Artistas de 15 grupos se unem para promover mostras coletivas, plataforma digital e luta ‘contra o desmonte’

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Mais de 60 pessoas se engajaram na produção da mostra Fotos: Patrick Lima/Divulgação

Diante de um cenário atual desfavorável para a cultura no Rio de Janeiro, principalmente para o teatro que vem sofrendo com pouco investimento público e privado, além de uma frequência de público preocupante, um populoso grupos de artistas decidiu unir forças. Trata-se da Frente Teatro, que reúne integrantes de 15 companhias teatrais da região metropolitana do Rio de Janeiro que desde o início do ano vem pensando em soluções e estratégias de fomento, produção e relação com o público. E o primeiro passo concreto foi dado no último fim de semana: uma mostra realizada em Paracambi.

Entre espetáculos, oficinas, debates e outras atividades, o evento gratuito reuniu na Casa Uivo cerca de 400 visitantes e dezenas de artistas dos seguintes coletivos:  Brecha, Ceta (Centro Experimental de Teatro e Artes), Complexo Duplo, Dragão Voador, Foguetes Maravilha, Grupo Código, Miúda, Peneira, Probástica Cia. de Teatro, Cia. Teatral Queimados Encena, Teatro de Extremos, Teatro Inominável, Teatro Voador Não Identificado, Transarte e Uivo Coletivo.

Em conversa com o RIO ENCENA, Stella Rabelo, da Foguetes Maravilha, fez um balanço super positivo da mostra em Paracambi e a classificou como uma primeira demonstração do movimento contra o que chamam de desmonte por parte das esferas públicas.

— Esse movimento vem propor novos meios de produção, contra o desmonte. E o desmonte é feito pelas instituições oficiais. Mas vamos tentar brechas, as coisas que estejam disponíveis — pondera Stella, ressaltando que a Frente não descarta nenhuma possibilidade a fim de fortalecer o teatro não apenas na capital fluminense, mas em todo o estado.

Passado o evento, a ideia é seguir unindo forças – quem tiver interesse em participar, pode procurar Frente Teatro RJ no Instagram e no Facebook ou enviar e-mail para frenteteatrorj@gmail.com – promover futuros eventos e também uma plataforma digital, um site que reuniria material de todos os grupos participantes. Confira abaixo a entrevista completa com Stella falando mais sobre o movimento e outras fotos no fim da página:

Stella (de roxo) com Julia Bernat (E), Luiza Bertrami, Luiz Ribeiro, Larissa Siqueira, Elsa Romero e Lia Maia

O que motivou uma quantidade tão grande de grupos a se unirem?
O movimento surgiu de uma ideia simples e bonita do Leandro Romano, que era diretor e ator da Cia Teatro Voador Não Identificado, que veio a falecer há pouco tempo (12/07/19). No fim do ano passado, ele teve a ideia de juntar coletivos, cias, grupos para unir forças mesmo, frente ao desmonte que vivemos hoje. Cada um com seu método, sua linguagem… E assim, ele tinha a ideia de criar uma plataforma virtual para juntar nossos capitais, no caso, nosso trabalho. No início, tivemos poucas pessoas, então sentimos a necessidade de expandir, descentralizar, abrir para cias. de gente preta, trans, periférica… E aí foi ficando só quem realmente queria estar ali. E aí na primeira vez fizemos uma reunião fora do Rio, em Paracambi. Foi tudo numa forma horizontal, com muito debate. E foi muito bonito, porque os grupos se admiram, se gostam, mas botar a mão na massa é sempre mais difícil. E para mostrarem os trabalhos uns aos outros, surgiu a ideia da mostra. A partir desse ponto, há cerca de quatro meses, as necessidades de realização foram chegando para nós. A gente considera que teatro já é espaço onde as cosias são feitas coletivamente, mesmo que seja monólogo. Então, foi maravilhoso ter juntado métodos de vários coletivos diferentes num guarda-chuva maior, onde cada um pode trazer o seu capital.

