‘Eu, Moby Dick’ – Este é daqueles espetáculos teatrais que nos marcam para a vida inteira

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

Escrevo sobre um daqueles espetáculos teatrais que nos marcam para a vida inteira e nos dão a mais perfeita dimensão de quão profissional, criativo e tecnicamente perfeito é o TEATRO BRASILEIRO, quando feito por gente que entende do riscado. Na verdade, são os artistas e técnicos brasileiros.

peça de que falo é “EU, MOBY DICK”, com dramaturgia de PEDRO KOSOVSKI, ancorada no clássico “MOBY DICk”, do escritor norte-americano HERMAN MELVILLE, uma verdadeira obra-prima, que vem atravessando inúmeras gerações, desde que foi publicado, pela primeira vez, em três fascículos (A obra completa, num volume só, ultrapassa a casa das 600 páginas, dependendo da edição.), em 1851, em Londres. O espetáculo está em cartaz no Centro Cultural Oi Futuro.
A origem do romance, revolucionário, para a época, remonta a dois fatos, segundo os entendidos no assunto. Um deles seria o naufrágio do navio baleeiro Essex, em 1820, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu, teimosamente, uma baleia e, ao tentar destruí-la, afundou; e a outra fonte de inspiração teria sido o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830, ao largo da ilha chilena de Mocha, a qual, pobrezinha, se defendia dos navios que a perturbavam com premeditada ferocidade.

Mas não pensem que o espetáculo sobre o qual escrevo, simplesmente, seja um romance dramatizado, uma adaptação, para os palcos, de uma narrativa épica. Trata-se de outra proposta, sobre a qual dissertarei, tentando guardar alguns segredos e emoções, para surpreender os futuros espectadores.

Desde que tomei conhecimento de que estava em curso o projeto de uma montagem teatral, cujo título seria “EU, MOBY DICK”, imaginei, sim, ser mais uma versão teatralizada da obra literária e, com relação ao título, achei que o acréscimo, no início, do pronome pessoal reto, de primeira pessoa do singular, “EU”, teria sido usado para que não se confundisse esta peça com outra, simplesmente chamada de “Moby Dick”, também grande e inesquecível montagem – essa, sim, o romance teatralizado, numa excepcional adaptação -, dirigida, em 2013, por Aderbal Freire-Filho, no Teatro Poeira, com um elenco estelarChico Diaz, Isio Ghelman, Orã Figeiredo e André Matos. Mas não é nada disso. O pronome, seguido de uma vírgula, para separar um aposto, é totalmente necessário ao espetáculo, uma vez que a proposta metafórica do dramaturgo faz, de cada um de nós, o violento cachalote branco, terror dos mares, porém vítima da obsessão, da compulsão, da animalidade, da bestialidade e do instinto de vingança do Homem, o dito “ser racional”. Somos caças ou caçadores? Por que não somos, também, o ensandecido e vingativo CAPITÃO AHAB, o verdadeiro predador? A baleia branca mata por instinto de defesa ou para se alimentar, puro mecanismo de preservação de sua espécie; o Homem mata por prazer, para alimentar o seu ódio, para colecionar troféus; mata por competição com outros de sua espécie. Triste espécie!!!

 

SINOPSE

 

Na cidade de New Bedford, em Massachusetts, o marinheiro ISMAEL conhece o arpoador QUEEQUEG e, juntos, partem para a ilha de Nantucket, em busca de trabalho no mercado de caça às baleias.

Lá, eles embarcam no baleeiro Pequod, para uma viagem, de três anos, aos gelados mares do sul.

Entre eles, tripulantes de diversas nacionalidades: os imediatos STARBUCKStubb e Flask; os arpoadores Tashtego e Daggoo, além de AHAB, o sombrio CAPITÃO, que ostenta uma enorme cicatriz do rosto ao pescoço e uma perna artificial, feita do osso de cachalote.

Obcecado por encontrar a fera responsável por seus ferimentos e que nenhum arpoador jamais conseguiu abater – a temível MOBY DICK -, o CAPITÃO AHAB conduz o baleeiro e toda a sua tripulação por uma rota de perigos e incertezas.

Embarcar no navio Pequod é embarcar numa batalha entre a razão humana e o instinto animal, e confrontar-se com MOBY DICK acaba sendo confrontar-se com os fantasmas que nós mesmos criamos, confrontar a si mesmo, com a simples possibilidade de se estar vivo ou ter que deparar-se com a própria morte.

