Atriz e sócia fala sobre abrir espaço cultural em tempos de crise e confia em vida longa: ‘Somos obstinados’

Luiz Maurício Monteiro

Ana Gawry (D),Felipe Vasconcelos e Beatriz Castier são os sócios que abriram um novo espaço cultural no Rio

A crise que tem fechado e ameaçado equipamentos culturais e estabelecimentos comerciais Rio de Janeiro afora ao longo dos últimos anos é a mesma que não intimidou um trio de artistas a remar na direção contrária. Integrantes do Grupo Tábula Rasa, as atrizes Ana Gawry e Beatriz Castier e o diretor Felipe Vasconcelos uniram esforços e recursos próprios – já que a empreitada não contou com qualquer patrocínio – para tirar do papel um projeto que nasceu há mais de dois anos: o Espaço Abu, sala de 100m² localizada no número 249 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, que a partir de sexta-feira (19) será o mais novo palco do maltratado circuito teatral da capital fluminense.

Nesta data, estreia o espetáculo “Chuva”, uma realização do próprio Tábula Rasa, que dividido em cinco cenas independentes, cada uma inspirada num conto do escritor mineiro Luiz Vilela, aborda temas relacionados ao isolamento humano, como medo, ódio e falta de comunicação.

A expectativa é que a nova temporada do drama – a estreia ocorreu em 2016 – marque o início de uma programação variada e intensa da sala multiuso, que tem capacidade para 40 pessoas e foi idealizada pelo cenógrafo José Dias para receber ainda montagens de outras companhias, além de diferentes manifestações artísticas, como literatura, cinema, fotografia e música.

Entretanto, os sócios têm ciência de que a crise (sempre ela!) pode mudar os rumos pensados para o espaço, cuja obra para transformar um salão de beleza em equipamento cultural custou mais de R$ 700 mil – fora o aluguel que é pago mensalmente à família de Beatriz, que é proprietária do imóvel.

—  Como o espaço foi concebido inicialmente para ser nossa sede, o que pode acontecer é ele ficar apenas para uso interno, não tão aberto ao público, oferecendo várias atividades. Mas a ideia é, sim, seguir. Somos otimistas, obstinados e vamos até o fim. Não temos a visão de querer desistir, porque perseverança é nossa marca (risos) – brinca Ana Gawry, em entrevista ao RIO ENCENA.

Sem qualquer patrocínio, o trio desembolsou mais de R$ 700 mil para reformar o móvel de 100m²

No bate-papo, Ana, que além de atuar também assina a produção de “Chuva”, garante que está praticamente tudo pronto para a inauguração – cerca de 99,9%, garante ela. O caminho até este percentual, porém foi árduo, como recorda. O período de obras, por exemplo, foi prometido para quatro meses, mas acabou passando de dois anos.

Com direito a desistência do engenheiro principal no meio da reforma, ela relembra que chegar à infraestrutura considerada ideal da sala multiuso e do foyer – única extensão do espaço, que não possui café ou lanchonete – foi a missão mais complicada, principalmente devido à localização do imóvel, numa movimentada avenida da Zona Sul. Os ruídos internos, aliás, têm a ver com o nome dado ao espaço. Em Tupi, Abu significa silencioso, que remete tanto à proposta estética do grupo, quanto ao cuidado com o isolamento acústico da casa.

— As dificuldades foram mais na parte de infraestrutura, do espaço, com bombeiros… A acústica também foi uma questão porque a avenida é movimentada. Então as dificuldades foram mais ligadas à parte estrutural do espaço — ratifica Ana, contando muito mais sobre o espaço na entrevista abaixo:

Em que momento vocês decidiram abrir um espaço cultural no Rio mesmo com esses tempos de crise?
A definição saiu há dois anos e meio, com a crise já surgindo. Já havia uma falta de recursos e editais para a cultura. Mas mesmo assim, como tínhamos um orçamento próprio, decidimos seguir em frente, arriscar… Ainda não sabemos se será viável daqui para frente, mas esperamos que sim. A proposta é fazer do Abu a sede do nosso grupo, um lugar permanente para nós, mas também queremos receber outros projetos, não só os nossos. Certamente, é um investimento alto, é um desafio, mas quem tem condição de investir, tem que investir.

Você disse que ainda não sabem se o espaço como sala de espetáculos será viável daqui em diante. Mas a ideia é ter vida longa, certo?
Como o espaço foi concebido inicialmente para ser nossa sede, o que pode acontecer é ele ficar apenas para uso interno, não tão aberto ao público, oferecendo várias atividades. Mas a ideia é, sim, seguir. Somos otimistas, obstinados e vamos até o fim. Não temos a visão de querer desistir, porque perseverança é nossa marca (risos). Temos um espaço de qualidade, intimista, achamos que vai existir a demanda de peças para se apresentarem, mas não sabemos como vai ser situação da cidade. Se vai aumentar a violência, se as pessoas vão sair menos de casa… Além disso, é importante o auxílio da classe para manter o espaço vivo. É um momento de colaboração entre a classe artística, com as pessoas que movimentam as salas culturais e os artistas prestigiando uns aos outros. Isto é fundamental, porque se não firmarmos parcerias, a coisa acaba não indo pra frente. Mas imaginamos que o espaço terá vida longa, sim.

Qual foi o maior desafio que vocês encontraram desde o dia em que decidiram tirar o projeto do papel até às vésperas da inauguração?
Nunca pensamos em desistir, porque temos sempre esta visão de ir em frente, como eu disse. Mas as dificuldades foram mais na parte de infraestrutura, do espaço, com bombeiros… A acústica também foi uma questão porque a avenida é movimentada. Então as dificuldades foram mais ligadas à parte estrutural do espaço. Tivemos também lentidão na obra, problemas com técnicos, o abandono do engenheiro principal (risos). A primeira previsão para terminar as obras era de quatro meses, mas durou dois anos. Mas nunca pensamos em desistir. E a indústria cultural nunca foi um ponto de preocupação também.

A sala multiuso foi projetada para receber diferentes eventos artísticos Fotos: Divulgação

Acredita que esse modelo de espaço pequeno e intimista pode se tornar uma tendência no Rio para a classe artística criar equipamentos culturais menores, onde possam se apresentar com custos mais baixos para manutenção?
Não acho que será uma tendência no nível do Abu, que tem toda uma infraestrutura de iluminação, som e acústica. Nossa busca por espaços menores foi por uma proposta estética, mas que tivesse qualidade. Vemos espaços pequenos, mas sem uma boa acústica… Pode ser que o público tope, mas não creio que aumente o número de equipamentos assim. Só se, talvez, empresários olharem mais para o mercado no Rio, como já acontece em São Paulo. E quanto ao investimento, apesar de ser um lugar pequeno, é caro. É um investimento alto para três sócios apenas.

Vocês pretendem definir um perfil de programação, dar preferência a um determinado perfil de espetáculos?
O perfil que procuramos mais é o perfil do artista que se preocupa com a arte, mas também com o público. Que não faz arte só para si, mas para o outro também. Em relação a estilo, a tendência é que receba mais peças com quatro ou cinco atores, sem muito cenário. Que não seja algo grande, até porque o espaço não vai suportar. A preocupação é com o que está sendo oferecido ao público. Já estamos recebendo pautas de diferentes tipos, diferentes projetos, como pequenos musicais. O quê mostra que a carência é grande porque nem visitaram espaço ainda, mas já estão pedindo pauta.

A capacidade da sala é para 40 espectadores

Sobre o espetáculo “Chuva”, são contos que falam de temas que podem causar identificação em qualquer espectador…
Sim. Tem gente que fala “nossa! Me identifique com personagem tal”. Ou então “personagem tal é igual a fulano”. Às vezes, a pessoa não se enxerga ali na peça, mas enxerga o outro (risos). É a crise diária das nossas angústias, do relacionamento com o outro…

Tem algum desses contos que você destaque, por algum motivo especial?
Todos são fantásticos, a seleção foi feita a partir da leitura de toda a obra do Vilela. Mas o conto que dá nome ao espetáculo fala muito da situação atual que a gente vive. O personagem está em casa num sábado, com várias propostas de programa para sair. Mas ele não sabe se sai, porque quando volta se sente só. Ele se questiona: “será que vale a pena sair?”; “será que sou mais feliz sozinho?”; “eu tenho a necessidade do outro?”. E todo este diálogo é feito com um cachorro, o que também toca num ponto que vemos muito, que é a nossa aproximação com os animais, o afeto maior que muitas vezes temos mais por eles, do que pelo próprio parceiro, pelo outro…

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