‘Mãe Fora da Caixa’ – Puericultura vista pela lente do bom humor

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Depois de quase três longas semanas afastado dos Teatros, por conta de uma cirurgia na coluna vertebral, após a liberação pelos médicos, minha primeira saída, social ou culturalmente falando, não poderia deixar de ser uma visitinha a um Teatro do Rio de Janeiro. E a escolha recaiu sobre uma comédia, uma deliciosa comédia, na forma de um solodelicioso solo, conduzido, deliciosamente, por MIÁ MELLO, em cartaz no Teatro Fashion MallÉ delícia que não acaba mais…

acertadíssima idealização desta montagem partiu do ator e produtor PABLO SANÁBIO, após ter-se tornado “o pai da Manuela”, e que tem uma espécie de “dedinho de Midas”, para produções teatrais, isso tantas vezes provado, ao longo dos últimos anos. Desta vez, meu querido amigo PABLITO acertou de novo, ao pensar num público alvo, aparentemente, o único que poderia lotar a Sala 1 do Teatro Fashion Mall, mas, com o decorrer da temporada, vem sendo notado que aquele espaço está reunindo várias “tribos”. Tudo indicava que o espetáculo fosse voltado apenas para as mães, de todos os tipos: as que já o são faz tempo, as de primeira viagem, as futuras e as que pretendem vir a ser. O que ocorre, na verdade, é que essas mulheres não vão sozinhas ao Teatro e carregam, ainda bem, consigo, seus pares, companheiros, os papais, e mais um monte de gente, muitos dos quais que nem a experiência da maternidade/paternidade conhecem. Resumindo, virou uma peça para todos, para divertir e educar a todos. Educar sob a lente “séria” que há por trás do humor. Didático, sem ser chato; empírico, dando passagem, também, à ficção. É tudo muito divertido.

textodelicioso, por sinal (Eu já falei que não falta “delícia” neste espetáculo.), foi escrito por uma jovem talentosa da dramaturgia cariocaCLÁUDIA GOMESroteirista da Rede Globo, há vinte anos, tendo feito parte da equipe de criação de seriados, como “Tapas & Beijos”, “SOS Emergência”, “Casos e Acasos”,“Amorteamo” e outros, além de ter trabalhado como roteirista de “Malhação” e coautora da novela “Deus Salve o Rei”. Também brilha como criadora do blogue” Humor de Mãe” e vive sua primeira e desafiadora experiência para os palcos, já começando com o pé direito, com um monólogo, o que é bem difícil de se escrever. CLÁUDIA me confidenciou que teve medo de assumir a empreitada, de não conseguir dar conta da encomenda, quando convidada por PABLO SANÁBIO, mas topou o desafio. No fundo, no fundo, ela confiava no seu taco. E tudo está dando muito certo.

dramaturgia foi “livremente inspirada” no “best seller” de THAIS VILARINHO, cuja proposta não é fazer humor, nem é escrito no formato de TEATRO e está mais para um “livro de acolhimento”. Eu, já pai e avô, estou louco para ler a obra, que leva o mesmo nome da peça. Não sei como foi feita essa adaptação, entretanto posso garantir que CLÁUDIA se utiliza de um humor inteligente, leve e, por vezes, meio ingênuo e meio corrosivo, para que todas as mães, principalmente, se vejam naquela personagem, às voltas com o cotidiano de uma. A personagem de MIÁ, propositalmente, não tem nome. Assim, há uma troca de empatia durante todo o tempo do espetáculo. Quem quiser que se veja nela. E alguém consegue fugir a isso? Duvido!!! Ou por experiência própria, ou por conhecer quem já passou por tudo o que é mostrado no palco.

Durante as primeiras conversas sobre um, ainda, possível, projeto de uma peça, a dramaturga, a atriz e a diretora, “tricotaram” muito e trocaram suas experiências como mães. Curiosamente, as três tiveram um menino e uma menina, com diferenças de idades bem próximas. E os mesmos problemas, as mesmas angústias, as mesmas dúvidas, os mesmos medos, as mesmas preocupações, os mesmos desesperos… Desses colóquios, saiu muito do texto da peça.

É bem interessante a construção da dramaturgia, que começa com a atriz cumprimentando a plateia e se apresentando, como pessoa física. “Boa noite! Obrigado pela presença de todos. Eu sou Marília Penariol Mello, mas podem me chamar de MIÁ, ou da mãe da Nina e do Antônio…”. E prossegue, mais ou menos, assim: “Depois que a gente tem filho, meio que perde a identidade e passa a ser conhecida como ‘a mãe do/a Fulaninho/a…’”. Achei o detalhe ótimo, porque é a mais pura verdade e isso nos enche de orgulho. Eu deixo de ser eu (Até a página 5, é claro!), para ser, no meu caso, “o pai da Flávia e do Pablo”. Devo acrescentar que ser “o avô do Tomás, do Joaquim e da Carolina” tem um sabor mais carregado nos temperos.

Por oportuno, a CLÁUDIA GOMES também é conhecida, ou, talvez, mais conhecida, como “a mãe da Pilar e do Vicente”.

 

SINOPSE

 

“Ter filho é muito bom, mas dura…”. Assim começa o espetáculo “MÃE FORA DA CAIXA”, que traz, aos palcos, uma mãe que não tem medo de falar sobre os diversos dilemas que envolvem a maternidade.

