Talvez essa contenção se dê por conta do grau de patético e quase inacreditável, que existe num certo gesto paterno.

Tudo vai sendo dito em tom confessional, muito próximo ao público, como uma conversa entre pessoas que já se conhecem há bastante tempo. Essa deve ter sido a intenção da dupla de bons diretoresKIKO MASCARENHAS e DANIEL CHAGAS, perfeitamente assimilada e desenvolvida pela atriz. O tempo vai passando, ao longo dos 70 minutos de “conversa” e o grau de intimidade, de cumplicidade, entre palco e plateia vai se impondo, por mérito de MARIA EDUARDA, que consegue atrair a atenção de todos.

Assim como o outro monólogo, que faz parte desta ocupação, os direitos de apresentação de ambos, no Brasil, foram comprados por KIKO MASCARENHAS, com o objetivo de comemorar seus 35 anos de carreira nos palcos“num esforço coletivo, sem patrocínio, em prol de valorizar a Cultura em um dos momentos mais delicados do Brasil”, como está no “release”, enviado por DOBBS SCARPA (ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO).

Para atingir o bom nível do espetáculo, a produção se cercou de bons artistas de criação, os quais, cada um deles, com sua específica participação, contribuem para o saldo positivo da peça. Falo de MAURO VICENTE FERREIRA, que pensou numa cenografia bem “leve”, pueril, com dezenas e dezenas de bichinhos de pelúcia e outros brinquedos, espalhados num quarto desarrumado de crianças, sobre vários tapetinhos redondos, de tamanhos e texturas diversos, além de algumas caixas de papelão, vazias, para “organizar aquela bagunça” (Isso só será bem entendido por quem assistir à peça.); falo de LUCIENE NICOLINO, responsável pela direção de arte; falo de TEREZA NABUCO, que criou um figurino bem simples, uma roupa do dia a dia, para a personagem, porque, talvez, dentro da proposta da peça, seja o que menos importe; falo de VILMAR OLOS (iluminação e ambientação); e falo de MARCELLO H, bem parcimonioso na trilha sonora, suficiente para “criar climas”.

“MENINAS E MENINOS” não é uma peça “digestiva, descartável”, após a qual uma “pizza e um chopinho caem bem”. É um texto bem denso, que provoca muitas reflexões e mexe bastante com os sentimentos das pessoas. Preparem-se para “apanhar e aprender com a vida”, e não deixem de assistir a este correto espetáculo!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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