Memorável, ‘Macunaíma: uma Rapsódia Musical’ compõe série virtuosa de adaptações da obra de Mario de Andrade

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do Rio, “Macunaíma: uma Rapsódia Musical”, da companhia Barca dos Corações Partidos e direção de Bia Lessa, relê a obra de Mario de Andrade. Só pela investida, tendo como foco uma das obras que mais tentaram captar a identidade brasileira, a peça já vale ser assistida. Se somarmos isso à originalidade da linguagem, tudo ganha contornos memoráveis.

“Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, publicado em 1928, é considerada a obra-prima de Mario de Andrade. Dentre tudo o que se diz (com inúmeras reinterpretações e controvérsias, como é comum) está o entendimento de que o personagem-título seria uma representação do brasileiro. Essa não me pareceu ser a trilha percorrida pela montagem, o que é curioso: escolher uma obra tão icônica da cultura brasileira, mas não adotar a principal leitura que fez dela um ícone. Com uma linguagem calcada no elenco como um todo orgânico que desempenha as mais numerosas e variadas funções (para quem assistiu a “Grande Sertão: Veredas”, da mesma diretora, a analogia pode ajudar), Macunaíma delineia-se na medida em que destoa-se do grupo ao qual insere-se a cada momento.

A linguagem ímpar chama a atenção constantemente para a beleza com que o elenco consegue metamorfosear-se em estruturas, ambientes, grupos sociais, formando, em conjunção com o cenário, o Brasil de Macunaíma. E aí vem o pulo do gato: ao caracterizar o Brasil, caracteriza-se Macunaíma como um resultado quase inevitável. O foco passa a ser, portanto, esboçar o Brasil, e para isso a estética do elenco formando um todo homogêneo cai como uma luva; mesmo porque, além de toda a plasticidade, ainda suscita a ideia de um país formado (fisicamente mesmo) por pessoas.

O elenco é um poço sem fundo de disponibilidade, agilidade, tônus, fôlego, fora as habilidades específicas, como tocar instrumentos variados, realizar acrobacias e falar diversos idiomas.

Em suma, acho que é seguro dizer que a atual montagem de Macunaíma é memorável, e entra para o rol de uma série virtuosa que começa com o próprio livro de Mario de Andrade, passa pela adaptação cinematográfica de João Pedro de Andrade (1969) e chega na encenação de Antunes Filho, em 1978.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas e sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE