‘Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava’ – O que já era bom pode ficar, ainda, melhor

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

Corria o ano de 2000, quando CHARLES MÖELLER e CLAUDIO BOTELHO estrearam, no extinto Café-Teatro de Arena, no Rio de Janeiro (Rua Siqueira Campos 143), um de seus melhores trabalhos, embora estivessem iniciando a grande carreira de sucessos que, hoje, conhecemos. O espetáculo era “COLE PORTER – ELE NUNCA DISSE QUE ME AMAVA”. A montagem tornou-se um grande marco na carreira da dupla e rendeu, a CLAUDIO, o Prêmio Governador do Estado, pela direção musical da peça, que ficou em cartaz, com LOTAÇÃO ESGOTADA, por dez meses (BONS TEMPOS AQUELES!!!), e teve uma longa e gloriosa carreira, em outros teatros cariocas, incluindo temporada em São Paulo (Teatro Teatro Alfa Real, atual Teatro Alfa; Theatro Maksoud Plaza e Teatro Antônio Fagundes ) e em Portugal (Cassino Estoril), por mais dois anosForam todas temporadas longuíssimas e de pleno sucesso de público e de crítica, num total de quatro anos. A montagem brasileira foi considerada o primeiro divisor de águas na carreira da dupla M&B. E foi o momento perfeito para CLAUDIO ter tido a ideia de criar a chancela: UM ESPETÁCULO DE CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO, de grande respeitabilidade, conseguida por meio de muito trabalho e competência.

O espetáculo apresenta a história do grande compositor norte-americano COLE PORTER, falecido em 1964, pela ótica de seis mulheres que fizeram parte da sua vida. A ideia de montar um espetáculo baseado na vida de PORTER surgiu depois que a dupla de brilhantes encenadores assistiu, em novembro de 1999, a uma montagem de “Kiss me Kate”, na Broadway, espetáculo que, quase duas décadas depois, montaram, com grande sucesso, no Brasil. De acordo com a dupla M&B, a peça aqui analisada não pode ser considerada uma revista ou um musical de “book”, mas uma fantasia musical. Para mim, é um deslumbramento musical. E, por que não dizer, também, visual?

No elenco original, algumas das muitas divas do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO: ADA CHASELIOV (infelizmente, agora, brilhando nos palcos celestiais), ALESSANDRA VERNEY, GOTTSHA, INEZ VIANA, IVANA DOMENICO e STELLA MARIA RODRIGUES. Daquele naipe de grandes cantrizes, permaneceram, na atual montagem, em cartaz no Theatro Net Rio, ALESSANDRA VERNEY, GOTTSHA e STELLA MARIA RODRIGUES. Os outros papéis foram preenchidos com outras três talentosas“habitués”dos nossos musicais: MALU RODRIGUES, ANALU PIMENTA e BEL LIMA.

 

SINOPSE

 

musical de CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO, um espetáculo original, apresenta a vida e obra do compositor americano COLE PORTER (1891-1964) pela ótica feminina. Seis atrizes, representado mulheres importantes na vida do artista, narram sua história e revelam a personalidade dúbia e contraditória, bem como o fascínio e o repúdio que PORTER causava.

espetáculo é uma celebração do talento e da genialidade de um dos maiores compositores do mundo. Repleto de picardia, bem típica da personalidade de COLE, a comédia musical extrai este fino humor da extravagância, dos bons e dos maus costumes dos chamados “anos loucos”.

A história é contada sob o ponto de vista das mulheres que o acompanharam e marcaram sua vida. São elas: LINDA PORTER (STELLA MARIA RODRIGUES), esposa de COLE, com quem foi casado muitos anos; KATE PORTER (BEL LIMA), a mãe de COLE, rica e obsessiva, para tornar o filho um astro; ELSA MAXWELL (ANALU PIMENTA), uma famosa colunista de fofocas e amiga indispensável de COLE PORTER, que deu visibilidade ao compositor, dentro da elite; ETHEL MERMAN (GOTTSHA), a primeira grande diva da Broadway e atriz preferida de COLEBESSIE MARBURY (ALESSANDRA VERNEY), a agente do compositor; e, por fim, ANGÉLICA (MALU RODRIGUES)personagem fictícia e misteriosa.

