‘A Ponte’ – Um Tchékhov contemporâneo?

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

*Crítica publicada excepcionalmente hoje (quinta); a coluna do Gilberto Bartholo sai às quartas

Nada de Tchékhov contemporâneo!!! A lembrança do nome do grande dramaturgo russo, que nos legou algumas das maiores pérolas do TEATRO universal, só me chegou pelo fato de a peça que passo a comentar ter um ponto em comum com uma das grandes obras de Anton Pavlovitch Tchékhov“As Três Irmãs”. Lá, Olga, Irina e Macha, três irmãs, alimentavam uma utopia, a de abandonar a província interiorana em que viviam, para morar em Moscou, na companhia de seu irmão, Andrei. Fartas davmesmice em que estavam mergulhadas e da falta de perspectivas, viam, na capital, a única salvação para suas vidas, metaforicamente, uma motivação para que continuassem a viver. Em “A PONTE”, espetáculo em cartaz no CCBB Rio de Janeiro – Teatro II, trata-se de um reencontro entre três irmãs, de temperamentos e“ways of life” totalmente diferentes: THERESA (BEL KOVARICK)AGNES (DEBORA LAMM) e LOUISE (MARIA FLOR), as quais se reúnem, para aguardar a morte da mãe, condenada que estava a deixar o mundo dos vivos.

Talvez o vocábulo “reencontro” seja até mal empregado, uma vez que o prefixo latino “re-” significa um designativo de repetição, ação repetida ou retroativa. Para haver um “reencontro” é necessário, antes, ter acontecido um “encontro”. E será que este, realmente existiu, em algum momento, na vida das três irmãs? Atentem para esse detalhe!

texto, muito bom, por sinal, é inédito, no Brasil, e foi escrito pelo premiadoautor canadense DANIEL MacIVOR, que consegue, sempre, ser, profundamente, instigante no que escreve, o qual se tornou muito conhecido por cá, com sua trilogia “It On It (2010”)“À Primeira Vista” (2012/2013) e “Cine Monstro” (2013/2015). Chega a peça ao Rio depois de ter feito vitoriosas temporadas, por seu mérito, com sucesso de público e de crítica, nas sedes do CCBB de Belo HorizonteSão Paulo e Brasília.

 

SINOPSE

 

Se, para o mestre Guimarães Rosa“Viver é muito perigoso.”, viver “em família” pode ser, até, muito mais. Família é, ao mesmo tempo a melhor e a pior das coisas. Nem a escolhemos nem ela nos escolhe. É preciso andar na corda bamba, para se viver, harmoniosamente, “em família”.

espetáculo trata, exatamente disso, da aceitação das diferenças num reencontro entre três irmãs, separadas pela vida, que são obrigadas a se reunir, para enfrentar a morte iminente de sua mãe.

Elas são THERESA (BEL KOWARICK), a mais velha do trio, uma freira, moderna, de certa forma, que se isolou da família em um retiro religioso, numa fazenda. AGNES é a personagem de DEBORA LAMM, a irmã do meio, uma atriz falida, que foi tentar a sorte longe de sua cidade natal. Já MARIA FLOR, a mais jovem das três, é LOUISE, obcecada por séries de TV e completamente alienada, desinteressada pelo mundo além do virtual.

O reencontro, durante toda a peça, marcado por vários encontros, dia após dia, se dá, sempre, na cozinha da casa onde foram criadas. É lá que as três revelam os seus valores, crenças e diferenças, trocam acusações e desculpas, em busca da possível reconstrução de uma célula familiar, há muito tempo fragmentada.


Nas relações humanas, é muito mais fácil conviver com aqueles que são próximos a nós, na maneira de pensar e de agir, porque nos entendemos, mutuamente. O grande desafio, com o qual nos deparamos, no dia a dia, é o difícil, porém importante e imprescindível, exercício de, se não conseguir amar, pelo menos, compreender e respeitar os que são diferentes de nós; é preciso, é imperioso, sim, praticar a empatia, por um mundo de amor e paz.

A concretização do projeto, uma peça “completamente sobre mulheres, que sobrevivem, apesar de todas as dificuldades e que se ajudam, se fazem crescer e amadurecer”, se deve à iniciativa de MARIA FLOR“que ficou fascinada pela dramaturgia de MacIVOR e convidou BEL KOWARICK para ser sua parceira no projeto”MARIA estava certa, seu tiro atingiu o centro do alvo, uma vez que a temática sempre foi, é e continuará sendo, para sempre, do grande interesse das pessoas, já que “o texto fala sobre afeto e relações humanas profundas”, embora o que lhe tenha chamado mais a atenção foram os diálogos e as personagens. Realmente, os diálogos são muito bem construídos e as personagens, de uma riqueza interior muito grande. São parecidas com tantas outras que conhecemos, ou que somos, mas sempre há um aspecto diferencial que marca cada uma delas.

Estamos diante, sim, de uma família disfuncional, que pode ser caracterizada como um núcleo “familiar” em que os conflitos, a má conduta e, muitas vezes, o abuso, por parte dos membros individuais, ocorrem contínua e regularmente, fazendo com que outros membros se acomodem com tais ações. Alguns dos principais traços desse tipo de família, presentes na peça, são pouca ou nenhuma demonstração de afeto e carinho (Ninguém se propõe a sair de sua zona de conforto, para ultrapassar essa barreira. Mas até que elas tentam.); os filhos tendem a repetir o comportamento de seus pais (Pouco fica claro a respeito da mãe enferma. Como teria sido a sua relação verdadeira com as três filhas?); excesso de críticas e rigidez (Os dedos indicadores estão sempre apontados para uma outra. Cobranças, excesso de autoritarismo, imposição de regras e normas rígidas.); e alienação parental (Apenas uma hipótese. Mas por que não?). O fato é que escrever sobre famílias disfuncionais é um prato cheio para qualquer grande dramaturgo ou escritor, de uma forma geral. MacIVOR explorou muito bem o comportamento da “família” retratada na peça. Ele se esforça, ao máximo, para tentar que sejam aparadas as arestas e costurados os poucos interesses comuns entre as três personagens (Será mesmo que haja algum?), para atingir um resgate pouco provável. Ou totalmente improvável? Para isso, ele se utiliza de memórias, que parecem pouca força ter para que se concretize uma família. Mas as personagens tentam, cada uma a seu modo.

Revela-se, no texto, um paradoxo entre o afeto e diferenças pessoais, se bem que os dois, até, possam, e devam, coexistir. Não me canso de tecer comentários elogiosos ao texto, principalmente pela estruturação de diálogos inteligentes e profundos, com pitadas de bom humor, e que conduzem, inexoravelmente, o público atento, a refletir, sim, sobre o valor da família e os salutares princípios positivos que uma convivência familiar reserva aos seus membros. Fica bem claro que, apesar de todos os pesares, o autor pretende mostrar que a função da família é neutralizar a porção indivíduo de cada um de seus membros, por mais diferentes que seja dos demais, e amalgamar tudo e todos, juntar tudo, para se fortalecer. No caso, aqui, por um único objetivo: cuidar de uma mãe quase moribunda. O fato de todas as cenas se passarem na cozinha da casa em que viveram as três irmãs, desde que nasceram, não é por acaso, já que não é estranho, para ninguém, que esse espaço da casa é coletivo e, normalmente, já por tradição, principalmente no interior do Brasil, é o lugar em que se reúnem, em harmonia, os membros das famílias e seus convidados, para conversar, prosear, rememorar o passado e fazer planos para o futuro. Naquela cozinha, as três irmãs dividiram parte de suas vidas.

Agradou-me muito a direção de ADRIANO GUIMARÃES, tanto na condução do trabalho de direção das atrizes, que lhe deve ter sido nem um pouco difícil, pela qualidade do material humano com o qual trabalhou, mas também pelas soluções encontradas para cada cena e no geral. Funciona muito a contento a ideia de projetar as rubricas do autor, como a indicação de sons, vindos de um aparelho de TV, ligado em outro cômodo; o ruído de um caminhando, chegando e parando à porta da casa; outros estímulos sonoros e, até mesmo, alguns diálogos, não ditos pelas personagens, mas importantes, na trama, assim como a divisão dos atos. Tudo é projetado numa pequena tela, acoplada à parte inferior de uma grande mesa que compõe o cenário. Boas marcações, muita criatividade, esmero estético, a quebra da quarta parede, por meio dos monólogos das três personagens, muito bem dirigidos, nos quais o diretor consegue extrair, de cada atriz, muito da essência de cada diferente personalidade.

Além do texto e da direção, os destaques maiores, nesta montagem, ficam por conta da atuação do elenco e do cenário.

A princípio, tudo indicava que DEBORA LAMM seria o grande destaque do trio, porém, quando entrou em cena BEL KOWARICK, passamos – eu passei – a achar que o “estrelato” seria dividido entre as duas; bastou, entretanto, MARIA FLOR ter a sua hora de entrar na trama, para que eu tivesse percebido, com certeza, que, de forma diferente, com características distintas, de interpretaçãoas três ocupam o mesmo excelente patamar de atuação. Todas empreenderam um mergulho profundo nas suas personagens e o resultado do conjunto é excelente. E todas têm seus momentos de solo, nos monólogos, ou quase em solos, em “bifes”, nos quais se desnudam interiormente, as personagens, é óbvio.

BEL, a mais velha as irmãs, vive a freira THERESA (A primeira a abandonar o barco, quando um naufrágio se mostrava iminente? Ou não teria havido um?) Isolou-se da família, em uma fazenda religiosa, embora pudesse ser considerada como o alicerce daquele núcleo. E quando o alicerce se rompe, tudo pode desmoronar. Além da doença da mãe, um tom de crise, com relação à fé religiosa e os caminhos errados pelos quais a humanidade vai caminhando são dois outros motivos que a fizeram voltar ao “lar”. Extrovertida, foge bastante ao estereótipo construído para as freiras, em nossa memória afetiva; apresenta-se, mais que as outras, com o pé no chão e encarando aquela realidade, vivida, naquele momento, com mais realismo e naturalidade; até com um certo humor, sempre conselheira, como se já estivesse ocupando o lugar da mãe. Brilhante atuação de BEL KOWARICK!!!

DEBORA LAMM dá vida a AGNES, a filha do meio, uma atriz em decadência, praticamente, falida, que abandonou a sua cidade, em busca de voos mais altos, mas continua voando, cada vez mais, rente ao chão. A despeito de ser uma atriz muito mais ligada ao universo da comédia, DEBORA dá uma aula de interpretação, num papel dramático, o que pode soar como novidade e grande surpresa para alguns, porém, para mim, nada apresenta de novo. Ela é uma atriz completa e já tive a oportunidade de tê-la visto e aplaudido, anteriormente, em outros papéis dramáticos. Para ela, com relação à AGNES“a resolução de conflitos internos é a maior característica de sua personagem”. Para tanto, DEBORA se entrega, de corpo e alma, à composição da personagem e dialoga, corretamente, em níveis diferentes, com as irmãs, de acordo com o que cada uma exige e tem a oferecer. Brilhante atuação de DEBORA LAMM!!!

MARIA FLOR interpreta LOUISE, a mas jovem das três e, por isso mesmo, segundo a própria atriz“Minha personagem é muito dependente da mãe…”. É um tanto ingênua, paradoxalmente lúcida, em alguns momentos; mas, também, mais paradoxalmente, ainda, mostra-se alienada, vivendo intensa e profundamente de séries da TV, pelas quais é fanática, viciada, e sobre as quais sabe tudo, de forma compulsiva, mesmo. Também é introspectiva, direta e objetiva, na sua maneira de ver e viver o seu mundo virtual. Ela é a única filha que não foi batizada nome de santa, o que a leva a um comportamento bizarro, de tentar decorar o nome de todos os santos e seus patronatos.

Cada uma das atrizes ganha um merecido relevo, quando têm, todas, a chance de um monólogo, diretamente direcionado à plateia, quebrando a quarta parede, como já mencionado. Os três textos são ótimos e, por meio deles, tomamos conhecimento de um pouco mais do interior de cada uma delas, dito em tom confessional.

Com relação ao cenário, confesso, com a maior humildade, não ter alcançado a intenção dos artistas que o idealizaram, ADRIANO GUIMARÃES e ISMAEL MONTICELLI, por mais que eu tenha me esforçado. Pode, até, ser algo tão óbvio, mas que não consegui captar. Deve ter sido um problema meu ou faltou mais um pouquinho de percepção e agudez, de minha parte. Um fato, porém, é indiscutível: é muito interessante e grita, salta aos olhos do espectador, logo que este adentra o auditório, pelo fato de ser monocromático, num vermelho muito vivo, além de um grande desafio para o público. Tudo é na cor vermelha, tudo o que, de concreto, está em cena, e, alguns objetos, repetidos, na cenografia: numa cozinha, uma comprida mesa central, sobre a qual há muitas frutas (maçãs, principalmente); muitos, e variados, recipientes, de diversos feitios e tamanhos; todos os utensílios de cozinha nos quais se possa pensar; e aparelhos eletrodomésticos. Por baixo, e na frente, da mesa, há uma tela, superfície utilizada para projeções, como já foi mencionado acima.

É importante fechar esta crítica, lembrando que a temática retratada na peça é atemporal e universal e que é feminina – não feminista –, abordando, tão somente, a vivência das mulheres “que sobrevivem, apesar de todas as dificuldades, e que se ajudam, se fazem crescer e amadurecer”. E, ainda, por mais que os meus comentários possam sugerir uma peça para “para baixo”, o espetáculo prega uma mensagem de otimismo, de fé na força do afeto, da amizade e da união. E mais um detalhe: durante todo o espetáculo, temos a oportunidade de testemunhar um processo de autoconhecimento das três irmãs.

Recomendo, com muito empenho, o espetáculo, um projeto vencedor, sem a menor sombra de dúvidas.

Não só recomendo a peça como já estou providenciando um outro dia, para revê-la.

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
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Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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