‘Auto Eus’ tematiza a liberdade fundamental de observar o mundo sem mediações

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

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Em cartaz no Teatro Poeira, “Auto Eus – A Ditadura da Aprovação Social” propõe uma reflexão pessoal a partir da comparação de percepções e experiências com padrões de comportamento e pensamento. A consciência de si nasce, portanto, a partir da relação entre o que é imanente e o que é sugerido ou imposto pelo meio.

Adriana Perin, atriz/personagem e coautora (ao lado de Raíssa Venâncio, que também assina a direção, e Paula Vilela) do espetáculo/performance, narra diversas passagens de sua vida, entre elas um casamento e um período junto ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). A peça se divide em duas metades, de certo modo: na primeira, a personagem contrapõe suas experiências com expectativas da sociedade, colocando-se como um ponto de confluência; é quando narra sua juventude, que culmina no fim do casamento, um marco de virada. Um aspecto muito interessante desta primeira parte do espetáculo é sua capacidade de descrever e comentar, por meio de apartes com a plateia; é muito dinâmica, e de comicidade particular da atriz, em seu processo rápido e leve de viver / se dar conta do que viveu / refletir com o público, fazendo piada consigo mesma e com a maneira como lidou com o imaginário social.

A segunda metade compreende uma jornada mais linear, mais profunda, de autoconhecimento e escolha de um caminho. É quando a personagem se vê diante de realidades muito diferentes da sua até então, quando ingressa, por exemplo, em um projeto social de cinema no sertão e se torna professora de crianças com inúmeras privações. Do ponto de vista cênico, é uma parcela do espetáculo menos dinâmica; o jogo entre narração e apartes, assim como a comicidade ligeira da atriz, dão lugar a uma atmosfera mais pesada, que é acompanhada inclusive pela iluminação mais escura (se comparada à primeira metade) de Renato Machado.

O cenário de Constanza de Córdova e Fernanda Mansur caracteriza-se pelo espaço vazio, exceto uma parede ao fundo do palco que recebe projeções, e pela proeminência de objetos variados. Ou seja, tudo de modo que Adriana Perin torne-se ainda mais senhora da cena, o que ela é, sem dúvida alguma, mesmo quando a narrativa muda seu foco do conflito interno para o retrato de uma realidade específica.

Em suma, em meio à infinidade de questões que a peça suscita, talvez a mais elementar seja a nossa capacidade de sermos senhores de nós mesmos, não apenas na prática, nas decisões tomadas, mas na reflexão e interpretação do mundo. Vale conferir!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvida, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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