‘Urbana’ – Das grandes surpresas agradáveis que o teatro nos proporciona

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Recebo, diariamente, até mais de três convites para estreias de espetáculos teatrais e procuro atender a todos, das produções mais “badaladas”, com nomes estelares, na ficha técnica, a trabalhos bem modestos, alguns experimentais, em cartaz nos mais longínquos lugares. Faço questão de ver tudo o que posso, muitas vezes, abrindo mão de interesses particulares e à custa de um esforço hercúleo. Mas sempre o faço de muito boa vontade e com grande interesse e aguçada expectativa. O TEATRO me chama, e eu vou.

Atendendo a um convite, feito por JULIANA FELTZ (PASSARIM COMUNICAÇÃO), fui à estreia de um monólogo, no Teatro Municipal Serrador (VER SERVIÇO.), cujo título é bastante interessante e instigante, “URBANA”, assim como a sinopse, mas que, na ficha técnica, só reconhecia o nome três queridos e talentosos amigos: ROBERTO RODRIGUES, na co-direçãoJÚLIO ADRIÃO, assinando a supervisão geral do espetáculo, e FLORÊNCIA SANTANGELO, colaborando no figurino. No mais, só havia nomes de profissionais que eu não conhecia, ou não ligava os nomes às pessoas, o que me fazia um pouco cético. Será que valeria a pena um deslocamento do Recreio dos Bandeirantes ao Centro da cidade, num frio e chuvoso dia, atípico, de inverno carioca?

Sim. Valeu a pena; e muito. E a alegria que aquela peça me proporcionou, tão grande, quero dividir com quem me lê, com o firme propósito de tocá-los e convencê-los a assistir ao solo e ratificar o que direi sobre ele.

Não precisei de mais de dois minutos, para sentir que um grande espetáculo estava à minha espera. Isso se deu, tão logo a atriz GLAUCY FRAGOSO, uma ilustre desconhecida, para mim, até então, e, agora, uma ilustríssima conhecida, subisse ao palco, vindo da plateia e se comunicasse, de pronto, com o público, fazendo um meio minuto de silencio e fingindo voltar, para o lugar de onde viera, a fim de pegar algo que “esquecera”. Mas era só a primeira brincadeira com o público, que lotava o Teatro Municipal Serrador. Em seguida, ainda com o “pretexto”, ou um “pré-texto”, que se verificou, depois, desnecessário, de se fazer comunicar, consulta a plateia, para saber se poderia começar a sua “performance”.

Em menos de cinco minutos, eu já estava me sentindo hipnotizado por GLAUCY e com a plena certeza de que se tratava de uma atriz / palhaça, sem que soubesse nada de sua formação profissional. Sim, ela é palhaça, de corpo e alma, o que me faz, mais ainda respeitar e valorizar o seu trabalho, uma vez que sou apaixonado por esses artistas, os quais muito me emocionam.

Reconheci sua porção palhaça na maneira como se comporta em cena, a sua técnica de representar; na sua postura, meio desconjuntada; nos seus movimentos ágeis; na sua flexibilidade; na sua capacidade de ocupar todo o espaço cênico, completamente desprovido de elementos cenográficos; no seu olhar maroto; no brilho intenso dos seus olhinhos expressivos, que sorriem, além da boca; na sua voz trabalhada; na sua candura; no seu todo, enfim.

 

SINOPSE

 

Baseado em fatos e personagens reais, o texto aborda a humanidade do indivíduo marginalizado.

A cidade e o homem em desordem, pessoas em situações de risco e abandono, às margens da cidade, acuada por poderes paralelos, comum nos grandes centros – tudo isso está em cena.

Com ação físicatécnicas de circo e de dança, a atriz e dramaturga GLAUCY FRAGOSO questiona a normatização da barbárie e busca refletir sobre os encontros humanos, bem como suas influências ao meio que se habita.


Segundo a idealizadora do projeto, assim com autora do textodiretora do espetáculo e protagonista GLAUCY FRAGOSO‘URBANA’ narra a cidade e o indivíduo em desordem. Tem um pouco do olhar do palhaço, de se deixar afetar pelo outro e de rir do ridículo e do absurdo.”

Os vários personagens, vividos por uma só atriz em cena, são pessoas que ela encontrou pelas ruas ou são personagens reais, de relatos que lhe chegaram, por meio de amigos e conhecidos. Esses encontros “…revelaram a humanidade desses indivíduos para além da marginalização a que estão sujeitos, bem como suas influências”.

Extraído do “release”, enviado pela assessoria de imprensa“’URBANA’ é um grito de humanidade dentro da desumanizada urbanidade. A liberdade do invisível, do oprimido opressor vestido de loucura, testemunhados pelos cinco sentidos da falsa gringa frágil. Corpo que dá vez e voz ao coração dos esquecidos e indesejados. ‘URBANA’ não tem cor, credo ou gênero e está além do sotaque, pois é carioca e do mundo. ‘URBANA’ não mente. “URBANA’ é uma flor teimosa, que não desiste de ser formosa. ‘URBANA’ é GLAUCY.”, nas palavras do grande ator e diretor JÚLIO ADRIÃO, que supervisiona a montagem.