O homenageado não está presente, fisicamente, no palco, mas aparece, em “off”, em gravações na bela voz de CLAUDIO BOTELHO.


Considerado, por muitos, como o maior compositor norte-americano de todos os tempos, COLE (Albert) PORTER, durante seus 73 anos de vida, deixou-nos grandes obras musicais, para o TEATRO, como “Kiss Me Kate” (1948), seu maior sucesso, como também escreveu lindas e inesquecíveis canções para o cinema e para grandes cantores de sua época, como “Night and Day” e “I’ve Got You Under My Skin”, por exemplo, ambas com dezenas de gravações. PORTER conheceu o “glamour” do sucesso e, também, passou por muitos sérios reveses, em sua vida, tendo sofrido demais, fisicamente, com ferimentos e doenças graves, incluindo uma amputação, tendo falecido, de falência renal, após uma cirurgia, e passado seus últimos anos em relativa reclusão, praticamente, no ostracismo. Embora tenha morrido só em 1964a partir de 1958, não escreveu mais uma única canção. Em 1937, sofreu um acidente, ao cair de um cavalo, tendo quebrado as duas pernas e, praticamente, perdeu o movimento delas. Passou por mais de trinta cirurgias, em cerca de vinte anos, e, para o resto de sua vida, padeceu de fortes dores, com osteomielite crônica, culminando com a amputação da perna direita, com ameaças de ter de amputar, também a esquerda. Tornou-se deprimido, alcoólatra, decadente, sem vida social. Fugia da sua dolorosa agonia física no trabalho e continuou criando por um bom tempo, até 1958, como já foi dito.

Iniciou sua carreira, compondo a música e escrevendo a letra de peças teatrais, em 1916. Sua consagração, porém, chegou muito mais tarde, com o musical “Kiss me, Kate”, estreado em Nova York, que foi representado várias vezes. Em 1953, voltou à crista da onda com outro grande sucesso, o musical “Cancan”. Também compôs a música do filme “Alta Sociedade” (1956). Aliás, muitos de seus musicais foram adaptados para o cinema e algumas de suas canções continuam a desfrutar de grande popularidade. Foi muito incentivado pela mãe, Kate Porter, que descobriu nele, ainda criança, o talento que viria a conquistar o mundo, uma precocidade, um “menino-prodígio”. Em sua vasta obra musical, de aprovação quase unânime, percebe-se uma grande dose de melancolia, inquietação e solidão. Por outro lado, não se pode negar que, em suas letras e composições, abundam uma grande sofisticação, uma técnica apurada e um estilo singular, como uma digital do artista. Compôs mais de 800 canções e, pelo menos, uma centena delas foram, são e sempre serão grandes sucessos, internacionalmente falando, conhecidas e cantadas até hoje.

Não resta a menor dúvida de que PORTER foi um homem extremamente carismático, um “bom vivant”, até um determinado momento de sua vida, dono de um exuberante talento musical, genial, porém, também frágil e mentiroso, além de viver fazendo extravagâncias em viagens e festas.

Além de sua mãe, outras mulheres tiveram um papel importantíssimo na sua vida e estão presentes neste espetáculo. Sobre seis delas, falarei adiante.

Para quem, como eu, teve a oportunidade de assistir à primeira montagem do musical (Vi três ou quatro vezes.), o que está, no palco, é um “COLE PORTER…”completamente repaginado, em todos os sentidos, com pequenas alterações no texto, que lhe acrescentaram um certo frescor, e alteração no “set list”, mantida , entretanto, a mesma qualidade do que se viu há quase duas décadas. Para os que estão vendo o espetáculo pela primeira vez, certamente, estes sairão do Theatro com a sensação de flutuar, num espaço preenchido por sons inebriantes, ainda mais entoados pelas vozes da seis magníficas intérpretes.

