Em cartaz com peça sobre violência contra LGBTs, Silvero Pereira analisa preconceito e estigmatização na carreira

Luiz Maurício Monteiro

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Peça levanta bandeira contra a estereotipagem da comunidade LGBT+ Foto: Divulgação

Na semana em que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela criminalização da homofobia e da transfobia, o coletivo cearense As Travestidas desembarcou pela primeira vez na Região Sudeste para estrear “Quem tem Medo de Travesti?”. Fruto de um trabalho de 15 anos do grupo sobre o universo trans, a peça, que fica no Teatro Poeira até 24/07, faz um alerta contra os diferentes tipos de violência sofridos não só pelos trans, mas por toda comunidade LGBT+, com uma bandeira que tem assinatura dupla na direção e no texto. Ao lado de Jezebel De Carli, Silvero Pereira emplaca mais um projeto voltado para a temática da diversidade sexual. E sem medo de estigmatização!

Natural de Mombaça, no Sertão Central do Ceará, o ator, diretor, autor e pesquisador, de 36 anos, completa 20 de carreira em 2019, acumulando cerca de 30 espetáculos no currículo. Deste total, garante ele, apenas sete passam de alguma forma pela questão LGBT. Porém, foi o sucesso em “BR-TRANS” e “Uma Flor de Dama”, solos nos quais abordava o tema, que o alçou a um novo patamar na carreira e, consequentemente, o colocou em trabalhos relacionados exatamente à travestilidade.

Em 2017, foi convidado para “A Força do Querer” (TV Globo), sua primeira novela, na qual interpretava um travesti. No ano seguinte, participou do quadro Show dos Famosos, do Domingão do Faustão, cujo desafio é interpretar outros artistas, inclusive de outros gêneros. Mas apesar da sequência, Silvero assegura que não sofre com qualquer tipo de receio de ser convidado apenas para projetos nesta linha. Esta aflição já existiu, mas não mais.

— Isto já foi uma questão para mim, mas que hoje está resolvida. Optei pela arte por uma questão de militância, por vê-la como um mecanismo que resolveria problemas pessoais e psicológicos meus. Digo em relação à minha aceitação. Mas eu sei do meu potencial, sei o ator que sou — afirma Silvero, em entrevista ao RIO ENCENA.

Com o sonho de tirar do papel em até dois anos o projeto pessoal de encenar o clássico shakespeariano “Hamlet”, Silvero tira de si qualquer parcela de responsabilidade caso a maioria dos convites futuros for para trabalhos ligados à temática LGBT.

— O mercado (de trabalho) precisa me enxergar como ator. Recentemente, atuei no filme “Bacurau” com um personagem diferente, e foi incrível, porque me viram como ator mesmo sabendo do meu histórico. Me interessa muito trabalhar como ator e mostrar meu potencial, não apenas em trabalhos voltados para a comunidade LGBT — explica.

Sobre “Quem tem Medo de Travesti?”, Silvero destaca que a abordagem é ampla. No palco, o elenco, que conta com artistas trans, propõe reflexões que vão além da agressão física, que é aquela que primeiro se pensa quando a notícia dá conta de violência contra trans e homossexuais.

— As pessoas tendem a achar que esse espetáculo fala de questões que já são muito faladas, mas nosso leque é maior. Quando falamos em violência, se pensa logo em assassinato. Mas a violência vai além. É a violência verbal, é aquela que acontece no mercado de trabalho… Ainda não somos uma nação que respeita a diversidade — lamenta o ator, apontando outro alvo da montagem: — As pessoas acham que somos estereótipos daquilo que é passado a elas. Falamos sobre a caricatura, a estereotipagem da nossa comunidade.

Silvero assina texto e direção da peça Foto: Reprodução/Facebook

Tal estereotipagem, opina Silvero, resultou num determinado perfil de público que assistiu ao espetáculo ao longo da circulação por oito estados brasileiros – do Nordeste e do Sul – realizada antes da estreia no Sudeste. De acordo com o ator, foi possível notar plateias compostas quase em iguais proporções por héteros e homossexuais, porém, com poucos representantes trans. Ele crê que o olhar da sociedade pode influenciar na rotina de travestis e transexuais.

— Sempre tivemos um público heterogêneo. Mas outra situação de violência, especialmente para as pessoas trans, é a dificuldade de ir ao teatro, por exemplo.  Elas se sentem agredidas ao chegarem a um espaço socialmente não dito como sendo para elas. É como se lugar de travesti fosse só na rua ou na noite — critica.

Já no Rio de Janeiro, ele espera que o panorama possa mudar.

— Acho que aqui, nosso público será parecido com de outras cidades. Mas logo na estreia fomos apoiados de forma calorosa pelos trans. E nesta temporada, contamos com o trans free, que dá ingressos gratuitos aos 10 primeiros trans que chegarem  — destaca Silvero, ressaltando, porém, que o público-alvo da peça não são trans ou LGBTs: — Não queremos falar para nós mesmos, mas, sim, com a comunidade que ainda não nos compreende. É nela que queremos chegar!

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