‘Jogo de Damas’ – Um motivo certo para se ir ao teatro

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Sair de casa, para assistir a um espetáculo produzido e montado pela companhia AMOK TEATRO é garantia de satisfação. Jamais assisti a uma montagem, com a marca deles, que não merecesse, no mínimo, a classificação de “boa”. É, quase sempre, de “muito boa” para cima. Na maioria das vezes, “ótima” e, não raro, “obra-prima”.

peça em cartaz, e motivo desta crítica“JOGO DE DAMAS”, está sendo encenada, em curta temporada, no Mezanino do SESC Copacabana, um “ensaio sobre a solidão”, abrindo o caminho para uma nova proposta do grupo, um “Ciclo das Mulheres”, após uma “Trilogia da Guerra”, com “O Dragão”“Kabul” e “Histórias de Família”, e o projeto “África em Nós”, com as emblemáticas e premiadas montagens de “Salina – A Última Vértebra” e “Os Cadernos de Kindzu”.

Sem nenhum oportunismo, mas, sim, agregando força a uma luta da mulher, em busca de seu valor e reconhecimento, na sociedade, os interesses da companhia se voltam, no momento, para explorar o universo feminino, começando por um texto próprio, de um dos fundadores da AMOK, STEPHANE BRODT, fruto de uma “pesquisa, iniciada em 2018, pelos atores STEPHANE BRODT e GUSTAVO DAMASCENO, sobre os personagens femininos do “Ricardo III”, de Shakespeare. Um estudo sobre mulheres solitárias, repletas de medos e rancores, enquanto o mundo agoniza ao redor. Para a montagem do “JOGO DE DAMAS”, os atores confrontaram esse estudo à obra “Fim de Jogo” de Samuel Beckett”.

Como já fui ao SESC Copacabana com o conhecimento do teor em negrito, acima, confesso que minha curiosidade era muito grande, para entender as duas relações, “os personagens femininos do ‘Ricardo III’” e a ligação com a peça de Beckett, mas bastaram os primeiros dez ou quinze minutos de encenação, para que eu pudesse entender a proposta, muito interessante, diga-se de passagem, e, melhor ainda, excepcionalmente executada, principalmente pelos dois atoresSTEPHANE BRODT e GUSTAVO DAMASCENO.

 

SINOPSE

 

A solidão é o pano de fundo desta peça.

espetáculo coloca, em cena, duas velhas senhoras, envolvidas em um complexo jogo de relações.

Mulheres assustadas e solitárias, em um mundo apocalíptico.

EMMA (GUSTAVO DAMASCENO) e CLARA (STEPHANE BRODT) são idosas reclusas. que sofrem com a escassez de alimentos, remédios, sonhos e ideais, embora o motivo disso, propositalmente, não fique claro na peça. E nem é preciso.

Suas vidas estão recolhidas em um espaço fechado, onde se alimenta um jogo intenso de amor, dominação e medo.

O exercício do poder pelo poder anula o oprimido e, também, o opressor, já que ambos estão no mesmo barco.


Teatro do Absurdo, do qual Beckett é um de seus maiores e mais importantes representantes, é uma “escola” que reúne, em sua essência, dramaturgos que, sabidamente, produziram seus textos depois da Segunda Grande Guerra Mundial, voltando-se mais, e não sem motivos, para temas como a destruição de valores morais e crenças ancestrais e a solidão dos homens, a qual aniquila qualquer ser humano, dois aspectos que incomodavam bastante os autores da época, uma realidade que mostrava a condição humana de uma forma incompreensível e sem perspectiva. Inaceitável, enfim, uma condição de quase nulidade total para um humanoide. Quebra-se, dessa forma, a estrutura regular da família, até então tão presente nas obras teatrais, e passa-se à abordagem de temas inóspitos, incomodativos, que tiram o espectador de sua zona de conforto, a qual, na realidade, já não existia mais, como era, e precisava ser reconstruída, resgatada, redimensionada. Como acontece no espetáculo aqui analisado, entram em campo temas provocativos e que promovem reflexão, como os conflitos nas relações interpessoais, o isolamento humano e a inevitável espera da morte. No caso de “JOGO DE DAMAS”, as duas personagens agem de forma totalmente oposta ao que diz a letra de Raul Seixas, na canção “Ouro de Tolo”“Eu é que não me sento / No trono de um apartamento / Com a boca escancarada / Cheia de dentes / Esperando a morte chegar”. É, exatamente, assim que elas se comportam. E parecem aceitar o fim, passivamente, sem lutar contra ele. Tudo o que pouco sabem do mundo exterior entra por uma pequena abertura, resultado de um vidro quebrado, numa janela lateral. É CLARA quem vê e vai informando à outra, mais presa ainda, numa cadeira de rodas.

Para quem conhece a peça de Beckett, de 1957, é fácil reconhecer os pontos em comum que há entre os dois textos, entretanto aqueles que não tiveram a oportunidade de serem apresentados àquele clássico da dramaturgia universal“Fim de Jogo”, ou “Fim de Partida”, como, também, é conhecida, em português, a peça, também conseguem acompanhar, facilmente, o desenrolar da narrativa.

Em Beckett, o velho Hamm está cego e paralítico e vive numa cadeira de rodas, assim como, aqui, temos EMMA (GUSTAVO DAMASCENO), nas mesmas, ou quase, condições. Lá, quem cuida de Hamm é Clov; aqui é CLARA, uma serviçal, frequentemente ofendida e maltratada pela patroa, ambas interdependentes.

