‘Uma Peça Para Dois’ sofre com a complexidade do texto de Tennesse Williams e sucumbe à verborragia

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Maison de France, “Uma Peça Para Dois” sofre com a complexidade do texto de Tennesse Williams. O que poderia tornar-se belo, uma homenagem poética do autor americano ao teatro, acaba fazendo com que o espetáculo gire em círculos e, o que é pior, perca completamente seu ritmo.

A história gira em torno de um casal de irmãos, atores, colegas dentro da mesma companhia de teatro. Esta companhia, contudo, abandona os dois, que então decidem se apresentar sozinhos em uma casa. Nada é muito claro dentro do texto de Tennesse, sejam os personagens, seja o mundo que os cerca, a cidade, a companhia, a história pregressa… E mesmo a história que vivem durante a trama: não sabemos até que ponto ela pertence aos próprios personagens ou à peça que eles decidiram encenar (uma peça dentro da peça).

O cenário de José Dias mistura os dois mundos ficcionais de forma muito clara, com elementos como uma arara de roupas, que sugere a ideia de um camarim, e um piano, cortinas, e certa “desarrumação” que sugerem um ambiente mais aconchegante, privado.

Os figurinos de Claudio Tovar também assumem este lugar da dúvida, da referência dupla, do acúmulo de duas realidades, a dos personagens e a da peça que eles representam.

A iluminação de Aurelio de Simoni é o que norteia o espetáculo, pois é o elemento que consegue, dinamicamente, mostrar ao espectador as variações que a peça percorre, não só entre os mundos mas dos próprios personagens, que sofrem de uma claustrofobia não tematizada pelo cenário e que não fica clara através dos atores. Uma imagem fundamental, por exemplo, é a porta que separa a casa do mundo externo, pois ela representa o limite (concreto e psicológico) que os personagens se recusam a cruzar. Esta distinção interior/exterior instaura-se apenas com a iluminação.

Os atores Carla Nagel e André Murta, por fim, focam na valorização de cada palavra do texto, o que é importante, sem dúvida, mas em uma peça longa para os padrões atuais (cerca de 1:50min), que se dá inteira num mesmo ambiente e que enfoca uma ideia de estagnação, o resultado acaba ficando monocromático ao extremo. As nuances são mínimas, e sem elas não há conteúdo que segure a falta de um enredo dinâmico.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para: pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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