André Felipe lembra papo com detenta que o inspirou em texto sobre violência contra mulher: ‘Ficou forte na cabeça’

Luiz Maurício Monteiro

As personagens de Nina Frosi (por baixo) e Amanda Mirásci matam e enterram o próprio pai

Um espetáculo que reflete sobre a origem da violência contra a mulher batizado “Mansa”” parece contraditório. E a ideia é exatamente esta! De volta ao cartaz nessa terça-feira (06), às 21h, no Poeirinha, espaço do Teatro Poeira, em Botafogo, o drama carrega no título um vocábulo que remete a figura feminina de temperamento dócil, mas ao mesmo tempo provoca sugerindo uma linha tênue entre mansidão e selvageria representada nas figuras das protagonistas, como explica o autor André Felipe.

— Mansa nos remete a mundo animal, animal doméstico, por exemplo. E a peça joga muito com essa contradição de mansidão e selvageria, joga com imagens não só do ato de violência contado na história, mas também com imagens da selvageria animal. Trabalhamos como metáforas. E quem assiste, vê que de mansa as personagens não têm nada — conta André, em entrevista ao RIO ENCENA, lembrando que a inspiração para essa referência animal tem origem numa viagem sua a Santa Catarina dois anos antes da primeira temporada da peça.

Em 2016, trabalhando num outro projeto, o dramaturgo foi a Florianópolis, onde participou de uma oficina de escrita num presídio. Conversando com as detentas, das quais a maioria havia sido presa por tráfico de drogas, ele conheceu uma que lhe confidenciou seu crime: após anos de abuso, decidiu assassinar o próprio marido e enterrar o corpo no quintal de casa.

O assassinato (ou tentativa de), assim, passou a habitar a mente de André e se fez ainda mais presente depois que ele começou a escrever o texto da peça. Aliás, nenhum caso de violência contra mulher que tenha se notabilizado – como, por exemplo, a jornalista Sandra Gomide assasinada pelo marido e também jornalista Pimenta Neves em 2000; a paciente e amante do cirurgião plástico Farah Jorge Farah morta e esquartejada por ele em 2003; Eliza Samúdio, cujo corpo sumiu em 2010 após envolvimento com o ex-goleiro Bruno – serviu de fonte de inspiração como a macabra história da presa catarinense.

— O marido abusava e batia nela, e, certo dia, ela o esfaqueou. Eu soube, por outras detentas, que ela enterrou o corpo no terreno de casa, mas uma vizinha descobriu porque viu um cavalo desenterrando o corpo e, provavelmente, terminando de matar o homem, que nem tinha morrido ainda. Ela estava presa havia sete anos e veio falar comigo que queria contar a sua história. Acabei perdendo o contato dela, mas essa história ficou forte na minha cabeça — lembra.

O autor André Felipe Foto: Maíra Ishida/Divulgação

Desta forma, a partir da figura do equino envolvido no homicídio, surgiu a proposta da tal contradição proposital, porém, com pequenas mudanças. Na peça, dirigida por Diogo Liberano, quem desenterra o corpo é uma égua. Outra substituição feita pelo autor é o agressor. Em vez do marido, é um pai que, após manter as próprias filhas em cárcere privado por anos, acaba morto por elas como forma de vingança por se encontrarem num estado limite. As irmãs são vividas pelas atrizes e idealizadoras do projeto Amanda Mirásci e Nina Frosi.

Além de seus papéis principais, Amanda e Nina levam ao palco também personagens masculinos. São homens, como o corretor de imóveis que tenta vender a casa ou o policial que investiga o assassinato, que a partir de seus próprios pontos de vida exclusivamente, não dão voz a essas mulheres e enxergam o resultado final apenas, ou seja, o assassinato. Com isso, o espetáculo não apresenta somente a história de um crime, mas chama a atenção para os incontáveis episódios de violência cometidos contra mulheres que não recebem a devida punição e resultam numa naturalização da violência na sociedade contemporânea.

A opção de colocar as atrizes em papéis masculinos foi do próprio autor, que não se sentia confortável sendo um homem se colocando no lugar de mulheres quando os assuntos são violência e abuso.

As atrizes também são idealizadoras do projeto Foto: Diogo Liberano/Divulgação

—  Primeiro, comecei a escrever na voz das irmãs que contam essa história. Mas depois passei a achar estranho pela questão do lugar de fala, que se discute muito hoje. Eu homem escrevendo histórias de mulheres? Então, em algum momento achei que seria interessante fazer vozes masculinas passando por bocas femininas e ganhando novos sentidos. Mas a gente nunca tem acesso às vozes delas — ressalta André, que buscou referências também em estudos filosóficos, filmes sobre penitenciárias e “Antígona” (cerca de 442 AC), tragédia grega de Sófocles.

Sobre o texto ou a encenação causarem choque por tratarem de situações limite envolvendo violência, André analisa se “Mansa” é amena ou segue a linha dedo na ferida:

— “Dedo na ferida” é uma boa expressão (risos). É uma história de muita violência, e a gente quis encarar isso. Mas sem querer reproduzir a violência, sem a estética do choque, só dissecando as origens desta violência. Usamos a história específica das irmãs, mas a questão é maior — encerra.

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