Os trechos em negrito e itálico foram extraídos do “release”, enviado pela produção (CARLA REIS / TINA SALLES).

“Estamos 20 anos mais maduros, como artistas, e temos, hoje, mais conhecimento da obra de COLE PORTER. Por isso, apesar de uma remontagem, é um novo espetáculo, com a inserção de canções e texto. É uma nova visão, mas mantém o nosso mesmo amor por COLE PORTER.”, revela CLAUDIO BOTELHO.

“Revisitei o texto; afinal, eu tinha 32 anos na época”, comenta CHARLES MÖELLER“Hoje, passados 20 anos, tudo mudou. A discografia de COLE PORTER está inteiramente disponível na Internet, o que não existia naquela época. Além disso, temos, hoje, disponíveis, imagens raras de PORTER, um universo de documentários, entrevistas inteiras; ou seja, muito mais material do que tínhamos há 20 anos.”, completa o diretor, ressaltando que manteve a estrutura do espetáculo, com as mesmas personagens, mas com essa riqueza de dados que a Internet possibilitou.

Foram selecionadas mais de 30 canções que pontuam a trajetória de PORTER, quase todas cantadas no original, em inglês, e algumas ganharam uma excelente versão brasileira, de CLAUDIO BOTELHO, um mestre nesta seara. “Não há uma preocupação cronológica na apresentação dessas canções; elas estão entrelaçadas, a partir do contexto da ação teatral. Além de sucessos, indispensáveis aos fãs do artista, como ‘Night and Day’, ‘So in Love’, ‘I Get a Kick out of You’, ‘Everytime We Say Goodbye’, ‘I´ve Got You Under My Skin’, Love for Sale’ e ‘Let´s Do It’, o público conhecerá algumas composições não tão famosas, praticamente inéditas no território nacional.”. Se o espectador estiver bem atento e conhecer o idioma de PORTER, perceberá a relação que há entre as letras das canções e as cenas que as antecedem ou as sucedem.

“A ideia de montar um espetáculo baseado na vida de COLE PORTER nasceu depois que CHARLES MÖELLER e CLAUDIO BOTELHO assistiram a uma montagem de ‘Kiss me Kate’, na Broadway. ‘Saímos extasiados. Era a primeira vez que víamos um COLE PORTER na Broadway. A primeira vez que o encontrávamos no seu veículo original, o TEATRO. E aquilo nos incendiou de tal forma, que, no restaurante, minutos depois do espetáculo, já falávamos do ‘nosso’ COLE PORTER, aquele que ‘tínhamos’ que fazer no Brasil, o mais urgente possível”, argumentou CHARLES MÖELLER.

Passemos a uma análise criteriosa do espetáculo, começando pelo texto, que não tem outra pretensão, que já é grande, a não ser a de contar passagens e vivências da trajetória pessoal e profissional desse grande gênio musical: COLE PORTER. CHARLES é bastante econômico e preciso nas palavras, caprichando em poucas, porém bem acertadas, pitadas de humor e acidez, quando alguma das seis mulheres se reporta ao personagem central da peça. Em 100 minutos, divididos em dois atos, ele condensa 73 anos de vida, jogando luz em dados, realmente, marcantes da vida e personalidade de PORTER.

O espetáculo não poderia ser dirigido por outra pessoa, que não fosse o próprio CHARLES MÖELLER, o qual, em tom de brincadeira (Sei que posso usar.), como o “dono da bola”, também assina as coreografias. Joga em várias posições. Mas é um “dono da bola” que marca muitos gols; não é um “peladeiro”. É craque!!!. A direção explora a suavidade, a leveza, tudo quanto um espetáculo como este pede. Movimentos suaves das atrizes, assim como seus deslocamentos em cena; um belo trabalho de direção de movimento.

Nome de incomensurável peso, nesta montagem, CLAUDIO BOTELHO é responsável pela versão brasileira e por uma direção musical irretocável, proporcionando-nos o prazer de saborear cada verso ou nota das canções de COLE, nas vozes certas, quanto aos solos, e numa perfeita harmonia, nos duetos e coros.