Em cena, temos a oportunidade de conferir um trabalho de mistura de linguagens, oriundo de profundas pesquisas, abarcando técnicas de circo e da dança, além da palhaçaria“Com ação física, GLAUCY apresenta uma dinâmica corporal de movimentação intensa, em que o corpo da atriz é a cidade, onde circulam os invisíveis e indesejados”. Esse aspecto do seu trabalho corporal é algo que marca a sua brilhante atuação, assim como as máscaras faciais e a expressividade que emana de seus olhos. Tudo cativa e atrai o público, o qual fica totalmente atraído pela força interpretativa da atriz.

Antes de chegar ao Rio, o solo colecionou premiações e participou de importantes eventos, como, por exemplo, para citar apenas um, a importantíssima“Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena”Tiradentes (MG), em 7 de maio de 2018.

Julgo importante que se conheça um pouco da trajetória de GLAUCY FRAGOSO, um nome que, em breve, certamente, ocupará um lugar de destaque na mídia. Ela é atrizpalhaça e acrobata circense, de Santa Catarina, radicada no Rio de Janeiro. Desde 2010, atua na arte de rua, com espetáculos e cenas autorais de circo e teatro, em locais públicos da cidade do Rio de Janeiro. Atuou em espetáculos de artes integradas (teatro-dança-circo) do circuito profissional das artes cênicas do RJ e de SP, como as montagens “Veracidade”“Sonhos”“Lua Gigante” e “Passos e Oceano”, apresentando-se por onze estados brasileiros.Dirigiu o processo criativo do espetáculo “In Versus”, na Escola Nacional de Circo/FUNARTE, com vinte alunos formandos da entidade. É formada pela ESLIPA – Escola Livre de Palhaços do Grupo Off-Sina (RJ), onde desenvolve o trabalho de palhaçaria em áreas de extrema precariedade da cidade do Rio de JaneiroGLAUCYcomeçou no teatro amador de Santa Catarina, veio para o Rio de Janeiro, estudar TEATRO, e, na sua formação de atriz e circense, passou por grupos e escolas, como “Nós do Morro”“Circo Crescer e Viver”“Intrépida Trupe”“Escola Nacional de Circo”“Cia Brasileira de Mystérios” e “Novidades”, dentre outras.

espetáculo é uma prova de que é possível, com muito sacrifício e determinação, correndo atrás de um sonho, fazer TEATRO de alta qualidade com parcos recursos e nenhum patrocínio ou apoio, a não ser contando com a colaboração de amigos que acreditam num bom projeto. Foi assim que “URBANA” se concretizou.

texto é muito bom e chega, facilmente, a qualquer tipo de espectador, do mais ilustrado ao menos informado. Ainda que classificado como “drama”, este é tratado com muitas e muitas ótimas pinceladas de um excelente humor. As primeiras gargalhadas surgem, quando GLAUCY resolve falar de seu gosto pelos atrasos, tudo reforçado por “justificativas” hilárias. Depois, é a vez de, ainda utilizando o humor, porém com seu toque crítico, mostrar a transformação de um local paradisíaco numa “urbis” infernal, a natureza cedendo lugar à selva de pedra. A cena em que é narrado o roubo de uma bicicleta também provoca muitas gargalhadas, assim como a reprodução de uma “feira”, onde o comércio de drogas é livre. A plateia se diverte, à farta, durante a cena em que a personagem espera um ônibus, num local ermo, onde reinam a violência e a periculosidade, e um local tenta persuadi-la a não ficar ali “dando bobeira”, para não ser assaltada ou violentada. Funcionam muito bem os momentos em que a personagem quebra a dramaticidade da cena para brincar com a plateia. É uma maneira de amenizar a tensão e fazer com que pensemos e reflitamos sobre todas aquelas situações com as quais, inevitavelmente, convivemos no dia a dia.

atuação de GLAUCY é digna de todos os elogios, por ser correta e criativa. Seu domínio de corpo, suas expressões, corporal e facial, chamam a atenção no seu trabalho, bem como sua invejável resistência física. Visceral!!!

Não há cenário; e nem precisa. O palco nu é preenchido totalmente pela presença da atriz.

luz, de GUINGA ENZÁ, não apresenta muitas variações, o que seria, mesmo desnecessário. A luz própria de GLAUCY ilumina tudo.

figurino, criação da própria GLAUCY, contando com a colaboração de FLORÊNCIA SANTANGELO, é bem interessante. Simples: um “short”, de lamê preto, ou algo parecido, uma camiseta cinza, tipo regata, e a peça mais importante, que é uma blusa de manga comprida, preta, feita com uma malha elástica, que serve, durante a encenação, de apoio para a interpretação; abusando, um pouco, do exagero, um personagem. Ela a retira do corpo e volta a vesti-la e faz dela usos os mais diversos, na composição dos personagens e das cenas. Uma ótima sacada da direção.

“URBANA”, sem a menor dúvida, é uma das melhores surpresas teatrais que apareceram, no Rio de Janeiro, neste ano de 2018, e merece ser vista por quem aprecia um bom trabalho de TEATRO.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE BOM NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE