É a crise? Especialistas analisam temporadas curtíssimas e profusão de solos que têm marcado cena teatral do Rio

Luiz Maurício Monteiro

Tempo estimado de leitura: 6 minutos

A cena teatral do Rio tem sido marcada por temporadas curtas e muitos solos Fotos: Divulgação

Se agosto está chegando ao fim nesse sábado (31), a economia de muita gente já se foi faz tempo. Portanto, é natural que aquela peça que estava nos planos tenha ficado para depois. Mas, hoje em dia, é bom não adiar muito. Na Agenda do RIO ENCENA, por exemplo, estão catalogados 75 espetáculos, dos quais, 47, ou seja, mais de 60%, estão ou virão a ficar apenas um mês ou menos em cartaz – muitos já saem nesse fim de semana mesmo. Estas temporadas curtíssimas têm se tornado cada vez mais comum na cena teatral do Rio de Janeiro, que, nos últimos tempos, vem ganhando uma outra marca: um número cada vez maior de monólogos. Quais seriam, então, as razões para estes “fenômenos” estarem acontecendo no teatro carioca? Seria só a crise? Existe algo mais?

A fim de tentar entender estas questões e analisar suas consequências, sem necessariamente respondê-las ou buscar uma verdade absoluta para elas, procuramos Péricles Vanzella e Gilberto Bartholo, ambos especialistas em artes cênicas, que publicam semanalmente críticas no RIO ENCENA.

Péricles, 32 anos, que é doutor em artes cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor, crê que, mesmo que haja outras razões para as temporadas estarem sendo tão curtas, a recessão econômica, que leva a um menor interesse por parte de possíveis patrocinadores e a cortes em leis de incentivo – o teto da Rouanet, por exemplo, caiu de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão – é, sim, a principal delas.

— Como se tem menos dinheiro, fecham-se espaços. Não sei de todas as razões que possam existir, mas a crise agrava. E com espaços fechados, os poucos que restam têm muitas peças para colocar em cartaz. Por exemplo, quando se tem um total de 200 peças divido por 100 teatros, é melhor do que quando tem por dois teatros apenas. Assim, estes dois vão optar por colocar o máximo possível de espetáculos em cartaz para contemplar o máximo possível de projetos, para ofertar variedade ao público. E quando se opta por variedade, as peças acabam ficando menos tempo em cartaz. E aí tem ficado um mês — destaca.

Gilberto, 69, que é ator, professor e jurado do Prêmio Botequim Cultural, segue uma linha de raciocínio semelhante.

—  Há poucos espaços a serem ocupados e uma demanda grande de solicitações de pauta, a despeito da gravíssima crise econômica pela qual estamos passando. O fato é, porém, que todo mundo precisa trabalhar, mostrar as suas produções, e faltam espaços. Para cada nova casa que se abre (raridade), fecham-se duas. É lamentável ver tantos profissionais, de excelente qualidade, dedicando mais tempo de ensaios do que de apresentações. É um verdadeiro absurdo! Ensaiar dois ou três meses, preparar uma peça de qualidade, para uma temporada de um mês ou menos. É o que mais se tem visto, infelizmente, no panorama atual do teatro, no Rio — lamenta.

Para Gilberto, esse curto período de apresentações acarreta ainda em outros prejuízos para os artistas.

— Os investimentos, de toda ordem, por menores que sejam, acabam não tendo retorno. Além disso, todos sabemos que as montagens vão se aprimorando, “azeitando-se”, como se diz na linguagem teatral, à medida que as temporadas vão se desenvolvendo. A peça estreia e, num piscar de olhos, sai de cartaz, sem, muitas vezes, atingir o ponto de perfeição, já que teatro é uma arte coletiva e cada um tem o seu tempo para atingir o nível de qualidade esperado.

E quanto à profusão de solos que vem ganhando notoriedade no Rio nos últimos meses? Considerando as mesmas 75 produções que estão catalogadas em nossa agenda, 19 são apresentadas por um único artista. A instabilidade econômica, pelo visto, parece ser a grande vilã novamente.

— Quando as pessoas optam por monólogos, é muito por conta de grana. Quando se faz uma peça sozinho, não só se ganha mais, porque não divide dinheiro com uma equipe grande, como também é mais fácil para viajar, porque só tem você, e não é preciso conciliar com agenda de ninguém. Você fecha datas em outra cidade ou outro estado em função de você única e exclusivamente. Tudo isso dá um retorno financeiro muito maior para monólogos, porque peças viajam muito. Existe o Palco Giratório, o Circuito Sesc… Vários editais que são de viagem. E quem viaja é basicamente o elenco, alguém da iluminação, do som, e o diretor. E viagem é um componente muito presente para as peças. Como a crise afeta tudo, seja dinheiro no fim do mês ou espaços teatrais, acaba contribuindo para esse aumento de monólogos — opina Péricles.

Já Gilberto aponta um outro fator além do período de recessão econômica.