O elenco é uma legião de anjos canoros, cantrizes da mais alta qualidade, muito bem escaladas para a final de um campeonato mundial de futebol, permanecendo no campo das metáforas e comparações. Não há como destacar um nome, dentre as seis, que encantam, no conjunto ou em seus maravilhosos solos. São todas muito bem inseridas no universo dos musicais, de renome no cenário do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO. Talvez – pode ser que eu esteja equivocado, mas acho que não – a que tenha “menos estrada percorrida”, menos tempo de atuação, menos espetáculos já encenados, seja BEL LIMA, que eu admiro demais, como a todas as outras, e que faz um excelente trabalho, também, de atriz, como, aliás, também, todas as suas cinco colegas de cena, evidentemente.

Alguns comentários sobre cada atriz e sua personagem, começando por STELLA MARIA RODRIGUES. Ela interpreta LINDA PORTER, a esposa de COLE“LINDA foi mais do que uma esposa, tivemos mais que um casamento. Nunca impôs qualquer convenção matrimonial. Tínhamos quartos separado; muitas vezes, casas separadas; mas estávamos sempre juntos, por opção. LINDA era o ser humano que eu gostaria de ter sido!” (COLE PORTER, assumidamente homossexual, ou bissexual, o que, em nada, absolutamente, importa.). Considero essa frase uma das mais belas declarações de amor que já tive a oportunidade de conhecer.“Linda Lee Thomas, depois LINDA PORTER, era filha de um banqueiro e sempre viveu uma vida de luxos. Conheceu COLE PORTER em Paris, em 1918, e, mesmo sendo oito anos mais velha que ele, no ano seguinte, já estavam casados. O casamento não era nada convencional, mas como se dizia, ‘seja o que for que você possa dizer sobre o casamento deles, a relação era amorosa, carinhosa e dedicada’. O casal mantinha uma vida glamourosa, entre casas em Paris, Veneza ou Nova York, festas e cruzeiros pelo mundo. LINDA foi a grande incentivadora da carreira de COLE. A cada estreia de um espetáculo do marido, ela o presenteava com uma carteira de cigarros, com o nome e data da produção. Permaneceram juntos até a morte dela, em 1954, vítima de enfisema pulmonar.”. O trabalho de STELLA é lindo, e sua postura e presença de palco, marcantes. Aliás, estes últimos elogios podem ser estendidos às outras cinco atrizesQue elegância das seis! Como sabem pisar num palco e preencher totalmente seus espaços!

BEL LIMA é KATE PORTER, a compulsiva, obsessiva e super protetora do filho, uma mulher muito rica e um pouco (?) excêntrica, meio “over”, capaz até de falsificar os documentos de COLE, quando criança, para que ele pudesse ser considerado um “menino-prodígio”, a despeito de seu real talento, que ela se encarregava de superlativar. Graças a seu empenho feroz, o filho único foi de Indiana para o mundo.”“Minha mãe era deliciosamente engraçada. Acho que foi a primeira grande atriz histriônica que eu conheci. Mamãe era capaz de coisas inimagináveis…”(COLE PORTER,) BEL, que eu já conhecia de outros espetáculos e pela qual me encantei, ao substituir Adriana Garambone (Que tarefas difícil!), no musical “Pippin”, também de M&B, me encantou, mais ainda, na pele de KATE.

ALESSANDRA VERNEY encarna BESSIE MARBURY, a agente de COLE.“BESSIE era a pessoa certa no lugar mais do que certo: Nova York! Ela era extravagante, irreverente, mas carimbou meu passaporte para o mundo do entretenimento, pra sempre”(COLE PORTER.) “Elisabeth ‘BESSIE’ Marbury foi uma famosa agente e produtora literária e teatral, que tinha clientes do quilate de Oscar Wilde e Bernard Shaw. Seu escritório era um centro de negócios teatrais de Nova York e contribuiu para o desenvolvimento da comédia musical americana. Foi BESSIE quem produziu o primeiro musical de COLE PORTER, ‘See America First’. Ela nunca se casou, mas viveu, por mais de 20 anos, com a decoradora Elsie de Wolfe…”. É sempre um enorme privilégio encontrar VERNEY num palco, principalmente num musical de M&B. Como as demais colegas de cena, ela assimilou todas as características de sua personagem e a compôs de forma brilhante.