Logo, a encenação de “EU, MOBY DICK”, proposta por RENATO ROCHA não tem a intenção de ser fiel à história original, da perseguição à baleia branca, descrita por HERMAN MELVILLE, mas, sim, se apropriar de seus personagens, de seus conflitos e suas reflexões, para criar uma dramaturgia aberta e subjetiva, que utiliza, como pontos de partida, questões fundamentais do próprio livro, levantadas pelo autor, como: Quais são as nossas obsessões? Quais os monstros que nós mesmo criamos? Até que ponto ficamos cegos, em uma busca por algo que pode custar tudo o que construímos; no caso, nossa própria vida? Como nos relacionamos com os mistérios de um mundo que não conhecemos; nesse caso, esse oceano que se apresenta em nossa jornada? Qual é a relação entre o percurso do navio Pequod e as escolhas que determinam nosso próprio caminho?

Exercitem suas reflexões! Com a palavra, o público!


Nesta versão, em que a plasticidade e a sensorialidade são os grandes destaques, ao lado, evidentemente, das magníficas interpretações do quarteto de atores, da esplêndida direção e de todos os fascinantes elementos técnicos e de criação, que agasalham e potencializam a montagem, a dramaturgia permite que cada ator possa viver mais de um personagem (ISMAEL, CAPITÃO AHAB, QUEENQUEG, MOBY DICK e o próprio navio PEQUOD, personalizado), num revezamento, nunca perdendo a oportunidade de inserir, em determinados momentos, falas em que se apresentam em suas identidades verdadeiras. “Podem me chamar de KELZY”“Podem me chamar de MÁRCIO VITO”“Podem me chamar de NOEMIA”“Podem me chamar de GABRIEL”. Porque somos todos “MOBY DICK”. O dramaturgo seguiu a linha da narrativa, em primeira pessoa do singular, abrindo mão dos diálogos, praticamente. Há um texto declamado, dito, verbalmente, e outro, muito expressivo, codificado em silêncios e muita, muita, mesmo, excelente expressão corporal.

O comando do navio baleeiro está sob as rédeas do CAPITÃO AHAB, um louco, que só tem um grande objetivo na viagem: caçar e abater MOBY DICK (A “comunista do mar” – grifo, assumidamente, meu, já preparando o leitor para o que ainda virá, em termos metafóricos.), a baleia branca, do tipo cachalote, “o maior animal do globo; a mais formidável, para enfrentar, de todas as baleias”, que lhe arrancara a perna, num encontro anterior dos dois. Para envolver e estimular todos a ajudá-lo naquela ideia obsessiva, AHAB prendeu um dobrão de ouro, no mastro principal da embarcação, que seria conquistado por aquele que avistasse, primeiro, a baleia.

Durante toda a viagem, STARBUCK, o primeiro imediato, se apresenta como um grande opositor às ideias do CAPITÃO, surgindo, daí, algumas divergências entre os dois. Na verdade, mais pragmático e “pé no chão”, STARBRUCK sabia do risco que todos corriam e desejava, apenas, salvaguardar a integridade física de sua tripulação e evitar que o Pequod naufragasse. (“Lá vem o Brasil, descendo a ladeira!” – Moraes Moreira e Pepeu Gomes – outro grifo meu, no mesmo sentido do anterior.).

Durante a navegação, o baleeiro mata várias baleias, mas nenhuma delas era o troféu tão desejado por AHAB.

Num belo dia, o CAPITÃO fareja o inimigo; sobe ao mastro e avista MOBY DICK. Reivindica o dobrão de ouro, a recompensa, para si próprio (O CAPITÃO era “esperto” e “experto”, em trapaças. – Tomei gosto pelos grifos.) e ordena que todos os botes sejam arriados, exceto o de STARBUCK. A baleia, com uma mordida, parte o bote de AHAB pela metade (Não foi com uma facada. Chega de grifos “spoilerizantes”!!!), lançando o CAPITÃO para fora e dispersando a tripulação. No outro dia da caça, AHAB deixa STARBUCK no comando do PequodMOBY DICK estraçalha os três barcos que lhe vão ao encalço e emaranha suas arpoeiras (cabos que prendem os arpões ao barco). AHAB é salvo, mas sua perna de marfim se perde. STARBUCK implora que AHAB desista de seu pensamento fixo, mas este promete que, no dia seguinte, o cachalote “esguichará seu último jato”.

