‘Yank! – O Musical’ tem qualidades importantes, ainda que ritmo comprometa

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, “Yank! – O Musical” é um musical tradicional na forma e político no conteúdo. Os dois lados se resolvem bem e se complementam, o que já é, em si, um grande mérito da direção de Menelick de Carvalho. Apesar disto e das boas atuações, o espetáculo sofre uma queda de ritmo importante depois dos primeiros 30 minutos, que acaba comprometendo o resultado final.

A história da peça gira em torno de dois companheiros de pelotão durante a Segunda Guerra Mundial. Após um beijo, um deles decide deixar o pelotão e a linha de frente para ir trabalhar na revista Yank, que cobre fatos da guerra e é veiculada nos EUA e fora dele. Depois de algum tempo e de ouvir notícias de seu grupo, resolve ir, a trabalho, ao seu encontro. Quando se depara com seu ex-companheiro, por quem ainda é apaixonado, engatam um romance que precisa lidar com os preconceitos de um relacionamento homoafetivo, se mantendo em meio à guerra, circunstância ímpar, violenta e hostil por si só.

Cenário e figurino são históricos, contendo elementos e cores característicos da Segunda Guerra. Alguns são bem icônicos e dão gosto de ver a quem curte a época e seu retrato no cinema americano.

Os números musicais abrigam coreografias bem tradicionais com melodias incomuns. Apesar do contraste surpreender, os atores executam tudo muito bem tecnicamente, e, o que é mais importante, com carisma. Não deixam a peteca cair.

O elenco também consegue atingir excelentes momentos cômicos, mesmo em quebras bruscas durante a narrativa. Hugo Bonemer merece destaque, pois carrega o espetáculo com a doçura fundamental ao protagonista, base da trama, sem a qual a relação com o pelotão não teria sentido, e nem seus momentos cômicos (ótimos) teriam efeito.

A principal questão para mim não é propriamente da montagem, mas do enredo dos americanos Joseph e David Zellnik: em parte, o foco é no conflito bélico, no terror que é a guerra; em parte, na relação dos protagonistas; e em parte na discriminação à homoafetividade que existia no seio da sociedade americana de meados do século XX, principalmente dentro do exército. Tudo isto a ser retratado por meio de um espetáculo musical, com incontáveis (isso também me incomodou) números, e intercalado de (importantíssimos e muito bem escritos) momentos cômicos… São muitos focos para dar conta. E isso acarreta dois sintomas: o espetáculo é bem longo e acaba perdendo seu ritmo. E reparem: mesmo com ótimo elenco e sem perder a graça.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas e sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

 

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