‘Grandes Encontros da MPB’ exalta música brasileira relembrando parcerias de sucesso; assista a imagens

Luiz Maurício Monteiro

Ariane Souza, Franco Kuster, Édio Nunes, Thiago Machado, Júlia Gorman e Bruna Pazinato formam o elenco

Bossa Nova, Jovem Guarda, Samba, Rock n’ Roll… Estes são alguns dos gêneros e movimentos musicais que irão passar pelo palco do Teatro Riachuelo Rio, no Centro, a partir desta sexta-feira (04), às 20h, quando começa a temporada de estreia de “Grandes Encontros da MPB”. Com direção de Sergio Módena, texto de Pedro Brício e direção musical de Délia Fischer, o espetáculo exalta a música nacional promovendo uma sequência de números musicais que simbolizam parcerias memoráveis de músicos brasileiros, clássicos inesquecíveis e momentos musicais marcantes no país (confira imagens do espetáculo no vídeo no fim mais abaixo).

Apresentado pelos atores Ariane Souza, Bruna Pazinato, Édio Nunes, Franco Kuster, Júlia Gorman e Thiago Machado – que interpretam a si próprios e/ou personagens genéricos e fictícios – o espetáculo, mais nova aposta da Aventura Entretenimento, passeia no tempo, mas sem obedecer a uma ordem cronológica. Nesta viagem, são tocados e celebrados artistas que fizeram sucesso, muitas vezes protagonizando famosas parcerias musicais em diferentes décadas, como Baden Powell, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Pixinguinha, Dona Ivone Lara, Elba Ramalho, Geraldo Zevedo, Johnny Hooker, Liniker e Gabriel O Pensador – este não é citado por um trabalho conjunto exatamente, mas recebe uma menção honrosa com a música “Festa da Música Tupiniquim”, cuja ideia é semelhante à do espetáculo: enaltecer o máximo possível de músicos brasileiros.

Entretanto, ambos, tanto a canção de Gabriel, quanto o musical, acabam deixando alguém de fora, afinal, trata-se de uma missão inglória reunir todos que fizeram e ainda fazem a música brasileira ser famosa mundialmente. Durante uma apresentação de alguns números musicais do espetáculo, na última quarta-feira (02) Sérgio Módena explicou ao RIO ENCENA que a preocupação durante o processo de montagem não foi exatamente esta, mas, sim, outra.

— Deixar alguém de fora, nós deixamos. Mas isto não seria uma preocupação porque a proposta não é englobar tudo. Até porque seria um suicídio, visto que temos uma produção cultural tão rica e ampla. A nossa escolha é por tratar de algumas parcerias e deixamos isto claro — observa o diretor, completando: —  A nossa maior preocupação é fazer jus a estes cantores tão importantes para projetar a musica brasileira no mundo todo.

Responsável pelo texto, Pedro Brício reforça o discurso de Módena, de que, inevitavelmente, artistas relevantes ficaram de fora, mas admite que é possível que sejam retratados numa futura produção.

— A gente teve uma preocupação de não deixar nada de muito relevante de fora, mas sempre fica. Mas também nada é definitivo. Muita coisa pode estar no volume dois — revela Pedro, desconversando em seguida se uma sequência para o espetáculo já recebeu um “ok”.

Com ou sem sequência, a verdade é que “Grandes Encontros da MPB” apresenta uma proposta diferente dos musicais inspirados na música brasileira que vêm sendo apresentados nos palcos cariocas nos últimos anos. Ao contrário da maioria que tem um foco num determinado artista, como, por exemplo, “Elis, a Musical”, ou em certo gênero, como é o caso de “Garota de Ipanema – O Amor é Bossa”, esta empreitada faz uma grande mistura de músicos, movimentos e épocas.

Inserida em produções musicais deste tipo, sobre a música brasileira, Délia Fischer afirma que teve a seu favor experiências anteriores na hora de encarar o desafio de um espetáculo tão abrangente.