No terceiro dia da caça, AHAB avista MOBY DICK, ao meio-dia, e tubarões também aparecem. Ele arria seu barco, pela última vez, deixando STARBUCK, novamente, a bordo. MOBY DICK salta sobre dois barcos, destruindo-os. AHAB lança seu arpão, junto com uma praga, contra o odiado cetáceo. MOBY golpeia o barco, lançando seus homens ao mar. Somente ISMAEL não consegue retornar ao navio. Deixado para trás, no mar, é o único tripulante do Pequod que sobrevive ao embate final. O cachalote, agora, ataca, fatalmente, o Pequod. A baleia retorna para AHAB, que a arpoa de novo. O cabo do arpão se enrola no pescoço de AHAB, o qual, “calado, como os mudos turcos estrangulam sua vítima, foi arremessado do bote, antes que a equipagem percebesse que ele se tinha ido”. Por um dia inteiro, ISMAEL flutua nas águas, até que o outro baleeiro, o Raquel, o resgata, para contar a saga.

Para escrever os cinco parágrafos anteriores, o resumo da história original, vali-me das informações da Wikipédia, com omissões e adaptações, incluindo os grifos meus.

espetáculo, como já disse, não é uma representação teatral de um romance, mas, sim uma “versão cênica” de um diretorRENATO ROCHA, num de seus mais felizes momentos profissionais, seguindo a metodologia e filosofia do trabalho / pesquisa, inicialmente em seus espetáculos na Europa e, mais recentemente, no Brasil com o NAI – Núcleo de Artes Integradas, contando com as memórias e experiências de vida dos espectadores, como parte final da obra“uma obra de dramaturgia aberta, de extrema poesia visual, que leva o público a uma experiência imersiva, multimídia e sensorial”, como consta no completo “release” que me foi enviado por NEY MOTTA (CONTEMPORÂNEA COMUNICAÇÃO ASSESSORIA DE IMPRENSA).

Quem vai assistir a “EU, MOBY DICK” não pode sair do Teatro, dizendo que viu, apenas, uma peça teatral. Na verdade, o espectador vive, junto com os atores, uma inesquecível experiência sensorial e de vida, que pode acontecer de duas formas: na plateia ou no próprio palco, se optar pelas filas A e B. Por falar em palco, ele foi ampliado, para a frente, e transformado numa gigantesca plataforma, num convés, reproduzindo o baleeiro Pequod. Acho que isso me provoca a, fugindo à regra, começar meus comentários pelo que alguns chamam de cenário – inclusive, é como aparece na ficha técnica -, mas que prefiro reconhecer como uma fantástica instalação de BIA JUNQUEIRA, uma artista plástica de nos causar orgulho. BIA, na verdade, criou uma ambientação, que começa no palco e se estende à plateia, para que o espectador se sinta dentro da ação. No espaço cênico, propriamente dito, além de poucas cadeiras, nas laterais, para acomodar os espectadores que optarem por elas, apenas mais quatro, inicialmente colocadas ao fundo, brancas, de plástico. Tudo é branco, inclusive o linóleo que forra o piso. Das laterais do palco e da plateia, do alto delas, até o chão, pendem panos brancos, finos, para serem esvoaçantes, propícios às projeções, sobre as quais falarei adiante, e para as quais o piso também é utilizado. O grande destaque desta cenografia / instalação é o esqueleto de uma baleia, preso no teto, que começa num dos cantos de fundo do palco e vai até o final do auditório. Uma obra de arte gigantesca. Era um “spoiler” que tentei evitar, mas não consegui me segurar. Uma alusão ao esqueleto que havia no Museu Nacional do Rio de Janeiro, destruído, recentemente, por um incêndio e que é citado na peça. Fica, para os leitores, uma surpresa: de que material, ou objetos, é feito esse esqueleto. É de arrepiar!!!

PEDRO KOSOVSKI, num momento de extrema felicidade criativa, em acordo com o diretor, durante o processo de criação do espetáculo, foi gerando um texto inquietante, inteligente, mesclando trechos do livro com uma escrita própria, por meio da qual, metaforicamente, faz alusão a um certo CAPITÃO (Precisa desenhar?) e o momento político atual do Brasil. Extraído do já citado “release”“Associando (…) passagens da história, trechos de narrações e cenas do livro, é construída uma plataforma, que serve de base, para improvisações e composições cênicas do elenco e da equipe de criação. Assim, a partir de como cada artista se relaciona com o material proposto, durante o processo criativo, novos textos, movimentos corporais, cenas imagéticas, gestos, passagens audiovisuais, coreografias, além de trechos de texto e cenas extraídos do próprio livro serão (foram) entrelaçados, para a criação da dramaturgia de PEDRO KOSOVSKI e da encenação de RENATO ROCHA”.

Nesta montagem, o diretor pôs em prática toda a bagagem aprendida e desenvolvida em muitos anos de experiência no exterior, com os seguintes destaques: “Em Londres, criou espetáculos para a Royal Shakespeare Company, The Roundhouse, LIFT (London International Festival of Theatre) e Circolombia. Criou espetáculos, também, para a Bienal Internacional de Artes de Marselha, National Theatre of Scotland, o Festival Internacional de Dança de Leicester, União Européia e Unicef, além de ter dirigido e colaborado em projetos na Índia, Berlim, Tanzânia, Quênia, Egito, Paris, Nova Iorque, Edimburgo, Estocolmo, Budapeste e Colômbia. Desde de seu retorno ao Brasil, RENATO vem trazendo sua pesquisa internacional para o cenário artístico nacional. Assim, em 2016, fundou o NAI – Núcleo de Artes Integradas, no qual aprofunda sua pesquisa artística multidisciplinar, que vem chamando de ‘processo criativo antropofágico’, e vem ministrando residências artísticas ao redor do mundo. O primeiro espetáculo com o NAI, ‘Antes Que Tudo Acabe’ (‘Before Everything Ends’), de 2016, foi criado a convite do National Theatre of Scotland, especialmente para o Festival Home Away, em Glasgow. Antes do festival, o espetáculo fez temporada na Arena do Sesc Copacabana. O segundo trabalho, ‘S’Blood’, de 2018, transformou a Casa Rio, em Botafogo, num ‘site specific’, numa instalação performativa. Esse espetáculo foi indicado ao Prêmio Shell-RJ 2018, na categoria Inovação. Em outubro de 2019, uma nova pesquisa, o projeto ‘Escombros’, uma experiência imersiva, interdisciplinar e intercultural, transformará a Casa da Glória, num “site specifc”. Foi, também, o diretor artístico da organização Street Child United, que cria projetos com jovens em situação de rua, em 20 países, e um dos diretores artísticos da Circus Incubator, uma plataforma de pesquisa de circo, criada em colaboração entre La Grainerie (França), Circus Info e Cirko (Finlândia), Subtopia (Suécia), La Central del Circ (Espanha), La TOHU (Canadá) e Luni Produções (Brasil). Recentemente dirigiu (no Brasil) os musicais ‘Ayrton Senna – o Musical’ e ‘O Meu Destino é Ser Star’. Além disso, colabora com projetos, em diversos lugares do mundo, no uso da arte, como poderosa ferramenta na transformação social e no engajamento de comunidades e indivíduos em situação de vulnerabilidade, criando intercâmbios de metodologias e treinamentos para professores, facilitadores e agentes comunitários. Atualmente, RENATO está negociando uma nova produção teatral nos EUA, em Nova Iorque.”.

Acho muito importante situar o responsável pela direção do espetáculo, para mostrar que não se trata de nenhum insipiente ou incipiente profissional. Com um currículo desse porte, não me sinto, nem um pouco, à vontade, até por julgar desnecessário, para tecer qualquer comentário particular sobre seu trabalho de direção, em “EU, MOBY DICK”, criativo e inventivo, elevado à mais alta potência.  Imaginem o que quiserem e, lá, no 7º andar do Centro Cultural OI Futuro, verão o que imaginaram; e mais alguma coisa. Um único adjetivo resume todo o se trabalho: GENIAL!!!

O pequeno palco do Centro Cultural Oi Futuro cresce, literalmente, e parece se agigantar, “numa plataforma multidisciplinar, inspirada num grande universo de destroços, onde são projetadas, por “video mapping”, os subconscientes dos personagens, suas reflexões, medos, anseios e ambições”.