— É o resultado do momento. Tenho percebido, claramente, um aumento considerável no número de monólogos, nos últimos anos, sobretudo em 2018; muito mais, ainda, em 2019. Mas não acredito que seja uma “tendência”; longe disso. Penso ser uma soma de dois fatores. Em primeiro lugar, não, porém, no meu entender, o motivo principal, para essa “invasão” de solos, os atores e atrizes, por vaidade, inerente à profissão, e/ou para terem a oportunidade de mostrar um trabalho, no palco, com destaque, desejam, um dia, fazer um grande monólogo. E isso é muito natural e compreensível. E não é tarefa para principiantes. É preciso muito talento, para encarar a solidão de um palco. O segundo motivo, e principal, certamente, é uma resposta à crise por que passa o país e, principalmente, pela falta de patrocínios e pela política de “desmontagem” da cultura, com as metralhadoras voltadas, principalmente, para o teatro, por parte dos governos, nas três esferas. Sem apoio oficial e sem patrocínios particulares, a grande maioria das produções não tem recursos financeiros. Assim, para não ficar sem trabalhar, muitos atores estão bancando os seus monólogos, até mesmo sofrendo prejuízos financeiros. No primeiro semestre deste ano, de 2019, assisti a mais de 30 montagens de solos, alguns bem intimistas, para poucos espectadores, e, ainda bem que a maioria variou de “bom” a “obra-prima”, na minha modesta classificação, embora alguns fossem de qualidade muito duvidosa. Isso sem falar nas várias remontagens…

E o público?

Apesar das vantagens de se apresentar com um solo, porém, há um lado negativo para os artistas nessa história?

— Por um lado, sim; por outro, não. É ruim, porque a energia empregada, para se levantar um espetáculo solo, que, muitas vezes, não terá o retorno esperado, do ponto de vista econômico, é muito grande. Mas, por outro lado, há uma compensação dupla: o artista não fica sem trabalhar e consegue mostrar seu talento individual — pondera Gilberto.

— Acho pior para o público do que para os artistas. Os artistas sempre optaram por monólogos ao pensar no bolso — opina Péricles.

Por falar no público, mencionado no início da reportagem, ele fica, com esta atual realidade, com uma disponibilidade menor daquelas peças que gostaria de assistir, já que não pode adiar muito pois elas podem sair logo de cartaz e não voltarem. Isto sem falar no cardápio menos variado de opções de gêneros e estilos teatrais.

“A Mentira” entra em cartaz nessa sexta e fica só mais 22 dias; o solo “Aracy” reestreou em 22/08 e vai só até 08/09

Sobre a atual abundância de solos em cartaz, Péricles não vê com bons olhos quando um único gênero vira uma espécie de tendência nos palcos.

— Acho péssimo quando o circuito teatral da cidade se resume a um estilo só. Independetemente das razões. Recentemente, foram os musicais aqui no Rio, por exemplo. O público perde variedade, aí perde parâmetro, além de afastar do teatro quem não gosta daquele gênero específico — ressalta Péricles, que acha que o espectador também sofre com as temporadas curtas, mas procura ver um lado positivo: — Tem mais rotatividade de peças.

Crítico e jurado de prêmio, Gilberto lembra que o pouco tempo em que as montagens vêm ficando em cartaz não tem afetado somente o público.

— Sofre o público comum, o que gosta de teatro e vai com uma maior frequência, e sofrem, mais ainda, os críticos e jurados de prêmios de teatro, que têm de fazer malabarismos, para assistir ao maior número de espetáculos em cartaz. Quando a peça consegue uma segunda temporada, menos mal, entretanto, se isso não ocorre, muita gente fica triste e frustrada, porque não teve tempo de assistir a alguns espetáculos pelos quais tanto ansiavam. E ainda há um detalhe terrível: os prêmios de teatro exigem um número mínimo de apresentações, para que o espetáculo esteja habilitado a concorrer a eles. Muitas peças de qualidade ficam de fora, não podem ser indicadas, apesar de, praticamente, todos os prêmios, salvo engano, já terem reduzido a quantidade mínima exigida de apresentações, em função desse problema.

Por fim, a respeito do leque cada vez maior de solos, ele acredita que o impacto no espectador não seja tão forte, já que outros gêneros continuam sendo montados com frequência.

— Se existe uma grande profusão de monólogos em cartaz, não deixaram de ser montados, ainda que em menor quantidade, musicais, dramas e comédias, com elencos formados por poucos ou muitos atores. Há espetáculos para todos os gostos em cartaz, e tenho percebido que, em função da boa qualidade da maioria dos monólogos que vêm sendo montados, o público, que, antes, torcia o nariz para esse tipo de espetáculo, passou a valorizá-lo e a comparecer aos teatros. E o processo de divulgação “de boca em boca” tem funcionado bastante, já que também faltam recursos para divulgação na mídia.

PUBLICIDADE