“Furdunço no Fiofó do Judas” é um grande musical sobre o sertão do Brasil. Imperdível!

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz na Sala Municipal Baden Powell, em Copacabana, “Furdunço do Fiofó do Judas – uma opereta popular apimentada por Marinês” traz um título que faz jus, por seu tamanho e brasilidade, a tudo que a peça comporta. Esta que parece se filiar ao Movimento Armorial, do mestre Ariano Suassuna (1927-2014), empreendendo o encontro entre o Brasil “oficial” e o “real” (como ele falava, citando Machado de Assis), dando expressão erudita a obras de cunho eminentemente popular. “Furdunço” (vou usar aqui esse apelido) é o encontro do grande musical com a leveza, o humor e a religiosidade mais tipicamente brasileiros que nossa arte (sobretudo literatura e música) já produziu.

A dramaturgia da Companhia Bagagem Ilimitada, com colaboração do diretor Jefferson Almeida, elabora a visita do Diabo a um bordel de uma pequena cidade do interior nordestino. As quatro prostitutas que trabalham lá acabam apaixonando-se perdidamente por ele, sem nunca confessar. Todo esse jogo de sedução entre o Diabo e cada uma das mulheres, assim como delas com a própria religiosidade, acontece com comicidade ímpar e regado a músicas associadas à cantora pernambucana Inês Caetano de Oliveira, conhecida como Marinês.

A ótima cenografia de Taisa Magalhães compõe um imenso biombo que forma o interior do bordel, visivelmente pobre e sertanejo em suas cores e adereços. Em determinado momento, o biombo surpreendentemente gira do avesso e forma um ambiente externo, ponto de virada do enredo. Para além dos atores, com sotaques e expressões regionais, é o cenário que nos mantém em contato constante com a realidade particular que está em questão.

Os figurinos de Arlete Rua realizam a transição para a indeterminação tão característica da arte popular de uma forma geral, e elemento fundante também de “Furdunço”. Seus personagens não são pessoas de uma cidade específica, mas arquétipos, casos exemplares que poderiam ser de qualquer lugar, ou de lugar nenhum. São eles que nos ligam a um imaginário, esse terreno que talvez seja o reduto mais valioso da nacionalidade.

Os atores Cilene Guedes, Jacyara de Carvalho, Paula Sholl, PV Israel e Jefferson Almeida estão em um nível de sintonia, de afinação (cênica e musical, diga-se de passagem) que dá sentido a tudo o que foi dito até aqui. Senhores da cena, mantêm controle fino da dinâmica tanto coletiva quanto individual; pausas, variações de tom, quebras de andamento, transições entre texto e música, tudo acontece dentro de um (aparente) conforto pleno.

Com todos os elementos de um grande musical americano, de uma ópera italiana, de uma opereta francesa, sem deixar nada a desejar a nenhum deles, “Furdunço” é o filtro “oficial” de uma imensa tradição popular oriunda do Brasil “real”. Vida longa!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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