‘Antígona’ – Um ótimo pretexto para um grande trabalho de atriz e uma inesquecível montagem

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

* Vou sempre ao TEATRO com a intenção de gostar e de sair do espetáculo mais enriquecido, em todos os sentidos. Também devo confessar que acho uma grande temeridade e uma prova de imensa coragem, até de muita ousadia, adaptar um clássico da dramaturgia universal, seja lá de que forma for, de quem e por quem for.

Fui ao Teatro Poeira, num domingo, muito curioso e cético, tentando imaginar o que AMIR HADDAD e ANDRÉA BELTRÃO, dois “louquinhos”, no sentido mais carinhoso do adjetivo, haviam aprontado, para contar a história de “ANTÍGONA”, um dos maiores clássicos da tragédia grega, escrita por SÓFOCLES, em torno do ano 441 ou 442 a.C. (há controvérsias), numa versão “pocket”, em forma de um monólogo.

Havia, recentemente, assistido, pela quinta vez, ao musical “Gota D’Água [A Seco]”, uma obra-prima, de Rafael Gomes, sobre outra, de Paulo Pontes e Chico Buarque, os quais recontaram o mito de “Medeia”, numa versão urbana, dos nossos dias. Rafael, na sua adaptação, não pôs, fisicamente, no palco, todos os personagens da tragédia, mas os manteve na história, sem alterar, absolutamente, nada do original, utilizando, apenas, dois personagens, Joana e Jasão, para contar a saga de Medeia.

A proposta de Amir e Andréa era mais audaciosa ainda, pois apenas uma atriz, em cena, deveria conduzir todo o fio do enredo de “ANTÍGONA” sem, obviamente, descaracterizar o texto original, também não omitindo a participação dos demais personagens. E não é que o conseguiram?! E como!!!

E o que eu vi no palco, em “apenas” 60 minutos? Resposta muito simples: um dos melhores espetáculos da safra de 2016, visto que estreou em novembro daquele ano (Agora, é uma remontagem.), uma concepção teatral rica em elementos dramatúrgicos, plásticos e de uma admirável visão histórico-social, capaz de manter o espectador ligado à atriz, sem conseguir dar uma piscada, do início ao fim da peça.

Tudo é de uma intensidade, capaz de atingir as profundezas de cada pessoa presente, naquele pequeno e intimista espaço do Poeira.

Por mais interessado em mitologia grega, sempre senti certa resistência, quando se tratava de ler sobre seus mitos, pela grande quantidade de personagens, pela complexidade dos nomes e por tantas ligações entre eles. Ficava um pouco “perdido”. Pois não é que esta montagem de “ANTÍGONA” é de um caráter didático a toda prova?! Graças, sim, à própria estrutura do texto, que abre espaço para que a atriz vá mostrando, sem atropelos e de forma muito clara, as relações e ligações entre os personagens, tudo ilustrado, de forma brilhante, por uma espécie de “árvore genealógica”, fixada na parede de fundo do espaço cênico, estabelecendo os laços de aproximação dos personagens, com a utilização de fitas adesivas, de cores diferentes, para destacar quem era filho de quem, casado com quem, irmão de quem, rei de onde… Sem isso, creio que não seria conseguida a necessária atenção do público nem tanto interesse pela narrativa cênica.

E, para que não paire nenhuma dúvida, para o público, sobre o caráter didático a que me referi, ANDRÉA, ainda a atriz, não a protagonista, como numa espécie de prólogo, remete o texto original à história de Édipo, de quem MEDEIA era filha, fruto de um incesto, contando, na íntegra, a sua origem e como e por que voltou a Tebas, onde se passa a sua história, ela que, de lá, havia fugido.

 

SINOPSE

 

ANTÍGONA é irmã de IsmêniaPolinice e Etéocles, todos filhos do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta, sua mãe, como parte do cumprimento de um oráculo.

Há mais de uma versão da tragédia, mas a clássica foi escrita pelo dramaturgo grego SÓFOCLES, um dos mais importantes de todos os tempos.

protagonista é um exemplo de amor fraternal e, também, de transgressão e desobediência civil, além de ter sido a única filha que não abandonou Édipo, quando este foi expulso de seu reino, Tebas, pelos seus dois filhos homens.

Polinice tentou convencê-la a não partir do reino, enquanto Etéocles ficou indiferente com relação à sua partida.

ANTÍGONA acompanhou o pai, em seu exílio, até sua morte. Quando voltou a Tebas, seus irmãos brigavam pelo trono.

Polinice arma um ataque contra Tebas. Como a guerra não levou a lugar nenhum, os dois irmãos decidem disputar o trono num combate singular, no qual ambos morrem.