Eu nem sei o que dizer de GOTTSHA, uma das veteranas do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO, que, por várias vezes, já vi roubar cenas em que, originalmente, não seria para ela brilhar, tamanho é seu talento. Aqui, ela representa uma das maiores atrizes que a Broadway e o mundo já conheceram: ETHEL MERMAN, falecida em 1984, conhecida por sua voz potente, como a de GOTTSHA, e por suas atuações marcantes, tendo sido considerada, pela crítica e pelo público, “a primeira dama dos musicais”“Ele sempre disse que você é, disparada, a melhor de todas!” (ANGÉLICA.) “Dá para acreditar que ela era uma simples estenógrafa e secretária e, mesmo sem ter tido uma única aula de canto, se tornou a ‘indiscutível primeira-dama da comédia musical norte-americana’? Das décadas de 1930 a 1950, nenhuma temporada da Broadway seria completa, se não apresentasse um musical com a grande ETHEL MERMAN! Nesse período, a estrela, de personalidade impetuosa e humor ácido, era a ‘queridinha’ de compositores, como George Gershwin, Irving Berlin e, claro, Cole Porter. Sua voz estrondosa foi ouvida, pela primeira vez, em um palco da Broadway, em 1930, quando ela colocou o teatro abaixo, interpretando “I Got Rhythm”, no musical, de Gershwin, “Girl Crazy”. Os compositores competiam por ela, sabendo que ela iria acertar cada nota na marca, segurá-la pelo tempo que fosse necessário, e dar-lhe o sombreamento certo. Letristas estavam igualmente certos de que ela tornaria cada sílaba distinta. ‘La Merm’ não tentou analisar sua técnica ou estilo. Quando lhe pediram para explicar seu sucesso, ela disse: ‘Eu apenas me levanto e grito e espero que minha voz se destaque’”. Mesmo com toda a delicadeza e leveza a que já fiz referência, com relação ao sexteto de atrizesGOTTSHA foge, um pouquinho, ao padrão, porque não é fácil esconder ou segurar o tsunâmi que há dentro dela.

O próximo foco vai para ANALU PIMENTAELSA MAXWELL, uma “promoter”, na trama. “ELSA MAXWELL foi minha melhor amiga. Foi por causa dela que eu me tornei uma espécie de celebridade, entre a elite. Ela me tornou, simplesmente, indispensável…”(COLE PORTER.) “ELSA MAXWELL foi uma famosa colunista de fofocas, compositora e, principalmente, a mais badalada anfitriã de seu tempo, conhecida por promover suntuosas festas para a realeza europeia e para figuras da alta sociedade, de COLE e LINDA PORTER a Maria Callas. De Rainier, de Mônaco, a Aristóteles Onassis. ELSA estava em toda parte, de Veneza a Hollywood. Mencione uma celebridade, e ela responderia: ‘Minha amiga mais íntima!’”. Uma mulher sofisticada, de fino gosto, de extrema elegância. É assim que se porta ANALU, neste musical.

“last, but not least”, chegou a vez de MALU RODRIGUES, que interpreta ANGÉLICA (com a grafia correta, em português, pelo seu diferencial, com relação às outras), uma personagem fictícia, misteriosa, enigmática. Considero fantástica a sua criação e, mais ainda, que ela tenha caído no colo de MALU, uma figurinha carimbada, nos musicais com a grife M&BMALU e ANGÉLICA calçam o mesmo número de sapato. Ela faz um ótimo contraponto com as personagens reais. “De todas as mulheres que passaram pela vida dele, era a mim que ele amava.”, diz ela. Na verdade, ele nunca disse que amava nenhuma delas, até por sua orientação sexual. Estou me referindo ao amor pleno, de corpo e alma, porque o que parece é que, a todas, ele amava fraternalmente, um amor puro, de bem-querer, de reconhecimento, de gratidão, de admiração mútua… MALU RODRIGUES já iniciou sua carreira “grande” e custa-nos crer que ela possa crescer mais ainda, entretanto é isso o que vemos, a cada nova produção de que participa. Ouvi-la cantar cura, se não o corpo, com toda certeza, a alma.

