Com duas estreias para a semana, Cia. Teatral Milongas comemora 13 anos, e fundador faz balanço: ‘Enriquecedor’

Luiz Maurício Monteiro

"Se Vivêssemos em um Lugar Normal" nasceu de um processo quase individual de Roberto Rodrigues Foto: Thiago Cristaldi/Divulgação

“Se Vivêssemos em um Lugar Normal” nasceu de um processo quase individual de Roberto Rodrigues Foto: Thiago Cristaldi/Divulgação

Conhecida por ser eclética, uma vez que tem como característica passear por diferentes possibilidades teatrais, a Cia. Teatral Milongas não poderia comemorar seus 13 anos de atividades, completados em 2016, com apenas uma peça de um único gênero. Para isso, o grupo carioca vasculhou o próprio repertório de 11 espetáculos e selecionou dois, que se diferem pelos estilos completamente diferentes, para apresentar em outubro: “Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos” e “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”. Ambos foram criados com acompanhamento de todo o grupo – o primeiro bem mais do que o segundo –  ao longo da trajetória que , pelo visto, só levou benefícios aos fundadores e integrantes Hugo Souza, Matheus Rebelo, Roberto Rodrigues e Breno Sanches, que, aliás, bateu um papo com o RIO ENCENA.

– Nunca deixamos de trabalhar, temos uma história de coisas que vivemos juntos, de processos, viagens e tudo mais. Foi enriquecedor, pois a companhia nos proporcionou tudo isso – comenta Breno, formado em artes cênicas, assim como os outros, na Unirio, onde também nasceu a companhia.

Breno, inclusive, dirige e atua numa das peças escolhidas para celebrar o 13º aniversário da trupe. Em “Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos”, que faz uma curta temporada gratuita no Castelinho do Flamengo entre 07 e 29/10, ele sobe ao palco ao lado de Hugo Souza e do ator convidado – o que é praxe no grupo – Leonardo Hinckel. Com texto do inglês Tom Stoppard, o trio se reveza em diferentes personagens para mostrar o ponto de vista de Rosencrantz e Guildenstern, dois coadjuvantes de um dos maiores clássicos de William Shakespeare (1564-1616): “Hamlet”.

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Breno Sanches é um dos fundadores da companhia Foto: Divulgação

Já no monólogo “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”, Roberto Rodrigues interpreta um texto adaptado por ele mesmo do original do mexicano Juan Pablo Villalobos. A trama retrata uma família pobre, de favela, às vésperas de perder sua moradia devido à construção de um grande prédio na região. A má notícia desperta uma reação distinta em cada um, inclusive em Orestes, um dos filhos. Ora um adolescente entediado, ora um adulto raivoso, ele divide com o público a visão que tem sobre a luta de classes e a irrelevância de famílias como a sua para o mundo. A peça estreia nessa terça-feira (04/10) no Teatro Municipal Serrador.

Na entrevista abaixo, Breno Sanchez fala um pouco mais sobre o processo de criação destes espetáculos e, claro, os 13 anos de estrada do grupo.

Que balanço vocês fazem desses 13 anos da Cia. Teatral Milongas?
É um balanço bom. Nunca deixamos de trabalhar, temos uma história de coisas que vivemos juntos, de processos, viagens e tudo mais. Foi enriquecedor, pois a companhia nos proporcionou tudo isso. Nós trabalhamos muito tempo fora do Rio, viajávamos muito… Depois passamos a ficar mais conhecidos por aqui quando pegamos a administração do Teatro Ziembinski. E hoje, estamos satisfeitos, mas sempre querendo mais, pensando em novos projetos, novas ideias… Queremos sempre inovar para a companhia não estagnar e desestimular.

A proposta sempre foi ter uma companhia eclética?
Quando começamos, tínhamos mais uma coisa específica de pesquisar cultura popular, mais especificamente ainda a dança popular. Não éramos um grupo de dança, mas isso serviu de material base para desenvolver trabalhos. Durante um tempo, criamos uma linguagem do uso do popular, mas não queríamos ser conhecidos como um grupo de cultura popular. Depois de cinco ou seis anos, começamos a nos abrir muito para pesquisas individuais. Teve gente que se aprofundou em palhaçaria, outro pessoal em pesquisa de rua, outros com teatro infantil… Aí fomos abrindo outras frentes. Somos uma companhia de teatro e suas várias frentes. Estamos abertos a desafios e coisas novas. Como eu disse, se a companhia se limitar, a coisa fica estagnada, as pessoas se desestimulam e acabam saindo. Não queremos nos restringir a nenhuma abertura para podermos ser ecléticos, inclusive individualmente.

"Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos" fica no Castelinho do Flamengo em curta temporada gratuita

“Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos” fica no Castelinho do Flamengo em curta temporada gratuita Foto: Thiago Carlan/Divulgação

Montar uma companhia é a forma mais fácil, ou menos difícil, de se fazer teatro no Brasil? As chances de você estar numa peça são maiores através de uma companhia do que sozinho?
Pela minha experiência, posso dizer que existem casos de sucesso dos dois lados. Mas conheço vários amigos que têm problemas tentando entrar em peças porque leva um tempo até se tornar conhecido. Nossa grande vantagem é que nunca paramos de trabalhar desde que começamos na universidade. Ali, a gente já trabalhava e nunca parou. Sempre com um repertório nosso e com o grupo estável. No nosso caso, sempre foi melhor estar numa companhia. Há as dificuldades de se manter uma companhia. É um casamento praticamente, uma vida de convivência intensa. Mas também facilita e fortalece o currículo. É bom ter uma companhia com histórico para conseguir pautas e editais. Não que a gente não faça outros trabalhos, mas acho que trabalhamos bastante isso de te ruma unidade para o grupo ser mais forte.

Você falou da convivência dentro de uma companhia. Isso chega a ser um ponto negativo?
Não chega a ser negativo. Tem dificuldades, mas é até uma vantagem que é a estabilidade de manter um repertório. Espetáculos que não são de companhia morrem mais rápido. Rendem um tempo, mas logo acabam. A grande vantagem no nosso caso é essa: por exemplo, temos um  espetáculo (“Espelunca”) de cinco anos que ainda vamos levar ao Chile no ano que vem. A convivência, apesar de constante, é boa porque nos conhecemos muito. O que posso dizer negativamente é termos estendido uma fase no início de nos limitarmos a uma possibilidade só. Mas logo depois passamos a ver outras questões e a trazer outros artistas para trabalhar conosco.

E qual é a origem do nome do grupo?
O nome vem lá do início, quando estávamos pesquisando o primeiro espetáculo. Dentro dessa pesquisa, num livro, descobrimos essa palavra “milongas”. É um passo do tango, mas tem uma origem africana que significa mistura, mais no sentido de ervas para feitiço, mas também de música, dos milongueiros, dos trovadores… Resolvemos pegar por essa característica nossa de misturar várias possibilidades nos nossos trabalhos e também pela coisa dos trovadores.

O infantil "Era uma vez, e não era uma vez" foi o primeiro espetáculo da Cia Teatral Milongas

O infantil “Era uma vez, e não era uma vez” foi o primeiro espetáculo da Cia Teatral Milongas Foto: Divulgação

Tem alguma peça do repertório que você goste mais, que tenha marcado mais?
Nessa história de 13 anos, a gente tem um carinho grande por vários. Todos muitos importantes. O primeiro “Era uma vez, e não era uma vez”, a gente ia criar o espetáculo e dele nasceu a companhia. Temos muito carinho por ter criado o grupo a partir dele. No “Casa Verde”, nós ficamos um ano trabalhando, era uma proposta de pesquisa a longo prazo, era uma das montagens de formatura, um processo em dois períodos… Foi um processo muito rico. Tanto que a partir dele, as coisas ficaram mais fáceis porque aprendemos muito. E posso falar também do “La Careta que cae”, que já apresentamos na Colombia e na Venuzela, ganhamos prêmios… É difícil falar de um só.

Para finalizarmos, fale um pouco mais sobre esses dois espetáculos que vocês vão estrear durante a semana. Como nasceram essas montagens?
Dentro dessa abertura que eu comentei, de poder investigar outras coisas, do que cada um está interessado em pesquisar, o Roberto descobriu o Juan Pablo e ficou encantado. O livro fazia parte de uma trilogia, ele foi ler os outros e ficou interessado em desenvolver a pesquisa de um monólogo. Entrou em contato com o autor, que estava no Brasil, eles fizeram uma reunião, e o Juan deixou o Roberto à vontade. Foi um processo individual. Os outros integrantes acompanhavam, mas foi um trabalho dele de imersão, com um livro dentro da sala do ensaio. E o espetáculo é isso: o trabalho de um ator. Já o outro, o Hugo estava lendo Shakespeare, me juntei a ele, e passamos um tempo lendo, mas sem ideias. Dentro desse processo, lembrei de um filme da década de 80, adaptado da peça que acaba de completar 50 anos, e também dirigido por Tom Stoppard. Revi o filme e fui atrás do texto. Depois disso, não tivemos mais dúvidas em fazer. É uma obra inspirada em “Hamlet”, mas com linguagem contemporânea, um humor específico, um tipo de espetáculo que permitia pesquisas diferentes. Tem um jogo de investigação, que já vem de “Hamlet”, e também a ideia de os personagens tentarem entender o que acontece com eles. E o título já diz: estão mortos. Mas eles querem entender o que ocorreu. No original, são de 13 a 16 personagens, mas a gente faz só com três investigando o que aconteceu. No nosso processo, todo mundo fez parte, ao contrário do projeto do Roberto.

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