‘Distorções’ – Uma alegoria, mais que um conjunto de metáforas, a serviço do bom teatro brasileiro

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

TEATRO já é bom, por natureza; quando a peça agrada, melhor ainda; quando é ótima, alegria total. Foi assim que deixei o Teatro I do SESC Tijuca, há alguns dias, depois de ter assistido a “DISTORÇÕES”, uma excelente montagem de um texto idem.

dramaturgia, um verdadeiro primor, é inédita, escrita pelo jovem e talentoso dramaturgo FABRÍCIO BRANCO, premiado na 8ª edição do Prêmio, de dramaturgia“Seleção Brasil em Cena”, promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil, com a peça “Solo”, que esteve em cartaz neste ano.

encenação é o resultado de um longo processo, de mais dois anos, a partir do momento em que as duas atrizes da peçaCARMEN FRENZEL MARIANA CONSOLI“perceberam que o humor cotidiano havia dado lugar para uma sensação coletiva de tristeza, em uma sociedade bombardeada por notícias capazes de tirar o sono. Foi nesse momento que, a convite das atrizes, FABRÍCIO foi convocado a participar do processo, na tentativa de sintetizar as questões propostas e criar uma dramaturgia em que realidade e imaginação pudessem ser misturadas, tal qual uma centrifugação de ideias.”. (Texto extraído do “release”, enviado por FERNANDA MIRANDA (DOIS PONTOS ASSESSORIA).

 

SINOPSE

 

Uma frase, em uma etiqueta, altera a rotina de duas funcionárias de uma lavanderia.

A mesmice do dia a dia das duas protagonistas é quebrada, quando ambas se deparam com uma etiqueta de roupa, solta no fundo de um cesto.

Elas percebem a existência de uma frase, que desenrola toda a conotação de uma sequência de histórias: “Bem aqui, descobri a tua história.”.

A etiqueta deixa as duas mulheres intrigadas sobre a procedência do pequeno pedaço de pano e, imaginando de onde o pedacinho de pano saiu, UMA (CARMEN FRENZEL / MARIANA CONSOLI) e OUTRA (MARIANA CONSOLI / CARMEN FRENZEL) – elas trocam de “personalidade”, no decorrer da peça – mergulham em águas profundas de um mundo imaginário, metaforicamente falando, onde “pedaço de roupa é pedaço de gente”.

É pelas mãos dessas mulheres que histórias de vida são passadas a limpo, torcidas e distorcidas.


Realidade e imaginação se misturam, são distorcidas, giram, convulsivamente, dentro do tambor de uma máquina de lavar roupas, metáfora maior da nossa vida.

texto, que, de certa forma, flerta bastante com o teatro do absurdo, é uma pérola de dramaturgia, muito bem construído, do ponto de vista arquitetônico, estrutural, com diálogos inteligentes, ágeis e mergulhados em imagens metafóricas interessantíssimas.

Também extraído do já referido “release”“‘DISTORÇÕES’ é uma comédia dramática onde (sic) o riso e o choro se misturam em um ciclo de água, que vira ciclo de vida.”. E eu acrescento: “O que dá pra rir dá pra chorar / Questão só de peso e medida / Problema de hora e lugar / Mas tudo são coisas da vida”.

De acordo com a visão do diretor“O artefato (a etiqueta, desprendida de uma peça de roupa, encontrada no fundo de um cesto) serve de motivador para as personagens desenrolarem um cobertor de histórias individuais e coletivas, em um exercício lúdico de provocação pessoal”. É exatamente isso o que acontece, atraindo o público a entrar naquele jogo e se divertir muito, apesar de não se tratar de uma comédia pura, e sim de um misto de comédia e drama, abrindo-se a proposta de reflexão sobre nossas ações e reações, diante de tudo aquilo e todos aqueles com que, ou quem, nos deparamos, e convivemos, ao longo de nossas vidas.