Agradou-me muito a opção de ROGÉRIO FALCÃO por um cenário bem “clean”, deixando o palco, praticamente, vazio, livre, para COLE e as mulheres de sua vida, com poucos elementos cênicos (apenas alguns interessantes pequenos móveis de papelão), fazendo descer belos painéis, com pinturas de Tamara de Lempicka, artista polonesa, uma expoente da pintura Art Déco, e aglomerados, também de papelão, com placas encaixadas. O fundo do cenário também se presta a projeções de ótimas imagens de COLE PORTER, quase no final do espetáculo.

Um dos pontos altos do musical, que deixa o público totalmente embevecido (Foram alguns dos maiores comentários que ouvi, no dia da sessão para convidados.) são, sem a menor sombra de dúvida, os figurinos, cridos por MARCELO MARQUES. São deslumbrantes, de emocionar. E o melhor de tudo é que são de um requinte e de uma “riqueza” indescritíveis, tudo fruto do bom gosto e da criatividade do grande artista, que é MARCELO, um “fazedor de milagres”, visto que o orçamento da produção não era dos maiores.

As coreografias, assinadas por MÖELLER, são comedidas, leves, delicadas, totalmente dentro do padrão e da proposta do espetáculo.

MARCELO CASTRO, membro efetivo da “família” M&B, é responsável pelos arranjos musicais, bem como rege o trio de excelentes músicos, do qual faz parte, tocando piano. Os outros são MÁRCIO ROMANO, na bateria e percussão, e OMAR CAVALEIRO, com seu contrabaixoQue trio fantástico, para fazer o “som de COLE PORTER!

MARCELO CLARET garante um som puro, cristalino, assinando o “design” de som, e BETO CARRAMANHOS deixa a sua marca de grande visagista que é. O “physique du rôle” das personagens é belíssimo, graças, em muito, às mãos mágicas de BETO.

“COLE PORTER -…” é um espetáculo para os ouvidos e para os olhos, convergindo para a nossa alma. Para contribuir com a plasticidade do musical, valorizando tudo o que se vê no palco, ajudando a criar diferentes atmosferas, entra em campo PAULO CESAR MEDEIROS, com uma lindíssima e funcional iluminação.

Geralmente, um dos esteios dos espetáculos fica de fora, nas críticas, inclusive nas minhas, porém – antes tarde do que nunca – não se pode achar que toda a beleza e correção do que se vê em cena acontece só por conta dos criadores. Há, por trás de tudo e de todos, como verdadeiros anjos da guarda, com a incumbência de preparar o terreno, para a semeadura, uma equipe de produção, da qual, aqui, destaco os nomes de TINA SALLES (coordenação artística) e CARLA REIS (produção executiva).

Nunca vou conseguir estabelecer um “ranking” sobre os trabalhos de MÖELLER & BOTELHO, simplesmente, porque, para mim, é impossível pôr uma de suas montagens ocupando a primeira colocação de um pódio. Nem sob tortura, eu satisfaria meus “algozes”. Muitos espetáculos da dupla poderiam se acotovelar sobre esse primeiro patamar e, “COLE PORTER -…”, esta atual montagem, certamente, é um deles. É uma das várias OBRAS-PRIMAS assinadas por M&B..

Não é preciso dizer que já vou rever, esta semana, o musical e que o RECOMENDO, SEM PESTANEJAR OU PENSAR DUAS VEZES.

Começamos com o pé direito, em termos de musicais, o ano de 2019. Oxalá surjam tantos outros do quilate deste!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!! 

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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