‘Vermelha’ – O texto que não está escrito, mas que é lido, e por mais de uma ótica

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Conheço o trabalho da CIA DE TEATRO MANUAL, desde 2014, quando me deixei encantar pelo magnífico “Hominus Brasilis”espetáculo de estreia da CIA., algo extraordinariamente bem produzido e montado, fruto de um intenso e demorado trabalho de pesquisa dos quatro componentes do grupo, formado em 2011MATHEUS LIMA, Helena Marques, Dio Cavalcanti e Patrícia Ubeda. MATHEUS e Helena haviam conhecido, em 2010, a técnica da linguagem da plataforma, em um curso de especialização na LISPA – Escola Internacional de Artes Cênicas de Londres. Tal técnica consiste em se apresentar um espetáculo teatral sobre uma plataforma de madeira, um “palquinho”, um minúsculo praticável, baixo, (O de “Hominus Brasilis” media apenas 2,0m x 1,0m.), tendo, os atores, como “ferramentas de trabalho”, apenas o corpo e a voz, sem a utilização de recursos cênicos e com figurinos simples e, geralmente, aproveitados na encenação.

De volta ao Brasil, com a grande novidade na mala, o casal se juntou a Dio Cavalcanti e Patrícia Ubeda, os quais, durante três anos, se dedicaram ao estudo do novo formato e à pesquisa do espaço cênico e do corpo expressivo, até chegarem ao já citado espetáculo de estreia, “Hominus Brasilis”, um verdadeiro sucesso, de público e de crítica, com várias temporadas, no Rio de Janeiro e fora dele, até no exterior. Com essa montagem, a Cia. representou o Brasil nos festivais internacionais Chicago Physical Festival (EUA – 2016)Festival Efímero de Teatro Independente (Argentina – 2017)Beijing Comedy Week (China – 2017)Festival Gargalhadas na Lua (Lisboa-2019) e Festival Internacional de Teatro de Alentejo (FITA\2019). Também recebeu indicação a vários Prêmios de TEATRO, tendo conquistado alguns.

Desta vez, de forma bem generosa, com os outros trabalhando nos bastidores, a CIA. DE TEATRO MANUAL abre espaço para que MATHEUS LIMA se apresente num trabalho solo, com excelente texto verbal, ainda que curto, apenas para dar apoio ao texto não faladoapenas expresso por gestos e ações, escrito por CECÍLIA RIPOLL, um dos mais promissores nomes da atual dramaturgia brasileira, uma autora muito jovem, porém de incomensurável talento. Trata-se do primeiro trabalho solo da CIA..

 

SINOPSE

 

Um menino trabalha, exaustivamente, em uma fábrica de sapatos, praticamente, em regime de semiescravidão, mas, contraditoriamente, não tem condições de comprar o próprio calçado.

Um dia, descobre que as mercadorias produzidas na fábrica, situada no “país de baixo”, são vendidas, por um valor bem menor, no “país de cima”, para onde são exportadas.

Começa, então, uma batalha da classe trabalhadora, que quer ter acesso aos calçados baratos, e o presidente daquele país, que decide construir um muro, para impedir a entrada dos imigrantes descalçados.


Não tive como não ligar o desejo do personagem, que fabrica sapatos, mas não tem condições de adquirir um par, com uma velha marchinha de carnaval, chamada “Pedreiro Waldemar”, de autoria de MartinsRoberto e Wilson Batista“Você conhece o pedreiro Waldemar? / Não conhece? / Mas eu vou lhe apresentar. / De madrugada, toma o trem da Circular. / Faz tanta casa e não tem casa pra morar. / Leva marmita embrulhada no jornal. / Se tem almoço, nem sempre tem jantar. / O Waldemar, que é mestre no oficio, / Constrói um edificio / E, depois, não pode entrar”.

texto é todo metafórico, e isso costuma ser, na maioria as vezes, eu diria, um grande entrave, para a compreensão do espetáculo, por parte do grande público, incluindo os menos favorecidos, em termos de inteligência e escolaridade. CECÍLIA RIPOLL, porém, foi de uma felicidade incrível, trabalhando o universo metafórico da forma mais simples possível e fácil de ser assimilada, mesmo pelas pessoas menos informadas e/ou formadas. Ninguém tem a menor dificuldade para perceber qual é o “país de cima” e qual é (No caso, são, uma vez que podem ser muitos ou, especificamente, um, com maiores referências, em relação ao “dominante”.) o “país de baixo”. Menos, ainda, alguém sai do Teatro sem saber quem é o presidente do “país de cima”, que deseja construir um muro, para conter as investidas dos descalços e descamisados do “país de baixo”.

“VERMELHA” é, para a CIA., um “desafio de encenar uma saga, repleta de acontecimentos, numerosos personagens e geografias distintas, através de um único ator no palco”, como está escrito no “release”, enviado por LYVIA RODRIGUES (AQUELA QUE DIVULGA – ASSESSORIA DE IMPRENSA). Ainda que, neste trabalho, não exista a presença física da plataforma, que foi trocada por uma simples e interessante cenografia, sobre a qual falarei adiante, “os princípios que norteiam o trabalho dela (a plataforma), sim: a gestualidade, o corpo expressivo, a pantomima, a comicidade física, o trabalho rítmico, a construção da atmosfera, por meio das sonoridades; enfim, elementos que definem nosso trabalho”, destaca MATHEUS, que interpreta quatro personagens fixos: o menino, a mãe, o “presidente do país de cima” e o “presidente do país de baixo”.

