‘Zilda Arns – A Dona dos Lírios’ é homenagem carinhosa à médica catarinense e à Pastoral da Criança

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Candido Mendes, em Ipanema, “Zilda Arns – A Dona dos Lírios”, dirigida por Luiz Antonio Rocha, constrói a figura da sanitarista brasileira de forma suave e gentil, e consegue driblar um dos problemas mais perigosos dos monólogos: a falta de dinâmica.

Em se tratando de Zilda Arns, esta qualidade torna-se ainda mais especial, pois a vida retratada é aquela de uma labuta sem “glamour”, sem grandes variações, conflitos dramáticos, isto é, sem a matéria-prima normalmente utilizada para prender a atenção do espectador. O espetáculo tinha tudo para ser lento ou hermético, uma vez que a beleza da vida de Zilda estava no encanto que seu trabalho produzia nela mesma. Mas não é isso que acontece; de alguma forma inexplicável, a peça consegue traduzir cenicamente a singeleza da pessoa e da missão que Zilda Arns assumiu para si.

Cenário e figurino desenham um Brasil bucólico, de interior. A composição quase infantil parece referenciar mais a visão romântica de Zilda do que um retrato realista dos ambientes, o que é fundamental dentro de um monólogo que se constrói a partir da perspectiva de sua personagem.

A iluminação também auxilia esse foco na beleza de momentos inesquecíveis, só vividos em função do trabalho particular de Zilda à frente da Pastoral da Criança.

Simone Kalil, por fim, tem enorme segurança e embocadura na condução. Consegue manter o ritmo de um espetáculo todo calcado na percepção de sua personagem-título. Os momentos cômicos (normalmente a cargo de imitações) destoam um pouco; parecem entrar com certa veemência em meio a um clima suave. Mas nada comprometedor, especialmente porque desempenham papel importante de variação da narrativa.

“Zilda Arns – A Dona dos Lírios” é um excelente exemplo de como o teatro pode ser potente quando todos os seus elementos trabalham em uníssono. A peça consegue sobrepor obstáculos naturais, e ainda dar a conhecer o trabalho importantíssimo realizado pela médica catarinense e pela Pastoral da Criança.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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