Creonte, tio deles, herda o trono, manda erguer uma sepultura, com todas as honras, para Etéocles e deixa Polinice, a quem atribuía a pecha de traidor, onde tombou, morto, para que o cadáver ficasse exposto à putrefação e à dilaceração, servindo de alimento para as aves de rapina e os cães famintos, proibindo qualquer um de enterrá-lo, sob pena de morte. Creonte entendia que isso serviria de exemplo para todos os que pretendessem se insurgir contra o governo de Tebas.

Ao saber da cruel decisão do tio, ANTÍGONA deixa claro que não permitirá que o corpo do irmão fique insepulto, sem os ritos sagrados, mesmo que tenha que pagar com a própria vida, por tal atitude corajosa. Mostra-se insubmissa às leis humanas, “por estarem indo de encontro às leis divinas”.

Indignada, tenta convencer o novo rei a enterrá-lo, pois “quem morresse, sem os rituais fúnebres, seria condenado a vagar cem anos, nas margens do rio que levava ao mundo dos mortos, sem poder ir para o outro lado”.

Não se conformando com a negativa do tio, ela rouba o cadáver de Polinice, que estava sendo vigiado, e tenta enterrar o irmão com as próprias mãos, mas é presa enquanto o fazia.

Creonte manda que ela seja enterrada viva. Sua irmã, Ismênia, tenta defendê-la e se oferece para morrer em seu lugar, o que não é aceito por ANTÍGONA, e Hémon, seu noivo e filho de Creonte, não conseguindo salvá-la, comete suicídio.

ANTÍGONA pagou muito caro, com a própria vida, por não aceitar a submissão à tirania e por pensar que as leis dos deuses são mais antigas e superiores às dos mortais, uma luta entre a fé nos deuses contra a razão insana do opressor tirânico.


ANDRÉA BELTRÃO, do alto dos seus cinquenta e poucos anos e completando quarenta, de profissão, está exuberante, em cena, em plena forma física, tão necessária para aguentar o “tranco” da montagem, que dura 60 minutos, cravados. Creio que, se passasse mais um, nem com todo o seu preparo físico, ela tombaria, desfalecida, tal é seu desgaste físico e emocional. ANTÍGONA suga as suas energias, porque a atriz se entrega totalmente à personagem, para o nosso deleite.

O trabalho de preparação corporal, creio que formado em academia ou com o auxílio de algum profissional particular, é mais que necessário, para que ela possa dar conta de toda a movimentação, em cena, trabalho fantástico, de MARINA SALOMON, que assina a brilhante direção de movimento ANDRÉA intercala gestos tipicamente teatrais com bastantes movimentos e posições de artes marciais, como uma grande guerreira / atleta.

O trabalho da atriz e a excelente direção, de AMIR HADDAD fazem com que o espetáculo se torne muito comunicativo e, em consequência disso, bastante popular, no sentido exato da palavra, de “para o povo” (άνθρωποι, em grego; populo, em latim), visto que, apesar da complexidade aparente dos clássicos gregos, não podemos nos esquecer de que o povo comparecia aos anfiteatros, nos festivais organizados, nesse sentido, e entendia tudo o que lhe era contado, uma vez que todos os personagens e elementos cênicos lhe eram familiares. AMIR e ANDRÉA resgataram isso para nós, transformaram os anfiteatros gregos nas nossas salas de estar, criando uma intimidade entre palco e plateia, a começar pela excelente ideia de manter (de propósito, é claro), durante boa parte do espetáculo, a porta do camarim aberta, deixando à mostra seus mistérios e intimidades, para quem nunca entrou num, inclusive com as luzes acesas, vazando para o espaço cênico. Parece que estamos em nossas próprias casas, e não visitando alguém, em seu espaço particular, privado, sem falar no total despojamento da atriz, que vai ao encontro do público, recebendo-o, à porta de entrada do salão, e cumprimentando a todos. No dia em que assisti à peça, AMIR a acompanhou nesse “ritual”; não sei se o faz todos os dias.

No início, antes de a porta do camarim se fechar, não parece TEATRO, e sim uma palestra, ainda que meio informal, até com algumas pinceladas leves de humor, didática por excelência. Muito bom isso!!! Depois, o texto, de SÓFOCLEStraduzido por MILLÔR FERNANDES e adaptado por ANDRÉA e AMIR, os quais, inclusive, contribuíram com ótimas inserções dramatúrgicas, vai sendo desenrolado.