Para conceber o textoCECÍLIA RIPOLL inspirou-se no conto “Os Sapatos Vermelhos”, de Hans Christian Andersen, porém com total liberdade, para impor suas críticas ao mundo capitalista; à exploração do trabalho escravo, principalmente aplicado a crianças; à prepotência desmedida e cruel dos países mais desenvolvidos; e outras mais.  Dois clássicos de Charlie Chaplin também serviram de fonte: “O Grande Ditador” e “Tempos Modernos”. Quem conhece essas duas obras-primas do cinema haverá de perceber tal interferência na peça.

CIA. DE TEATRO MANUAL acertou em cheio, na opção de um espetáculo-solo, no texto, na direção, na escolha do ator e nos demais elementos necessários a uma encenação teatral, bastante intimista, que apresenta uma “mescla de densidade e comicidade”, estruturada em “frases curtas e pontuais, pensadas enquanto enunciados da trama, espécie de ‘legendas orais’, oferecendo lacunas a serem preenchidas pela relação entre ator e espectador. MATHEUS ‘joga’ com as frases-legenda, como se fossem companheiras de cena, e transita por todos os fatos e personagens – ora sendo, ora vendo, ora manipulando.”. Esse trecho, extraído do “release”, resume – e traduz o meu pensamento -, muito bem, o que é a peça e quão lindo e correto é o trabalho de ator, de MATHEUS LIMA, e quão gratificante é vê-lo, em sua força interpretativa, dedicando-se, de corpo e alma, a cada personagem que interpreta. MATHEUS tira, das entranhas, uma força e uma garra, totalmente necessárias, para traduzir os sentimentos do personagem- menino, principalmente.

MARCELA ANDRADEatrizdiretora e professora de TEATRO, que, faz alguns anos, vem realizando uma pesquisa prática e teórica, acerca das possíveis relações entre atuaçãodramaturgiabiografia e memória, com experiência, como residente, no Teatro Delle Radici, grupo suíço, cuja investigação cênica parte de relações memoriais, põe em prática toda a sua experiência, nesta direção, extraindo o máximo do potencial de ator, de MATHEUS LIMA, que não é pouco. MARCELA parece estar, ou melhor, está, completamente à vontade, para dirigir um trabalho tão específico como este.

ROBERTO SOUZA contribui muito, para o êxito da montagem, com seu trabalho na trilha sonora original. Tudo indica que o produto final dessa trilha tenha sido fruto de muito trabalho de pesquisa. Há vários sons que reportam a ruídos produzidos numa fábrica, pelas máquinas, além de outros igualmente interessantes e enriquecedores para a encenação.

cenografia, uma criação de ELSA ROMERO, é muito simples, entretanto bastante criativa e sugestiva, acompanhando a linha metafórica do espetáculo. Apenas dois elementos compõem o cenário: um no chão e outro aéreo. Quase ao fundo do pequeno espaço cênico, visualizamos uma sequência de tubos, de vários calibres, na cor cinza, montados, lado a lado, sobre uma estrutura de base; o conjunto lembra as chaminés de uma fábrica. De dentro desses tubos, ou neles, o ator retira ou coloca pequenos objetos, durante a peça. A cerca de um metro acima da cabeça do ator, está pendurada uma estrutura de arame, como uma tela de se fazer galinheiro, por exemplo. Ela forma uma espécie de “caixa” (Se não estou me deixando levar demais pela imaginação, no formato, ainda que grosseiro, do mapa dos Estados Unidos. Se estou “viajando” alto, por favor, PUXEM-ME PARA O CHÃO!!!), dentro da qual há dezenas de sapatos, Este elemento nos reserva uma surpresa, no final do espetáculo, embora seja bastante previsível.

Não pensem num figurino tradicional; não esperem ver o ator, um homem, de barba no rosto, com roupas de uma criança. Nada disso! CAMILA NHARY foi muito feliz na concepção do que deveria vestir o personagem: uma saia, de pontas, comprida, em couro bem maleável, marrom, da qual ele tira muito partido, durante o trabalho de interpretação, deixando-lhe o tórax desnudo. Um acerto, certamente, em conjunto com o visagismo, de MONA MAGALHÃES. Entendi a caracterização física do personagem como uma referência a um ser de qualquer gênero. Trata-se de um menino, mas poderia ser, também, uma menina. Ambos são, cruelmente, explorados por muitas indústrias espalhadas pelo mundo.

Sem muitas variações, porém todas ajustadas às cenas e feitas com a intensidade que cada uma pede, é muito bom o trabalho de iluminação, feito por ANA LUZIA DE SIMONI, a filha de um mestre, que lhe segue os passos.

Não penso duas vezes, para recomendar este espetáculo, na certeza de as minhas palavras traduzem, fielmente, a sua qualidade, a maneira como é realizado e a importância do tema, para reflexões e, se possível, tomadas de decisões, naquilo que estiver ao alcance de cada espectador.

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!
RESISTAMOS!!!
COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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