Se, em “Fim de Jogo”, o espetador também consegue sentir, na própria pele, o desconforto ao qual os personagens estão submetidos, confinados num abrigo, metaforicamente, enlatados, enquanto vão trocando ideias, desfilando diálogos herméticos sobre a condição humana, a solidão e a relação um tanto bélica que estabelecem mutuamente, muito mais partindo de Hamm, aqui, não acontece nada muito diferente. A belicosidade maior, que predomina, vem de EMMA. O público também fica incomodado com a vida enclausurada daquelas duas “damas”. Um quê de claustrofóbico cria um clima de desalento.

Como o texto de Beckett, o de BRODT pode ser considerado universal e atual, uma vez que tratar de conflitos humanos e problemas éticos é algo que acompanha o homem, desde seus primórdios, e o seguirá até o “fim de jogo” de cada um ser humano.

As duas personagens, brilhantemente interpretadas, por DAMASCENO e BRODT, se apresentam como dois fragmentos de ruínas, dois pesos mortos, uma existindo para garantir a existência da outra, conclusão a que são obrigadas a chegar; único ponto, talvez, comum às duas.

Um detalhe muito interessante, com relação à composição das personagens, extraído do “release”, enviado por FLÁVIA TENÓRIO (LEAD COMUNICAÇÃO)“Aqui, os atores aprofundaram o estudo sobre a velhice e a morte, inspirados em suas próprias mães: duas velhas mulheres que enfrentam as dificuldades da senilidade com suas dores, medos e solidão. O universo de Beckett foi atravessado por essa abordagem e o ‘Fim de Jogo’ tornou-se um ‘Jogo de Damas’”. Há de se atentar para a ambiguidade que existe no vocábulo “damas”“’JOGO DE DAMAS’ é um ensaio sobre a solidão e o enigma da condição humana, face à finitude do corpo, do mundo e da vida. Sobre o medo da morte e a morte dos sonhos. Os diretores convidam o público a debruçar-se sobre essas questões, a partir dos vínculos e das relações de intimidade, movidos por uma espécie de nostalgia do humano. Uma homenagem dos filhos para suas mães.”.

A par de dois magistrais e exemplares trabalhos de interpretação, ou por trás disso, há uma bela direção, de STEPHANE BRODT, com a luxuosa supervisão de ANA TEIXEIRA, o que já garante, em muito, o sucesso de qualquer montagem da AMOK. Não houve a intenção de, por meio de um profundo visagismo e trabalho de maquiagem, transformar dois homens em mulheres. Isso não tem a menor importância. O espectador enxerga duas mulheres naquela transformação híbrida, com destaque para as vozes e as posturas dos dois atores, principalmente STEPHEN BRODT, obrigado a caminhar lentamente e curvado, arrastando os pés, em todos os seus deslocamentos.

Somem-se a isso o conjunto cenário / figurino, também assinados por BRODT e ANA TEIXEIRA; a iluminação, de RENATO MACHADO; e a música, de ARVO PÄRT.

cenografia ocupa pouca dimensão, no amplo espaço cênico, que pode dar a impressão de falta de isolamento; mas não é o espaço ocupado o que conta; é a falta de condições para ultrapassá-lo e se libertar, sair pelo mundo. Embora, relativamente, grande, a morada das duas torna-se um cubículo, por se tratar de um microcosmo, intencional, criado por elas, a despeito, repito, de não se saber por que ali estão, naquele estado. Mais próximo ao público, uma cadeira de rodas, uma janela, solta no ar, e um porta-retratos, pendurado por um fio, com uma foto enigmática, além de uma espécie de mesinha de serviço. Ao fundo, alguns elementos que parecem compor uma cozinha. A distância entre esta e a cadeira é bem grande, uma representação do distanciamento entra as duas personagens, o quão incompatível é aquela relação, “mistura” de água e óleo.

figurino se resume a recatadas vestes longas, em preto, como se vestiam as viúvas de antigamente. Viúvas de quem ou de quê? Arrisco: delas mesmas ou da vida.

RENATO MACHADO criou uma iluminação que dá bem o tom da ambientação, ajuda a criar a atmosfera de isolamento, com pouca luz e muitas sombras.

Todas as montagens da AMOK são pontuadas por música, sempre um elemento importantíssimo, em cada encenação. Acho que me lembro de todas as canções e de todos os ritmos, em tudo o que vi, feito pela companhia. Desta vez, foram buscar um compositor erudito estonianoARVO PÄRT, que “trabalha com um estilo minimalista, empregando a técnica de ‘tintinnabuli’ (do latim, ‘pequenos sinos’) e repetições hipnóticas”. Essa informação, creio, é bastante instigante, para se conhecer o espetáculo. O que posso dizer é que, sem a trilha sonora, a montagem perderia bastante de sua qualidade. Por oportuno, transcrevo o que seria o “set list”“De Profundis” – Estonian Philharmonic Chamber Choir / Toñu Kaljuste; “Fragile e Conciliante” – Stuttgart Radio Symphony Orchestra / Andrey Boreyko; “Spiegel im Spiegel” – Vladmir Spivakov e Sergey Bezrodny; “Für Alina” – Alexander Malter; “Missa Syllabica” – Estonian Philharmonic Chamber Choir / Toñu Kaljuste; “Frates for Strings and Percussion” – Estonian National Symphony Orchestra / Paavo Järvi”. Isso, certamente, implicou um profundo e exaustivo trabalho de pesquisa, por parte da direção.

“JOGO DE DAMAS” é uma das melhores pedidas, em TEATRO, no momento, no Rio de Janeiro, o que me leva a recomendar, com o maior empenho, o espetáculo, esperando que a curta temporada, de quatro semanas, possa vir seguida de outras, pois a oportunidade de saborear uma montagem da AMOK TEATRO não se tem a toda hora e é algo que não se deve perder, em hipótese alguma.

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
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Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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