Acho muito interessante um trecho, também extraído do “release”, que merece um comentário: “Segundo o diretor, a teatralidade é algo que sempre guiou seus trabalhos como artista. Aliada à teatralidade está sempre a ludicidade, ou a capacidade de transformar a vida em jogo, em brincadeira, montando e desmontando situações, pessoas, lugares etc.. O texto proposto por FABRÍCIO é um convite a tudo isso. Como fazer deste espaço-tempo, onde surgem estas duas personagens, chamadas, pelo autor, de UMA e OUTRA; um grande tabuleiro, um playground, um terreno baldio onde se joga, se brinca, se transforma a partir das palavras, das roupas, das imagens.”.            Podemos entender por “teatralidade” a “qualidade daquilo que é teatral ou tem condies para ser representado em cena”, ou seja, o mesmo que “qualidade daquilo que tem condições cênicas para se representar”. Não passa de algo que existe para gerar um efeito. É uma condição a ser descoberta por uma pessoa que propõe um processo de representação de uma realidade, ainda que absurda ou de importância pouco relativa, mesmo que a visão de quem “teatralizou” possa ser lida, e relida, sob diversas óticas, pelo público a quem se destina; no caso, um espetáculo teatral. Segundo Patrice Pavis, um grande teórico contemporâneo do TEATRO, em seu “Dicionário do Teatro”“a teatralidade seria aquilo que, na representação ou no texto dramático, é especificamente teatral (ou cênico) (…).”

espetáculo é lúdico, porque a vida também o é, quando aceitamos participar dos jogos que ele nos oferece.

EDUARDO VACCARI conseguiu enxergar, no brilhante texto de FABRÍCIO BRANCO, uma possibilidade de ir além do que o texto, aparentemente, propõe e diz, e encontra possibilidades mil de fazer com que cada espectador possa se identificar com todas as situações que desfilam em cena, a partir dos relatos que envolvem o surrealismo de “roupas que ganhavam vida em uma lavanderia, a partir das mãos de duas mulheres”. Não é por acaso que as personagens são anônimas, identificadas apenas como UMA e OUTRA, alternando-se nas identificações. Todos nós somos UMA ou OUTRA (pessoa).

Ainda que o texto, o bom texto – sempre repetirei – seja considerado a espinha dorsal de um espetáculo, podendo inviabilizá-lo ou ser o vetor de uma grandemontagem, ele não se basta para que seja alcançado um produto final de qualidade, um espetáculo que faz o espectador feliz e o leva a recomendá-lo. Em “DISTORÇÕES”, a ficha técnica reúne nomes de profissionais de renomada competência, totalmente aplicados à proposta da encenação.

Assim, temos a potência de duas grandes atrizesCARMEN FRENZEL e MARIANA CONSOLI, mergulhadas, profundamente, em suas personagens, dando-nos uma excelente aula de interpretação, numa química nem sempre vista num palco. Há uma indiscutível cumplicidade entre as duas, numa atuação em que UMA não se destaca, em relação à OUTRA, e vice-versa.

Um destaque deve ser atribuído ao criativo cenário, de CARLOS ALBERTO NUNES, que conseguiu criar a ambientação de uma lavanderia, com elementos próprios de uma, porém de uma forma superlativa.

NÍVEA FASO foi muito feliz nos figurinos e nas transformações por que eles passam, assim como ANA LUZIA DE SIMONI acertou, na iluminação, e MARCELLO H, na trilha sonora.

peça exige que o espectador não se permita uma distração, o que o fará correr o risco de deixar de saborear algum detalhe bem temperado do texto ou ficar meio perdido, a partir de quando se religar à encenação.

Além de ter gostado muito da peça, eu me identifiquei bastante com o que vi, muito ligado a um momento pelo qual venho passando, à guisa de não sei o quê. O fato é que, ultimamente, venho pondo em prática uma observação, à distância, das pessoas – as que não conheço, de preferência – e fico a imaginar quem são elas, que tipo de vida levam, quem habita o seu universo, o que pode justificar seus atos… É um comportamento meu, que, que passei a desenvolver e até chegou a me preocupar um pouco; não mais hoje. Penso – pode ser que esteja errado – que não há nada de patológico nisso e que, ao contrário, é um bom exercício de, até mesmo, autoconhecimento, a partir das histórias que crio, mas, logo, logo, delas me desfaço, esqueço-as na primeira esquina.

Acho que todos os que se propuserem a seguir a minha recomendação, para ver a peça, passarão por uma experiência inesquecível, além de assistir a um excelente espetáculo teatral.

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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