ANDRÉA, além de narradora, interpreta a protagonista, mas, também, reserva momentos, de ótimos resultados, para dar vida a IsmêniaCreonteTirésiasHémongente do Coro

Nas palavras de AMIR HADDADANTÍGONA, simplesmente, “reivindica o amor, o respeito aos antepassados e a tudo o que vem antes e nos compõe. SÓFOCLES diz que nenhum governo ou poder pode ignorar o ser humano e a sua história e privilegiar a ordem púbica da cidade”. Só por isso, podemos dizer que o texto é mais do que atemporal e muito característico dos nossos dias, infelizmente, ainda mais em tempos em que governos, a grande maioria formada por corruptos e déspotas, não respeitam os anseios e os direitos do povo, e as mulheres continuam na luta por marcar território, num mundo misógino, que insiste em ignorar a sua força, inteligência e direito à igualdade. Desafiam, com ANTÍGONA. Demonstram sua força e são guerreiras e justas, como ANTÍGONA.

Por oportuno, devo transcrever o que, no programa da peça, AMIR HADDAD diz sobre o espetáculo: “Cada vez que um diretor monta uma peça, ele estará reescrevendo, da melhor maneira possível, a peça que aquele autor escreveu. No caso de uma obra-prima, como ‘ANTÍGONA’, trata-se de uma viagem vertiginosa até a raiz do mito e, de lá, uma volta palpitante até a peça e seu autor. É isto que estamos fazendo com SÓFOCLES e sua ‘ANTÍGONA’. Reescrever SÓFOCLES. Reescrever ‘ANTÍGONA’. Da peça ao mito. Do mito à peça. Num eterno retorno.”

Se quiséssemos resumir a ação da protagonista, na trama, poderíamos dizer que ela patrocina um “duelo”, baseado no conflito entre as leis divinas e as leis dos homens, além de pôr em evidência um dos sentimentos mais lindos, que é o amor fraternal, de que tanto carecemos, nos dias de hoje.

Dentro da proposta do espetáculo, o cenário, com perdão dos cenógrafos, que haverão de entender o que estou querendo dizer, seria “dispensável”, entretanto há a utilização de alguns elementos cênicos – os fixados nas paredes – de extrema necessidade, para a compreensão da narrativa, como já tive a oportunidade de dizer. Além da “arvore genealógica”, ao fundo, há, numa das paredes laterais, um desenho, mapa, da Grécia, com realce, para os nomes das cidades de Atenas e Tebas; na outra, oposta, um pequeno planisfério, desenhado a giz, como o anteriormente citado. Além disso, apenas uma cadeira e uma mesa, sobre a qual ficam alguns elementos utilizados durante a peça, como um par de sapatos de salto agulha e uma “écharpe” vinho, quase uma “personagem”, nesta montagem. Há, ainda, um pequeno amplificador, operado pela própria atriz, quando precisa, em algumas cenas, fazer uso de um microfone, que distorce, completa e intencionalmente, a sua voz.

A propósito, é fascinante a “brincadeira” que ANDRÉA faz com essa peça do vestuário, a “écharpe”, transformando-a em vários objetos, contando com a imaginação do espectador, tanto para compor figurinos como para ajudar na criação de cenas, como um enforcamento, por exemplo.

Já que falei na famosa, e necessária, “écharpe”, devo dizer que me agradou o figurino, de ANTÔNIO MEDEIROS e GUILHERME KATO, os quais não se preocuparam com detalhes dos trajes de época e criaram uma roupa totalmente à vontade, para os movimentos da atriz e para situar a personagem, atemporalmente, na história.

Tenho tido vivências de encantamento, nos últimos tempos, pelo trabalho de iluminação. Passei a enxergar esse elemento com mais interesse e venho observando projetos brilhantes, dos nossos mestres da iluminação, já há algum tempo. Neste espetáculo, não há grandes recursos nesse campo; ou melhor, há, de uma simplicidade franciscana. Parece-me que houve uma preocupação, do grande AURÉLIO DE SIMONI, em não tirar o brilho da estrela, já que ela tem luz própria. Explicando melhor: talvez, como mais um elemento de integração entre o espaço cênico e plateia, entre atriz e público, AURÉLIO optou por uma luz perene, praticamente “de salão”, do início ao fim da peça, mais intensa, antes do início, propriamente dito, da história. Por mais paradoxal que possa parecer, uma bela luz, porque a “ausência” também tem seus ganhos.

E por falar em “ganhos”, algumas cenas recebem um “up”, graças à boa trilha sonora, de ALESSANDRO PERSAN.

É preciso dizer que esta “ANTÍGONA” é para ser vista mais de uma vez, motivo pelo qual recomendo muito o espetáculo.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

* Esta crítica foi adaptada de outra, que escrevi, quando da primeira temporada da peça, em janeiro de 2017

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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