‘Gota d’Água {Preta}, adaptação contemporânea da obra de Chico Buarque, faz curta temporada no Sesc Ginástico

Do Rio Encena

O elenco do espetáculo é majoritariamente preto Fotos: Evandro Macedo/Divulgação

Em 1975, Chico Buarque e Paulo pontes escreveram a peça teatral “Gota d’Água”, que no mesmo ano ganhou um livro homônimo. De lá para cá, a obra, inspirada na tragédia Medeia, de Eurípedes, foi montada diversas, com destaque para a mais recente, protagonizada por Laila Garin, que ganhou alguns dos principais prêmios de teatro do Brasil. Já nessa quarta-feira (16), às 19h, o Teatro Sesc Ginástico, no Centro, recebe “Gota d’Água {Preta}”, mais uma adaptação do texto de quase 45 anos atrás, que tem uma peculiaridade: como o título indica, a história dos protagonistas Joana e Jasão é contada com um elenco majoritariamente negro. 

Responsável pela montagem, o diretor Jé Oliveira, que faz seu trabalho transitar entre a tradicional MPB e a novidade do rap, ressalta que sua adaptação se propõe apenas a levar ao palco o que a obra original já sugere, por todo o seu contexto. Afinal, Joana, personagem da cantora e atriz Juçara Marçal, é uma mulher umbandista que vive num conjunto habitacional.

— É como se estivéssemos realizando a coerência que a peça sempre pediu e até hoje não foi realizada — observa o diretor, completando: — A personagem é pobre e é da Umbanda. Tudo leva a crer, pelo contexto histórico, social e racial do país, que essa personagem é preta. Estamos realizando o que a peça insinua. Estamos de fato enegrecendo a obra de Chico Buarque e concretizando o que ele propõe.

Muito da história sofrida de Joana está ligado a Jasão, interpretado pelo próprio Jé, jovem sambista que desponta para o sucesso com a canção que leva o nome da peça. Ele atualmente é noivo de Alma, filha de Creonte, um corrupto que domina o poder econômico na Vila do Meio-dia, onde Joana já morou com os dois filhos.

— Ela é a mulher que foi violentada, agredida. A pessoa sem voz que quer se vingar e não sabe como — acrescenta Juçara, sobre sua personagem.

Juçara e Jé interpretam os protagonistas Joana e Jasão

Para ajudar a compor esta atmosfera negra, o cenário do espetáculo traz uma representação da religiosidade afro-brasileira através da concepção do artista Julio Dojczar, do coletivo casadalapa. Da plateia, é possível avistar também painéis simbolizando os Orixás e elementos de cena como a imagem de Ogum (São Jorge).

Em São Paulo, onde estreou e foi indicada aos prêmios APCA (Melhor Direção e Espetáculo), Shell (Inovaçao) e Aplauso Brasil (Melhor Espetáculo Musical e Melhor Atriz Coadjuvante), “Gota d’Água {Preta}” foi assistida, de acordo com a produção, por 16 mil pessoas em cinco temporadas. No Rio,fica somente até o próximo dia 27, com apresentações ainda quintas e sextas às 19h e sábados e domingos, às 17h.

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