E, por falar nisso, já passo a tecer comentários sobre um elemento da maior importância para a montagem, sem o qual seria inconcebível esta encenação, que é tudo o que se refere a videografismo, o uso do “video mapping”, trabalho esplendoroso, feito por dois irmãos, considerados, indiscutivelmente, os melhores profissionais no ramo, no Brasil, a despeito da existência de outros, que também são “craques” no assunto: RICO VILAROUCA e RENATO VILAROUCA, os quais, já de há muito, merecem premiações especiais por sua riquíssima e perfeita produção artística. Dos 80 minutos de espetáculo, tenho a impressão, se a memória não me trai, de que, em nenhum momento, ficamos um minuto sem a presença das projeções, sensacionais, em todos os sentidos, e que entram na hora exata, totalmente sincronizadas com as cenas, ajudando – E como! – a criar a ambientação e a contar a história. Já vi inúmeros trabalhos de videografismo, elemento cada vez mais presente nas montagens teatrais atuais, a maioria da melhor qualidade, porém penso jamais ter visto algo tão impactante e tecnicamente perfeito como o que esta montagem nos apresenta. Todas as imagens se relacionam com o que se vê em cena, por parte dos atores, e revela seus interiores, as emoções dos personagens. Mérito, também, para quem opera os projetores.

Voltando ao texto, e, até, sendo um pouco repetitivo, antes que eu me esqueça, quem já leu o clássico de MELVILLE, reconhece nele muitas metáforasPEDRO KOSOVSKI não abriu mão desse rico e provocativo recurso. Mas é preciso estar atento a todas as falas e cenas, pois são muito sutis, a não ser numa cena em que uma das atrizes, KELZY ECARDtotalmente dentro do contexto da peça, repete, algumas vezes, a frase nominal “Ele não!”. O fato de AHAB, o louco e incompetente, ser chamado, várias vezes, de CAPITÃO nem precisa ser explicado, não é mesmo? Neste caso, é mais uma analogia que uma metáfora. A visão metafórica de KOSOVSKI se apoia em “temas relevantes da contemporaneidade” e traça um olhar profundo sobre o sujeito contemporâneo. Cada um espectador irá se identificar, ou se reconhecer, no “mocinho” ou no “bandido”, caso consiga diferençar um do outro.

Assim como não me senti à vontade para falar muito do trabalho da direção, confesso que me custa encontrar palavras para traduzir a excepcional interpretação do quarteto de atores, do qual se destacam dois com mais experiência de palco, mais conhecidos do público do TEATRO e da TVKELZY ECARD e MÁRCIO VÍTOR, aos quais se juntou outra dupla, NOEMIA OLIVEIRA e GABRIEL SALABERT, que não ficam em segundo plano. Mas não ficam mesmo! Todos se entregam, com tenacidade e visceralidade, a cada personagem que representam e conseguem passar toda a angústia, medo e coragem, sensatez e insanidade daqueles que representam, por meio de suas falas e, em grande parte, do brilhante trabalho corporal, o que muito exige dos quatro. A verbalização, por vezes, fica em segundo plano, diante da expressão corporal. São interpretações, por mim, já consagradas, pelo alto nível de complexidade que exigem dos profissionais. Eu diria que, mais do que quatro ótimos atores, estamos diante de um quarteto de excelentes “performers”.

FELIPE HABIB e DANIEL CASTANHEIRA, ambos corretíssimos, sempre, no que fazem, a meu ver, se superaram na criação de uma trilha sonora (Os dois são responsáveis pela direção musical.)que abre e encerra o espetáculo, com “sonoridades relacionadas ao universo aquático e baleeiro”. Destarte, estão presentes, na trilha sonora original“o canto das baleias; o barulho da água, batendo nos cascos das embarcações; o vento; a gritaria, no convés, quando se avista uma baleia; o som de um arpão, perfurando uma baleia; o sibilar das cordas, enquanto a baleia tenta fugir etc.”. Tudo nos seus mínimos detalhes e muitos desses sons, além dos naturais, criados, artificialmente, pela tecnologia musical, dos “samples”, por exemplo. Aliada à cenografia e à iluminação, a trilha sonora também colabora, em muito, para classificarmos o espetáculo como “sensorial”, provocando e aguçando os nossos cinco sentidos, com destaque para a visão e a audição. Mas podemos imaginar texturas, por meio do tato; cheiros do mar, do sangue; e, com um pouco mais de imaginação, provar do sal da água marinha, que “respinga” no convés do Pequod“Viajar” também me dá muito prazer.

