‘Vou Deixar de ser Feliz por Medo de Ficar Triste?’ – Intimidade escancarada, a serviço da felicidade

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Entrou, recentemente, em cartaz, no Teatro das Artes, no Shopping da GáveaRio de Janeiro, um espetáculo que prima pela boa qualidade e pela criatividade, calcado numa ideia não tão original, porém muito bem desenvolvida, resultando num espetáculo que merece ser visto e apreciado.

Falo de “VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE SER TRISTE?”, que tem argumento de CLAUDIA WILDBERGER e YURI RIBEIROtexto deste e direçãode JORGE FARJALLA, trazendo, no elencoPAULA BURLAMAQUI, YURI RIBEIRO,VITOR THIRÉ JUJUBA CANTADOR.

Por que a ideia não é “tão original”? A resposta é muito simples: não há tema mais explorado e esmiuçado, em todas as formas de arte, do que o amor. O amor e suas maravilhas. O amor e seus sofrimentos. O amor e suas surpresas. O amor e suas diferenças. O amor e suas consequências. O amor… O amor… O amor

Mas é possível, sim, se falar de algo tão “déjà vu” e agradar tanto, quando entram em campo a criatividade e o despudor, o medo da exposição pública e a vontade de se deixar uma boa mensagem a um público.

 

SINOPSE

 

Valendo-se da atualidade do temaYURI RIBEIROautor do texto e um dos idealizadores do espetáculo, resolveu transformar sua experiência de vida em espetáculo teatral.

peça aborda as várias fases de um relacionamento amoroso, promovendo deliciosas risadas e muita reflexão.

No palco, PAULA BURLAMARQUI (ANDREA), é uma mulher mais “experiente” (mais velha), que casa com DANIEL (YURI RIBEIRO), um rapaz que tem uns bons anos de experiência a menos que ela.

O filho de ANDREACAIO (VITOR THIRÉ) é um jovem como a maioria de sua idade, brincalhão e piadista, que não se dá muito bem com “a espécie de irmão mais velho que ele arrumou”.

Como uma espécie de “coringa”, ainda está em cena, como músico e ator, pontuando e apoiando algumas cenas, o músico JUJUBA CANTADOR.


Antes de mais nada, acho muito louvável a coragem de um casal de idades tão dístantes – ela com 52 anos e ele com 27 (praticamente o dobro) – expor a sua intimidade, o seu dia a dia e a construção de uma linda relação afetiva – o mais importante de tudo –, que não difere, em nada, dos casais formados por pessoas de idades próximas. Há, evidentemente, alguns detalhes “atípicos”, com os quais ambos precisam se acostumar, os quais ambos têm de assimilar. Mas o amor resolve tudo.

Existe, ainda, em pleno século XXI, por parte de muita gente, não sei se da maioria das pessoas, um preconceito muito grande com relação à diferença de idades entre os membros de um casal, seja ele “convencional” ou homoafetivo. Ainda há quem se preocupe tanto com a vida alheia, sem se dar conta de que a sua é que precisa ser mais bem administrada; e não seria por outra pessoa, a não ser a própria, o que já lhe deveria ocupar bastante tempo.

Paradoxalmente, é curioso, no mínimo, que um sentimento considerado combustível da vida, indispensável à preservação e perpetuação da raça humana, o amor, venha sendo tão discutido, ultimamente, por sua falta ou desvalorização. Por esse motivo, nos diz o diretor da peçaJORGE FARJALLA, que “…nunca se tornou tão necessário e importante, para mim, falar sobre o tema.”. Para todos, FARJALLA. Sem amor, é impossível vida neste planeta; quiçá, em outros.

O que confere à peça uma marca especial, que a torna diferente, não é somente o fato de se tratar de mais uma história de amor ou, apenas, a história de amor entre pessoas de idades bastante diferentes. É a maneira como ela é contada, a linguagem eleita pela direção, para que tudo fosse dito da forma mais poética e lúdica possível. A opção foi utilizar um picadeiro, e uma estética circense de “clowns”, em pitadas leves, sem a predominância de técnicas “clownescas”. Nada mais singelo e poético que isso, a exploração da alma do palhaço. E o resultado foi excelente.

FARJALLA, afirma “que o amor é o guia para onde, de fato, nos movimentamos na vida. Ele nos move a cada segundo e ações do nosso cotidiano. Não só o amor entre duas pessoas, mas por um amigo, por um trabalho e por aí adiante.”. Para ele, o fato é que, moldado e forjado numa relação de vida pessoal, mergulhou, de cabeça, na pureza e entrega deste “VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE FICAR TRISTE?”. Quanto a isso, não resta, ao espectador, a menor dúvida. Nota-se o amor pela empreitada, o amor com que o diretor trabalhou, com seus atores, a costura do texto e a mágica transformação deste, ou sua transposição do papel para o palco, das letras às ações.

A relação parte de uma paixão, como sempre, desenfreada, fervente, porque se trata de um sentimento que dispensa a razão e dá corda ao coração, à emoção, e vai se moldando, evoluindo para um amor de verdade, que é outro sentimento, um primo, quase irmão, da paixão; destemido, desobrigado de dar satisfações a terceiros, solto das amarras, livre de correntes e grilhões, que oscila entre o a emoção e a razão, ora mais pendendo para um lado, ora para o outro. O que parece uma coisa impossível de se desenvolver e florescer, o amor de uma mulher mais velha por um “garoto”, comparado, no “release” da peça, como “o amor de um peixe por um pássaro, mas que poderá ter um outro destino”, acaba mesmo trilhando outra sina. Está dando certo e oxalá dure para sempre. “Que seja eterno, enquanto dure.”, diz o “Poetinha”Que dure até a eternidade!!! – digo eu.

Para o autor, “‘VOU DEIXAR DE SER FELIZ POR MEDO DE FICAR TRISTE?’ tem os pés na verdade do dia a dia do casal e as mãos agarradas na ficção, para apimentar um pouco. Somos poesia e terra numa mesma obra. Somos riso e choro. Somos humanos e estamos contando, em uma comédia, uma história de humanos que se amam.”. E como é bem contada essa história, que, além do ótimo texto, ganhou uma brilhante direção e foi colocada na boca de quatro ótimos intérpretes!

Embora o texto seja inspirado na real história de amor de um casal, os nomes dos protagonistas ganharam a ficção, ANDREA (PAULA BURLAMAQUI) e DANIEL (YURI RIBEIRO), e, durante os 70 minutos de duração da peça, vemos desfilar, no palco, como, obviamenmte, não poderia deixar de ser, muitas das refererências que pontuaram a vida do casal, e devem pontuar até hoje, durante já quase seis anos de vida em comum, tudo regado com um molho de fábula, misturando momentos de grande emoção com cenas plenas de um humor leve, descontraído, inteligente e saudável. Devo, ainda, acrescentar que o texto, por sair do coração, não é complexo; muito ao contrário, é de uma simplicidade encantadora, com diálogos bem construídos e ágeis, indo de um extremo, do drama, à outra extremidade, da comédia, com o mesmo vigor e energia.

FARJALLA é um diretor conhecido por se cercar de excelentes profissionais, que o ajudam a concretizar suas ideias e transformar seus sonhos em realidade. Não foi diferente desta vez e alguns nomes que já vêm trabalhando com ele, há algum tempo, assinam setores importantíssimos desta montagem.

cenografia é muito simples, conceitual e prática. JOSÉ DIAS, um grande mestre no ofício, parceiro inseparável de FARJALLA, em tantas inesquecíveis montagens, assina este trabalho, voltado para um picadeiro, com um “amparo” (Ou seria “borda”? Falta-me o termo exato, mas refiro-me à parte que circunda o picadeiro.) em semicírculo, que funciona como passarela e uma espécie de “porta-trecos”, de onde saem materiais de cena e onde também são guardados, após o uso. Por algum tempo, fiquei me questinando sobre a decisão de não utilizar o referido “amparo” no círculo inteiro. Se há uma proposta, um significado para isso, por parte do cenógrafo – e deve haver -, eu não consegui alcançar, o que, em absoluto, traz algum prejuízo para a comprensão da peça. Ao fundo, apenas partes das paredes, de lona, de um circo, mas não coloridas. Talvez haja uma relação conceitual entre esses dois elementos da cenografia, porém não vou continuar preocupado com isso. Funciona muito bem o ótimo cenário do DIAS.

Os figurinos, bastante interessantes, são assinados pelo próprio FARJALLA, um trabalho que lhe confere grande prazer e que o consahrado multiartista executa com muita maestria. Neste espetáculo, ele ainda foi o responsável pela preparação corporal, que permite, aos atores, belos deslocamentos em cena, acompanhando a proposta da leveza do espetáculo.

peça é uma lição de poesia e, para isso, muito contribui a bela e sugestiva iluminação, a quatro mãos, criada por  JACSON INÁCIO e VLADIMIR FREIRE, dando suporte às cenas, colorindo as lonas do circo e criando um clima onírico, tão favorável à montagem.

Outro profissional que vem acompanhando FARJALLA, em seus últimos trabalhos, com um excelente rendimento, é JOÃO PAULO MENDONÇA, criador da trilha sonora do espetáculo, composta de canções leves, líricas e totalmente inseridas nas cenas.

Quanto ao elenco, há um ótimo entrosamento entre o quarteto, todos com formidáveis atuações. PAULA e YURI atuam com muita verdade e mergulho nos seus personagens, porém vejo um leve destaque em VITOR THIRÉ, talvez pelo fato de seu personagem, CAIO, o filho quase da idade do marido da mãe, funcionar como um contraponto na relação entre o casal.

Também não posso omitir a importância de JUJUBA CANTADOR, de quem eu nunca havia ouvido falar e de quem me tornei fã, no desenvolvimento da trama, como uma válvula de escape, para os momentos de tensão, e um reforço nas cenas cômicas.

Não poderia deixar passar em brancas nuvens, de forma alguma, um comentário elogioso ao belíssimo e elaborado trabalho de arte da peça, incluindo o programaprojeto gráfico de LETÍCIA ANDRADE. Houvesse prêmio para essa categoria, LETÍCIA merecia, no mínimo, uma indicação. O programa, seguindo a técnica de origami, com dobraduras, formando um coração, é para ser guardado com muito carinho e cuidado.

Todos os espectadores devem sair de peça com a mesma sensação que tive; leves, felizes e podendo, até, fazer o seguinte questionamento: Por que eu devereia me interessar por uma história de amor entre uma mulher mais velha e um rapaz muito mais novo? O que, ou em que, isso poderia me intererssar e aos outros? O quanto isso poderia me acrescentar, na minha vivência do dia a dia? Muito; ou melhor, tudo.

Acho que o texto, abaixo transcrito, dito, em “off”, pela própria CLAUDIA WILDBERGER, ao final da peça, enquanto o elenco fica parado e a luz vai cedendo à penumbra, responde a tudo, sem a necessidade de maiores acréscimos:

“O que eu acho? Como é pra mim?

Na verdade, eu nunca pensei muito nisso. Foi natural. As coisas foram acontecendo, como acontecem nos relacionamentos.

Sei lá, só acho que relacionamento não é escola, que separa por série e tem que ter a mesma idade pra ficar na mesma turma, na mesma sala.

Relacionamento é humano, é pele, é coração, é desejo.

Acontece. E acontece diferente com cada um.

Eu tenho 52 anos e ele 27. É uma baita diferença, né?

Sabe que eu nem sinto?

Relacionamento é feito de pessoas que se completam e isso não depende de idade ou experiência; relacionamentos dependem de pessoas que se AMAM.

Não é que eu nunca me incomodei com o que os outros dizem ou como olham a gente, mas, jura?

 Vou me prender a isso?

 Vou nada!”


E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O BOM TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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