Com muita de leveza e incomensurável bom humor, potencializados pelo talento de MIÁ MELO, o espetáculo traz ao público reflexões dessa mulher, que nasce junto com o bebê.

Dúvidas, angústias, alegrias, conflitos, amamentação, o puerpério (Que palavra mais feia!!!) e todas as mudanças que acontecem neste novo ciclo, de fora pra dentro e de dentro pra fora, desfilam no palco em pouco mais de uma hora de alegre e agradabilíssimo entretenimento.


De forma bem descontraída, incluindo interação com o púbico, assistimos a uma verdadeira “aula” prática de puericultura“ciência que reúne todas as noções (fisiologia, higiene, sociologia) suscetíveis de favorecer o desenvolvimento físico e psíquico das crianças, desde o período da gestação até a puberdade”. Ou, ainda, mais cientificamente falando, “o conjunto de noções e técnicas voltadas para o cuidado médico, higiênico, nutricional, psicológico etc., das crianças pequenas, da gestação até quatro ou cinco anos de idade”. (Santa Wikipédia!).

Foi acertadíssima a escolha de MIÁ MELLO, para interpretar aquela mãe. MIÁ é uma ótima atriz e domina, sem o menor esforço e com muita naturalidade, a arte de fazer rir, o que não é nada fácil, com um excelente “timing” para a comédia e um profundo senso e improvisação, uma vez que, muitas vezes troca “texto” com a plateia, provocado por ela ou espontaneamente partindo do próprio público. Sem falar na sua simpatia e enorme carisma!!! Cada sessão é uma experiência diferente. Uma declaração de MIÁ: “Eu quero e preciso contar para as pessoas como eu me sinto sendo mãe. Mãe de duas lindas crianças, mas que, volta e meia, está exausta, com cara de choro, achando que não vai dar conta de tudo. A peça não é sobre a minha vida, mas poderia. E desconfio que vocês também vão se identificar em algum momento”. Não tenha a menor dúvida disso, MIÁ.

No decorrer da encenação, percebemos que a personagem é uma “mulher que se descobre e cresce a cada instante”. Nasce uma criança e nasce uma mãe. Nascem, na verdade, dois novos seres. Nitidamente, existe, na peça, uma intenção maior do espetáculo, que é a de proporcionar um acolhimento a quem dele mais necessita, “oferecer um ombro amigo para os pais e mães que se sentem pressionados com tantos desafios”. A peça existe, para que as mães fiquem sabendo que não estão sós e que não são as únicas, no mundo, a passar pelas delícias e dores da maternidade.

É muito boa e descomplicada a direção de JOANA LEBREIRO, que soube aproveitar e explorar, com profundidade, cada detalhe do texto e o talento de MIÁ, numa proposta de direção bem simples e acessível a pessoas de todas as classes e níveis culturais, uma vez que mãe é mãe em qualquer contexto socioculturalJOANA“a mãe do Vicente e da Cecília”, facilita, ao espectador, a apreensão de todos os “ensinamentos” transmitidos pela “professora”.

cenografia, de MINA QUENTAL, reproduz um quarto, ou mais que isso, o universo infantil, o caos, com brinquedos espalhados por todo o palco. No fundo, um interessante painel, construído com dezenas de tampos de vasos sanitários. Estes também estão presentes, em cena, quatro ou cinco, de maneira muito lúdica, em forma de cubos de acrílico transparente, deixando à mostra muitos brinquedinhos em seus interiores. Sobre cada “privada”, um tampo, que é levantado ou arriado pela atriz, toda vez que precisa assumir seu “trono”.

figurino, assinado por BRUNO PERLATO e MARIANA SAFADI é simples, mas se destaca pela funcionalidade e capacidade de se prestar a ser usado como objeto de cena, de forma muito prática e criativa.

iluminação, de PAULO CÉSAR MEDEIROS, acompanha as necessidades do texto e obedece a elas, formando um todo bastante harmonioso e funcional.

peça conta com uma agradável e apropriada trilha sonora, de responsabilidade de RICCO VIANA.

Ocupar um palco, por mais de uma hora, solitariamente, exige que alguém se preocupe com uma boa direção de movimento, para fugir à monotonia. ANDREA JABOR se encarrega bem disso.

Sempre enriquecem qualquer produção teatral as projeções dos irmãos RENATO e RICO VILAROUCA, os craques do videografismo.

Não pode ser omitido o trabalho de produção, de CARLOS GRUN, que, felizmente, acreditou no projeto e contribuiu, sobremaneira, para que ele passasse do papel ao palco, do abstrato ao concreto.

Como já consta no “SERVIÇO”, o espetáculo oferece um diferencial bastante interessante: no último domingo de cada mês, há a sessão “baby friendly”, na qual as mães podem levar seus bebês, sem se preocuparem. O Teatro vira, portanto, um espaço de encontro e acolhimento, o que tem proporcionado momentos emocionantes.

Creio que tudo o que escrevi sobre a peça é mais do que suficiente para que fique bem entendido que eu recomendo, com bastante empenho, o espetáculo e sinto não conseguir uma data, na agenda, para poder revê lo.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR
O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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