‘Importante levar sua poesia a bibliotecas públicas’, diz Val Perré sobre poeta ‘pouco conhecido’ que vive em peça

Luiz Maurício Monteiro

Damiana Inês (E), Valéria Monã, Regina Café e Val Perré compõem um elenco majoritariamente negro

Antes de recorrer àquela busca na Internet, pense rápido e responda: você conhece ou já leu algum poema de Solano Trindade? A resposta possível ou provavelmente foi “não”. Embora muito respeitado e conceituado entre seus leitores e outros escritores, o pernambucano que morreu sem muita repercussão do ponto de vista nacional em 1974 aos 65 anos não é muito popular do grande público. Por exemplo, um que não o conhecia até bem pouco tempo é Val Perré, ator que atualmente está interpretando… Solano Trindade. Em entrevista ao RIO ENCENA, ele admite que pouco ou nada sabia sobre o homenageado da peça documental “Solano, Vento Forte Africano”, que está em cartaz no Teatro Dulcina, no Centro. Mas então, diante deste contrassenso entre talento e impopularidade, segue outra pergunta: qual seria o caminho para fazer do poeta um autor mais conhecido?

Despreocupado com um possível desinteresse por parte do público em relação a uma peça que trata de um personagem não tão popular, Val lança uma solução para a questão e também uma reflexão.

— Muitos não conhecem Solano, mas o momento é de fazer com que se conheça. Tem um momento na peça em que ele diz, e isto está num poema dele, “tem gente que não me conhece até hoje”. Existe uma estátua do Solano em Embu das Artes (cidade de São Paulo onde Solano foi um dos responsáveis por difundir a arte), mas faltam seus livros em bibliotecas, falta acesso dos jovens a poetas negros. Por que não há esse fácil acesso, essa divulgação? Porque poetas negros não estão juntos dos brancos? É caso pensado? É importante que se fale, importante levar sua poesia a bibliotecas públicas, onde as pessoas possam ter acesso. Isso fará a diferença — reclama.

Diferença, aliás, o próprio Val sentiu depois de ser apresentado à obra do também ator, teatrólogo e cineasta Solano Trindade, considerado por muitos admiradores o Mahtma Gandhi brasileiro, que tem mais de 20 títulos assinados, além de contribuições para a imprensa.

O poeta Solano Trindade Foto: Reprodução/Internet

— Foi uma surpresa quando conheci a diretora Geovana Pires, e ela disse que eu tinha a ver com o papel. Confesso que não conhecia o Solano, então passei a ler seus poemas. O que me chama atenção nele, o que posso extrair do ser humano, seu sentimento expresso em cada palavra e ato, é esse lugar do olhar, do ser humano. É quem não precisa de muito para sobreviver, que pode ter e dividir. Como ator, isto me interessou, além das poesias que são atuais. Quando a esposa questiona estes conceitos, ele diz que não ama as cosias, mas que o ser humano é a sua bandeira — conta o ator baiano, de 50 anos.

Tal “bandeira” é um resumo da essência de Solano Trindade que o espetáculo se propõe a mostrar àqueles que ainda não o conhecem. Sem querer se limitar apenas a passar a limpo a obra do poeta, Geovana Pires e Elisa Lucinda, que assina o texto com Geovana e atua em algumas sessões como a esposa do protagonista, exploram o aspecto humano e politico dele, que, como ressaltou Val, há mais de sete décadas, falava de questões ligadas á realidade do negro que ainda adoecem o país, como racismo e desigualdade.

Costurado por música, canto, dança, sapateado e, claro, poesia, a montagem trata destes assuntos com um elenco e uma equipe técnica majoritariamente negros. E provavelmente por uma questão de identificação, a plateia do primeiro fim de semana da temporada no Dulcina também foi formada em sua maioria por negros.

— A plateia era 80% de negros. Não se trata de um lugar de exclusão, claro que a peça é para todos, mas foi legal porque vimos pessoas abertas ao discurso dele. E isso é importante para uma sociedade melhor — comemora Val, enfatizando a importância de tais questões ligadas aos negros virem sendo cada vez mais debatidas no teatro por montagens como “Solano”: — Esta peça é muito atual, e temas como estes têm sido recorrentes no teatro. Questões raciais e sociais, desigualdade de gêneros… Não é só coincidência porque o país está passando por isso, de olhar para o outro com mais humanidade.

Val e a autora Elisa Lucinda, que também interpreta a esposa de Solano Fotos: Andrea Rocha/Divulgação

Mudança de visual no palco

A conduta de Solano Trindade citada por Val Perré, de que sua “bandeira” é o ser humano – um de seus feitos, por exemplo, foi fundar o Teatro Popular Brasileiro, companhia formada basicamente por domésticas, estudantes, comerciários e operários nos anos 1950 – custou a ele o seu relacionamento. Em certo momento do espetáculo, sua esposa Margarida, que, diga-se, muito o ajudou em investidas a favor da arte e da cultura, decide separar-se por notar no marido uma suposta tímida ambição. O litígio, como não poderia deixar de ser, causa um impacto no protagonista.

A maquiagem em Val é feita no palco e representa uma passagem de tempo

Nesta cena, Elisa Lucinda ou a diretora de movimentos Valéria Monã – elas se revezam no papel da esposa – contracenam com Val e ao mesmo tempo mudam o seu visual, o deixando com cabelos e barba brancos, representando, assim, uma passagem severa de tempo.

— Ele era um cara do coletivo, fazia as poesias, mas não cobrava, não queria construir riqueza. A riqueza dele era estar ao lado do povo, e a esposa reclama que queria uma coisa mais sólida. Ela se separa dele, e, nesse momento, passo por uma transformação no palco mesmo. Durante diálogo da separação, a Elisa ou a Valéria, que dividem o papel, fazem como se fosse um carinho na cabeça, e também temos recursos de luz… E eu passo por um envelhecimento. Não é nada que seja para esconder o processo do público, mas eles só se dão conta depois que começo a caminhar pelo palco. Depois disso, o Solano funda o centro cultural de Embu das Artes — encerra Val, mencionando mais um importante ato do poeta (im) popular.

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