“Eu, Moby Dick” fica num meio termo entre o panfletário e o abstrato, mas conquista pela instalação

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Oi Futuro do Flamengo, “Eu, Moby Dick”, que tem direção de Renato Rocha, reflete sobre os personagens da obra clássica de Herman Melville, de 1851. A montagem foca no aspecto visual, realizando um grande trabalho de instalação que coloca o espectador a par das proporções tematizadas pelo romance americano.

A dramaturgia de Pedro Kosovski questiona os personagens-chave de “Moby Dick”, sobretudo o narrador Ismael, o capitão Ahab e a baleia branca que intitula livro e peça. Em consonância com a abstração cênica, o texto começa apontando um caminho reflexivo, propondo pensar quem é esse narrador, por que ele se apresenta para o leitor daquela forma, quem é essa baleia cachalote de proporções monumentais… em pouco tempo, no entanto, vemos uma proposta paralela, que é a de associação direta do capitão Ahab com Bolsonaro, e de ambos com o “mal”, obsessivo e opressor.

A cenografia encantadora e extremamente imersiva de Bia Junqueira reveste toda a sala do Oi Futuro com um pano branco, onde serão projetadas diversas imagens, entre elas um mar em movimento. No teto, um arranjo de cadeiras de plástico brancas que parece a espinha dorsal de uma baleia também atravessa palco e plateia. Em alguns momentos, tive a impressão de estar no navio junto com o elenco; em outros, no interior de uma baleia.

Os figurinos de Tarsila Takahashi também trabalham com o branco e com esse lugar intermediário entre o simbólico e o concreto, com maior peso para o último, o que me pareceu acertado, visto que a direção de movimento tende ao abstrato. O equilíbrio, fundamental para a imersão, fica por conta dos figurinos e de alguns vídeos projetados no perímetro da sala, como o mar.

A iluminação de Renato Machado, como sempre, trabalha no limite da sombra, de modo a realçar todos os elementos cênicos sem prejudicar a visualização dos atores.

Estes, por fim (Gabriel Salabert, Kelzy Ecard, Márcio Vito e Noemia Oliveira), se entregam à proposta, mergulham nesse mundo onírico marcado pelas partituras físicas. Márcio Vito se destaca por sua capacidade de fazer o contato com a realidade e com o público (inserido no espaço cênico, vale lembrar): suas cenas, elas mesmas de teor mais concreto, recebem o olhar focado do ator, assim como entonações mais coloquiais e que buscam a cumplicidade com o espectador.

De modo geral, a peça é longa para manter a atenção do público a partir de uma linguagem tão abstrata. A comparação com o governo brasileiro atual não basta para fazer este contraponto “concreto”, digamos assim. De toda forma, o aspecto visual fala por si: ele começa na cenografia, passa pelo melhor momento do espetáculo, quando Márcio Vito se utiliza da instalação para descrever o tamanho de Moby Dick, e tem seu ápice na iluminação.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE