‘Vim Assim que Soube’ pode provocar uma montanha russa de emoções

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no SESC Copacabana, “Vim Assim que Soube”, que tem direção de Marco André Nunes, tem um apelo emocional muito grande, e não se furta a quebrar a tensão de momentos-chave com tiradas cômicas leves e despretensiosas. É um espetáculo surpreendente, uma montanha russa de emoções.

O texto do também ator Renato Carrera mistura ficção e realidade. Logo no início da peça (desculpa o SPOILER, mas impossível falar da minha experiência sem ele), Carrera se dirige ao público e conta que o texto se inspirou no pai, no irmão e na doença terminal que ele mesmo tem. Em uma peça que tematiza momentos que antecedem a morte, a coisa já seria tensa por si só… Ao envolver a realidade, e do próprio ator que estamos vendo em cena, tudo causa muito mais empatia e comoção. Curiosamente, a revelação (?) não volta ao espetáculo como recurso de identificação, mas como lembrete de que a peça estaria em processo de escrita, o que acentua de forma completamente inesperada o paralelo entre atores e personagens.

Os outros elementos acompanham este lugar indefinido do texto, e compõem-se de diversas referências, impedindo uma precisão. O cenário de Daniel de Jesus, por exemplo, tem como pano de fundo uma parede e um pequeno arranjo de plantas, além de uma mesa; a rigor, pode ser qualquer ambiente, e este ambiente pode ter qualquer significado para os protagonistas, a serem revelados em momentos da peça. Outros exemplos são escolhas cênicas que congregam linguagens abstratas, “alternativas” (como gargalhadas melodiosas e infinitas), com outras super naturalistas e figurativas (como quando os dois atores sentam-se à mesa, no proscênio, dividem cervejas e se zoam).

Mesmo as projeções, sobretudo os vídeos, ao mesmo tempo em que retratam ruas, a entrada de uma casa, um jardim… Ou seja, locais que sugerem uma ponte com uma “realidade”, retratam também uma sala de ensaio, com atores lendo um texto.

O brilho e a comicidade de todas as passagens está justamente na linha tênue (que só os atores reconhecem claramente) entre ficção e realidade. O que poderia ser apenas um momento trágico ou cômico, ganha outra envergadura, outra camada de sentido, diante da dúvida em relação ao que está contido ali. A cena também brinca com linguagens possíveis, e faz uso de tantas que a sobreposição nos confunde o tempo todo. Para mim, a grande beleza do espetáculo está nesta multiplicidade, e no compromisso com a indefinição.

“Vim Assim que Soube” é, em suma, uma reflexão sobre a morte, sobre amizade, sobre o teatro e, simultaneamente, uma história emocionante e engraçada contada de maneira leve e “teatral” (com todas as acepções que esta palavra tem).

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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