O pot-pourri de rock n’ roll foi um dos números apresentados à imprensa Fotos: Bernardo Cartolano/Divulgação

— Eu fiz (os musicais) “Elis”, “Rock in Rio”… Então tem um pouco de tudo que fiz nos últimos 10 anos. Traz um pouco disso. Um material que tenho muito carinho e um conhecimento. Sempre estive ligada a muscal brasileiro, nunca fiz musicais que vieram da Broadway, por exemplo. Então isso me ajudou muito — destaca a diretora musical.

Para Sérgio Módena, o maior desafio foi exatamente lidar com tanta diversidade musical.

— Talvez o desafio maior aqui seja juntar num mesmo espetáculo uma variedade tão grande de gêneros muscais. E trazer a unidade do espetáculo também. Como criar essa unidade com uma gama tão grande de gêneros, ritmos e pontos de vista? Acho que é isso — avalia.

Já para Pedro Brício, um desafio – ou tarefa, dependendo do ponto de vista – foi escrever um texto fictício, mas com momentos documentais.

— Tem falas dos próprios cantores. Eu usei usei um material documental, por exemplo, de Gilberto Gil e Caetano Caetano Veloso, que tirei de uma entrevista do Gil e também do livro “Caetano – Verdade Tropical”. E também tem a ficção, como uma cena em que Frank Sinatra está caminhando pela orla de Ipanema, enquanto os personagens cantam “Garota de Ipanema”. Então tem partes bem documentais, mas também tem o teatro, o lúdico… Porque no fundo, os números acabam criando uma emoção que não é só da música — ressalta o autor.

Expectativa pelo público e atual momento da música brasileira

Embora tenha sido batizado como “Grandes Encontros da MPB”, o espetáculo vai além, resgatando sucessos do rock dos anos 1980, por exemplo. De resto, ritmos que tem dominado o cenário musical atual, como o sertanejo, que como o rock também não é considerado MPB, não entraram no repertório. A explicação seria uma suposto momento de pouco brilho das composições nacionais?

Sérgio Módena e Pedro Brício não apenas alegam que outros ritmos ficaram de fora apenas por questões de critério de seleção, como também discordam que a música brasileira esteja por baixo.

— O sertanejo, por exemplo, não entrou porque não há uma parceria. Eles são uma dupla entre eles… Mas acho difícil falar sobre isso sem um distanciamento histórico. Achamos que a música está num marasmo, mas passado um tempo, pensamos que alguns movimentos culturais foram injustiçados. Acho que tem uma variedade enorme de artistas criando. E agora com a Internet, que é um tipo de produção mais barata e rápida, ampliou de forma democrática o espaço para os artistas. O Brasil continua rico como sempre foi. O que falta é valorizar — opina o diretor.

Ao citar uma entrevista recente de Milton Nascimento, que disse que “a música brasileira está uma merda”, Pedro Brício preferiu se ponderado.

— O Milton falou isso, então quem sou eu para discordar? (risos) Mas acho que não. O mundo muda, e hoje temos coisas ótimas, potentes. Os critérios mudam, e temos que acompanhar e ver isto como um fenômeno interessante. Não podemos ficar saudosistas.

Por fim, sobre o público que esperam ver nas poltronas do Riachuelo Rio, Sérgio e Délia esperam ver diferentes gerações.

— Eu adoraria que isso pudesse agradar a gregos e baianos — brinca Délia, completando: — O espetáculo tem um lado impactante, tem punch. A gente começa com Gabriel O Pensador, que não é tão antigo; tem Jhonnie Hooker com Liniker; tem um momento que adoro com Chico Science, aquele movimento do mangue beat, que mistura maracatu com rock n’ roll. Então são momentos que muitos jovens vão se identificar. E para quem não for daquela determinada geração, talvez seja uma boa oportunidade de conhecer. Acho que se agente cumprir esse papel, a missão está feita.

— O espetáculo comunica para todo tipo de público, inclusive para crianças. Um espetáculo que conta a história da nossa música, é um espetáculo de formação. Uma criança ou adolescente assistindo não precisa conhecer tudo para curtir. São músicas boas, incríveis, então não é preciso ter conhecimento prévio. Acho que podemos abranger quem viveu a bossa nova, a jovem guarda, e também quem está vendo pela primeira vez. Essa é minha expectativa — conclui o diretor.

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