Vera Novello, atriz e autora de ‘O Choro de Pixinguinha”, avalia concorrências da Internet e de adaptações infantis

Luiz Maurício Monteiro

Vera Novello (C) com Ana Velloso, Édio Nunes, Milton Filho e Patrícia Costa Fotos: Cláudia Ribeiro/Divulgação

Em vez de princesas mais do que centenárias ou qualquer outro personagem que tenha ganhado fama mundial com os poderosos estúdios Disney, Pixinguinha! Sim, Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897-1973), carioca, um dos grandes nomes da música brasileira – especialmente do samba e do choro – foi o escolhido pela Lúdico Produções para ter sua obra contada e cantada em “O Choro de Pixinguinha”, musical infantil que estreia neste sábado (18), às 16h, no Oi Futuro Flamengo. Mas diante de tantos atrativos mais contemporâneos para os pequenos, resgatar um artista falecido há 45 anos ainda pode ser uma proposta interessante?

Num palco já conhecido por receber infantis mais originais e elaborados, “O Choro de Pixinguinha” surge como a mais recente empreitada de uma equipe que encenou nos últimos anos uma trilogia em homenagem a ritmos tipicamente brasileiros: “Bossa Novinha”, “Sambinha” e “Forró Miudinho”. Em entrevista ao RIO ENCENA, Vera Novello, que divide o palco e o texto com Ana Velloso, reconheceu a forte concorrência das intermináveis adaptações de Peter Pan, O Mágico de Oz, Frozen e afins, mas reforçou a validez de se seguir enaltecendo a cultura nacional junto ao público infantil.

— Muitas vezes, as pessoas nem sabem em quê a Disney se baseou para contar certa história. A mídia, o cinema… Tudo vem muito forte para nós. E entre uma peça baseada em princesas e outra sobre Pixinguinha, o mais desavisado vai naquela que já conhece. Claro que existe a competição, há espaço para todos, mas queremos levar às pessoas coisas que acreditamos que sejam importantes, que falem do nosso povo. Que elas possam mostrar aos filhos uma obra como a do Pixinguinha de uma forma mais lúdica — explica Vera, que contracena também com Milton Filho, Édio Nunes e Patrícia Costa.

Sob direção de Sergio Módena, o elenco – acompanhado por cinco músicos – apresenta a seguinte história: um grupo de crianças precisa apresentar na escola um trabalho sobre Pixinguinha. Em vez de uma simples redação, porém, decidem montar uma peça sobre o artista. A fim de saber mais sobre sua vida e obra, elas recorrem às pesquisas via Internet. Com isso, a montagem transforma uma outra concorrência em potencial, com seus jogos e redes sociais, num trunfo.

Pixinguinha é o primeiro homenageado de uma trilogia que ainda falar de Chiquinha Gonzaga e Nelson Cavaquinho

— A tecnologia traz facilidades. E na peça, procuramos mostrar isso com a história da pesquisa escolar. As crianças encontram sites, como o do Instituto Moreira Sales, que tem o acervo do Pixinguinha. A tecnologia nos favorece assim, mas a obra dele vai além. A gente diz que “a Internet abre o mundo, mas como vamos usá-la?” O musical não é didático, mas queremos que as crianças entendam como esta ferramenta pode ser usada — detalha Vera, completando: — Usamos o recurso do vídeo, justamente porque as crianças têm tablets e celulares. Sentimos falta de uma pitada de tecnologia e colocamos as projeções. Mas seguimos prezando o teatro e a música, que é uma união feliz. O próprio Pixinguinha compôs para teatro e viveu esta união.

Após Pixinguinha, a Lúdico pretende fechar mais uma trilogia com outros dois grandes artistas da música brasileira: Chiquinha Gonzaga (1847-1935) e Nelson Cavaquinho (1911-1986). Vera explica o critério para as escolhas:

— A obra, a riqueza, o pioneirismo, a criatividade, a inserção no meio musical e social. Tudo isso nos interessa. Chiquinha foi uma mulher à frente do seu tempo, já Nelson foi genial nas suas composições. Para nós, importante é a qualidade musical. E queremos lançar um olhar sobre estes artistas e dizer que eles estiveram aqui, porque as pessoas estão esquecendo.

“Forró Miudinho” foi uma das peças da primeira trilogia, que tinha ainda “Bossa Novinha” e “Sambinha”

Para esta nova série de musicais infantis, a equipe espera que haja mais um ponto em comum com a primeira, além da exaltação à cultura nacional. Vera relembra que, embora “Sambinha”, “Bossa Novinha” e “Forró miudinho” fossem voltados para o público mirim, não era difícil ver adultos curtindo as apresentações. A expectativa, novamente, é por ver a plateia mesclada.

— A gente pensa que quando uma peça é boa, é boa para todos. Claro que pensamos mais no público infantojuvenil, mas na outra trilogia, a gente via pais muito ligados na peça. Não tinha essa de deixar a babá levar a criança. Alguns pais viram todas as peças, porque é música brasileira. O que tinha de pai e mãe adorando ouvir… Esta ligação é forte, e a gente fisga por aí — conclui.

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