‘Vou Deixar de ser Feliz por Medo de Ficar Triste?’: diretor e autor falam sobre parceria em comédia romântica ‘lúdica’

Luiz Maurício Monteiro

Yuri, de 27 anos, faz par com Paula, de 51, que tem a idade da esposa dele, Claudia Foto: Carol Beiriz/Divulgação

Em vez daquela DR protagonizada por um casal típico da cidade grande confinado num apartamento, uma atmosfera mais poética e lúdica para contar a história de uma relação menos convencional. Na contramão da clássica receita de comédias românticas, “Vou Deixar de ser Feliz por Medo de Ficar Triste?” estreou nesta sexta-feira (01) no Teatro das Artes, na Gávea, como fruto da primeira parceria entre o autor e protagonista Yuri Ribeiro e o diretor Jorge Farjalla.

Há seis anos, Yuri, então com 21 anos, iniciava um relacionamento com Claudia Wildberg, então com 46, que assina o argumento (ao lado dele) e a produção da peça. Esta diferença de idade do casal e uma atitude sem noção – para não dizer indelicada – de um garçom foram os pontos de partidas para que ele começasse o texto que retrata as diversas fases do casal Andrea (vivida por Paula Burlamaqui, de 51 anos) e Daniel (Yuri) misturando romance e humor. A questão é que Yuri não queria uma comédia romântica simplesmente. E foi aí que entrou Jorge Farjalla.

Está no DNA do diretor uma linha ousada e visceral, além de um desejo pulsante de fugir do óbvio. Se aproveitando deste estilo, de experiências anteriores e do perfil do personagem principal, um artista ligado a saraus e poemas, Farjalla – que também assina figurinos e preparação corporal – criou o universo da peça em versão fábula, reunindo elementos circenses, de poesia e música. O resultado agradou em cheio a Yuri, que durante a entrevista abaixo, para o RIO ENCENA, classificou a dobradinha como “incrível!”.

Yuri, o texto é completamente fiel à história sua com a Claudia ou você caprichou na ficção?
Yuri Ribeiro: Caprichei na ficção. Mas digo que a peça é livremente inspirada na nossa vida. Tem o pano de fundo forte da minha história com a Claudia, mas cada um dos atores e o próprio Farjalla trouxeram um pedacinho de si, com situações semelhantes, para acrescentar. Carreguei na tinta para ser cômico, e o Farjalla trouxe o lúdico.

Yuri e Claudia estão juntos desde que ele tinha 21 e ela, 46 Foto: Pino Gomes/Divulgação

E o que ela achou da ideia de a história do casal inspirar uma peça de teatro?
YR: No início, gostou. Eu é que não sabia se seria capaz de escrever. Sempre escrevi coisas, mas não sou dramaturgo. Tudo começou num bar… Pedi a conta, e o garçom virou para ela perguntando “é crédito ou débito, senhora?”. Isso criou um “bichinho” que confundiu minha cabeça. Eu respondi, e, mesmo assim, ele entregou a notinha para ela. Tive a ideia de fazer um texto cômico, um stand-up. E depois de apresentar algumas vezes, o Hugo, filho mais velho da Claudia, falou: “Por que você não faz uma peça?”. A Claudia não teve receio no início, mas depois perguntou: “Será?”. Mas também nunca me pediu para omitir alguma questão ou fato no texto. Entendemos que não seria obrigatório ser totalmente inspirado em nossa história.

Situações como essa do “débito ou crédito” acontecem com frequência com vocês?
YR: Acontece com certa frequência, mas não nos importamos. É da nossa natureza, passa batido mesmo. Uma ou outra situação se sobressai, como a do garçom. Mas agradeço a ele, porque seja lá o que tenha passado em sua cabeça, ato falho ou intencional, foi por isso que a peça começou. Lembro também de uma vizinha que, às vezes, se referia a mim como filho da Claudia. Não sei por quê, pois deixamos claro que éramos marido e mulher. Não sei se por maldade ou loucura… E numa outra vez, estávamos Claudia, eu e o Hugo fazendo compras no mercado. Ao passar no caixa, a atendente falou que era bonitinho os filhos ajudando a mãe. A gente sorriu, e eu dei um beijão na Claudia. A atendente ficou sem entender, mas depois deve ter caído a ficha (risos).

E você colocou essas situações inusitadas no espetáculo?
YR: Não tem. Tem a situação do débito ou crédito, que é uma homenagem ao início de tudo. É não se importar. A gente tem que conviver com isso. As pessoas gostam de julgar, ou julgam sem gostar, por natureza… Então, o start do débito ou crédito vai continuar existindo. Mas tem opinião de amigos na peça, dos filhos…

Mas existe uma cena mais engraçada que seja inspirada na sua experiência?
YR: Tem uma cena em que a Andreia vai falar com o filho, enquanto o Daniel fala com a mãe no telefone. E aí, as conversas se cruzam. Isso tem sido engraçado nos ensaios. Porque o quê estou vivendo com minha mãe, o Caio também vive com a mãe dele, que, por sinal, é a minha namorada (risos). Isso nunca aconteceu com a gente de verdade. Ali, estamos usando um recurso teatral. Mas sempre ouço a Claudia falar com os filhos dela as mesmas coisas que minha mãe fala comigo. Tipo, olhar para os dois lados antes de atravessar a rua…

E como tem sido essa parceria Ribeiro/Farjalla?
YR: Incrível! Sempre tive claro que não queria fazer uma comédia romântica tradicional. Nada contra, eu adoro, mas queria algo diferente. Só não sabia o quê. A Claudia chegou ao nome do Farjalla e sugeriu. Eu achei legal. O título do texto era “Débito ou Crédito”. De cara, ele disse que era burocrático, que remetia a comédias românticas. Aí, tinha no texto a frase “vou deixar de ser feliz por medo de ficar triste?”. E ele achou que o título poderia ser esse. Começou ali a contribuição enorme do Farjalla. E com uma outra frase do texto, que o Daniel diz ao (enteado) Caio: “Que bons ventos trazem este carioca ao picadeiro do retirante”. Essa frase inspirou o Farjalla a levar a história para um picadeiro de circo, algo que eu nunca tinha imaginado. E a plateia vai viver esse ambiente de sonho, mas também vai voltar para a realidade, para um mundo que não é uma fábula. Isso trouxe uma quebra de expectativa muito grande. O Farjalla é um criador. Pensa em tudo: figurino, cenário… E pensou, principalmente, no modo como contar essa história.

JF: O texto do Yuri me abriu esse leque de poder trafegar nesse universo. Essa é minha primeira peça sobre amor, porque as outras são só carnifica (risos). Fiz só uma comédia romântica que se chamava “Vou Deixar o Amor Para Outra Vida”. E quando esse texto chegou para mim, li e pensei em como fazer. E o fio condutor para tudo isso é o personagem dele, o protagonista, que vive num sarau, recita poemas… É um artista que vem do Tocantins. Então, usei toda essa influência para criar a encenação.

O diretor Jorge Farjalla Foto: Darian Dorneles/Divulgação

Farjalla, porque essa opção de dar um ar mais lúdico a uma comédia romântica? Fugir do óbvio?
JF: Teatralizar uma obra é meu principal objetivo. Levar para outro caminho, sabe? A não ser que me seja exigido, eu não vou pegar um texto e levar para o óbvio, com um casal, uma mesinha, uma cadeirinha… Pego a essência do texto e tento retraduzi-la de outra forma para o espectador. E para esse espetáculo, a inspiração veio também de uma experiência pessoal minha. Um pássaro e um peixe que não tinham como ficar juntos. Não tinha como! Eram dois extremos. Então, peguei esse gancho e construí minha encenação. Peguei o palhaço, que é o símbolo de maior pureza de amor – já fui clown e sei o que falo – peguei o texto e levei para um picadeiro de circo. Criei essa encenação durante uma viagem de 50 minutos de São Paulo para o Rio de Janeiro. Na minha cabeça, o processo funciona assim: tudo já aconteceu.

O quê mais de lúdico tem nessa peça?
JF: Essa coisa carnavalesca, que humaniza a história. Na trilha sonora, pensei em Chiquinha Gonzaga, que viveu uma história de amor assim, ela tinha 50 e o rapaz tinha 16; tem também Heitor Villa-Lobos… Quem toca essas músicas é o Jujuba Cantador, um músico, ator e palhaço, que eu trouxe para o elenco. E se você reparar na foto, o personagem do Yuri tem uma coisa de Charles Chaplin e de Jerry Lewis. Busquei isso também.

Para encerrar, que mensagem essa peça passa com essa história de amor entre uma mulher mais velha que o companheiro?
JF: Não deixar o amor para amanhã. Não tenha medo de amar, mergulhe, pule de cabeça, independentemente de idade, sexo ou qualquer outra coisa. Ame!

YR: A peça passa por alguns lugares, como o preconceito, a graça da vida a dois, os conflitos que vão além da idade… E, na verdade, o conflito principal é a convivência, o dia a dia, as manias… A peça passa por tudo isso. Agora, se for resumir numa só mensagem, acho que é: “amar sempre vale a pena”. Onde tem amor, tem tudo. Ou talvez sejam duas coisas numa só: “amar sempre vale a pena” e “o amor anda de mão dada com a paciência”.

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