Mas como funcionaria essa plataforma?
De inicio, dois caminhos se apresentaram: o “físico” e o “virtual”. Ocupar juntos esses dois espaços era o que precisávamos fazer. O virtual, seria a estruturação de uma plataforma, onde se “organizasse” a produção, de todas cias. num único lugar, onde se daria o encontro dos “documentos” já produzidos e em produção, de cada coletivo que se juntasse à Frente Teatro. Uma forma de arquivar, contar e seguir contando as histórias de cada grupo. Num primeiro momento, o que vamos fazer é construir um site único que reúna – e siga sendo alimentado – materiais diversos, como imagens, textos, programas, artigos, oficinas e agendas. Tudo o que já foi produzido ou esteja em produção, dos grupos envolvidos. Onde se possa reconhecer o movimento como o encontro e a articulação dos vários e diversos coletivos. Compartilhar entre nós e com o público, nossos trabalhos, marcando que, não só estamos e estivemos produzindo, como, a partir de agora, estamos juntos, fazendo juntos.

Você disse há pouco que muita gente botar a mão na massa junta é mais difícil. Acha a classe desunida?
Acho e não acho. É desunida porque nosso metiê é hostil para cultura, tão pouco apoiado, então todo mundo quer correr atrás do seu. Como não ser desunido? A união, na prática, envolve complexidade de como fazer, autogestão.. É uma utopia maravilhosa, mas difícil. A classe vive uma realidade onde tudo é feito para a união ser na admiração, mas não na prática. Então não diria desunida, mas também não é unida. Desunião é uma coisa mais pejorativa. O desejo de estar junto é maior que desunião. Mas é isso: o caminho o árduo, mas estamos provando com nossa frente que essa é uma das formas.

E que balanço você faz da mostra em Paracambi?
Foi um deslumbre no bom sentido. Mais de 60 pessoas na produção, engajamos a cidade, a prefeitura ajudou com pedreiros para finalizar as obras do palco, que foi montado ao ar livre. Tivemos ajuda de empresas também… Foi tudo na base do apoio, porque tivemos pouco mais de R$ 800 para produzir tudo isso. O dono do carro de som cobrou metade do preço, a comida foi feita por uma vizinha, que vendeu comida para o público e para nós. Ela, inclusive, nunca tinha ido ao teatro. Foi uma coisa linda, que a gente quer continuar fazendo. Inclusive aqui no Rio, fazer esse bate-volta, sempre descentralizando. O evento foi lindo, e precisamos criar meios de não parar. Porque tudo o que está ocorrendo atualmente é para nos fazer parar. Sobre o público, tivemos bastante gente, as pessoas ficaram até 11 e meia da noite, meia-noite… Foram 10 horas de trabalho, muita gente da cidade que nunca tinha ido ao teatro e, surpreendentemente, muita gente que foi de outras cidades, acampando… De público foram cerca de 400 pessoas. O evento superou nossas expectativas, foi um êxito gigante. Estamos cheios de esperança para continuar esse caminho.

Já há previsão de uma próxima edição? Pretendem atuar em toda a região metropolitana?
A ideia é ir aonde der. Mas tem a falta de espaço, teatros fecham, muitas cidades nem têm esse espaço, e muitas cias. também não têm sede. Para fazer um movimento assim, vamos precisar de um espaço, com alguma estrutura. A gente vai correr atrás. É cansativo, mas o desejo é fazer, no mínimo, uma vez por ano. Mas talvez consigamos mais rápido, porque o êxito foi, realmente, grande.

Você mencionou a ajuda da prefeitura de Paracambi. Pensam em firmar alianças com governos?
Acho que a gente pensa. Em Paracambi, a gente levou a ideia à prefeitura, e eles se engajaram como foi possível. Mas esse movimento vem propor novos meios de produção, contra o desmonte. E o desmonte é feito pelas instituições oficiais Mas vamos tentar brechas, as coisas que estejam disponíveis. Se puder se encaixar, vamos tentar, não temos rejeição a qualquer apoio.

Reunião entre os artistas antes do início do evento

Roda de cânticos ancestrais com o Grupo Ceta

O público aguarda mais uma atração da mostra

Apresentação de “Lima Entre Nós”

Apresentação de “Delírio aos 30”

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