Quanto aos interessantes figurinos, criados por TARSILA TAKAHASHI, segundo o “release”“seguem a ideia da direção, de ‘trabalhar com o universo imaginário da alta costura, que busca o conceito por trás da vestimenta e a eterna busca pelo belo e provocador. Mas também diferentes materiais que remetam ao universo baleeiro, como aplicações com cordas e redes, pedaços de metais, anzóis, arpões etc..’”. Talvez pelo fato de eu não entender, absolutamente, nada de alta costura, ainda que aprecie o seu componente “belo”, confesso que não entendi, ou melhor, não consegui enxergar o tal “conceito”, mas posso afirmar que são, os figurinos, bonitos, adequados à situação e salta aos olhos o interessante da predominância total dos tons em branco, neve, gelo e creme. Além de ajudar na composição do ambiente gelado, de onde se dão as ações, também servem de superfícies para as projeções, o que provoca um belo efeito plástico.

iluminação, de RENATO MACHADO, é uma de suas mais brilhantes criações do artista, e funciona dramatúrgica e poeticamente. Melhor explicando: acompanhando, de perto, as ações dos personagens, emoldura, na medida do necessário, cada cena e utiliza, para isso, uma paleta de cores que tornam, lindas, plasticamente, cada uma delas, mesmo as que estão relacionadas a situações de luta, dor e morte. A iluminação ajusta-se, no ponto, com as projeções, formando um diálogo lindo e surpreendente.

Jamais poderia ficar de fora destes comentários, o competentíssimo trabalho de PAULO MANTUANO, à frente da direção de movimento, um elemento que, nesta montagem, se reveste da maior importância. Aplauso para a preparação corporal dos atores, a sua postura em cena, com um navio em pleno alto mar revolto. O que pode parecer gratuito, em ternos de movimentos e expressão corporal, em todas as cenas, não o é. A movimentação dos atores, em cena, transporta o público para o convés do Pequod, ao sabor dos aterrorizantes vagalhões, num mar furioso, ameaçador e assassino, muito mais que a baleia perseguida. E se o labor de MANTUANO é excelente, também o é, por parte do elenco, a sua execução, resultado de um profundo trabalho de pesquisa de corpo e preparação corporal.

Nestas observações finais, digo que, “pelo andar da carruagem”, é bastante previsível o final da história, o que, em nada, lhe tira o valor, uma vez que o mais interessante é como se chega a ele e a mensagem que fica para o leitor / espectador. Não era de se esperar que o insano AHAB terminasse flutuando num “mar de rosas”, é claro! O insano e irresponsável CAPITÃO teve o final que merecia. “A lição filosófica da obra é que o homem, quando se dá por, extremamente, ambicioso, acaba perdendo tudo o que mais preza; no caso da metáfora construída, o Pequod e a vida”.

Com a morte de seu melhor amigo, QUEEQUEGISMAEL estava sozinho, em meio aos escombros e aos corpos (todos mortos). Fazendo uso de um caixão, que flutuava, “o marinheiro é levado para casa. Tempos depois de ter vivido o sabor da sua amarga aventura e ter visto o quanto o homem pode ser tolo por razões tão naturais, como o instinto animal, e criar seus fantasmas, justamente por sua pretensão, ISMAEL não tem mais vontade de voltar para o mar. Deveras, já vira de tudo.”.

Para mim, a grande sensação deste ano, até agora, em termos de TEATRO, no Rio de Janeiro, embora ainda estejamos apenas fechando o primeiro semestre, é “EU, MOBY DICK”, correspondendo, na minha avaliação, àquilo que representou, em 2017, “Tom na Fazenda” e, em 2018“Tebas Land”, ainda que sejam três temas totalmente diferente e igualmente geniais, em termos de concepção e realização teatral. Mas ainda temos um semestre inteiro pela frente, e que venham mais produções à altura deste grandioso espetáculo.
Sempre é bom lembrar que, para existir, um espetáculo – e de tal envergadura – precisa de um pontapé inicial e de quem garante a infraestrutura, para que ele venha à luz. Neste caso, a idealização de “EU, MOBY DICK”, se deve a ALINE MOHAMADGABRIEL SALABERT e RENATO ROCHA.

Não só recomendo a peça como já estou providenciando um outro dia, para revê-la.

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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