‘Ubu Rei’ tem atuação de Marco Nanini como um de seus méritos, mas se perde em busca pela graça o tempo todo

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

O clássico teatral de Alfred Jarry, “Ubu Rei”, de 1896, é para o crítico Martin Esslin (1918-2002) o “prólogo” do que ele denominou“Teatro do Absurdo”, gênero cujos dramaturgos de referência (Samuel Beckett, Arthur Adamov, Jean Genet e Eugène Ionesco, entre outros) atuam sobretudo a partir dos anos 1940, portanto mais de 40 anos depois da peça de Jarry.

O texto traz um tirano em busca incansável pelo poder. Esta busca não tem preço, e o caráter “nonsense” (sem sentido, em tradução literal) é acentuado pelo aspecto grotesco de seu protagonista, o “Pai Ubu”. Bruto, perverso, sem educação, sem respeito por qualquer um à sua volta, nem mesmo por sua mulher, principal cúmplice e arquiteta de sua escalada ao poder. Um “ogro”, como diríamos hoje.

A montagem, em cartaz no Oi Casa Grande, parece ter gostado bastante do caráter nonsense do texto, optando por ampliá-lo para elementos da cena, como o cenário: genitálias imensas descem do teto do teatro para compor os diversos ambientes da trama. Também há “atualizações” em vários momentos da peça: piadas com celulares, gírias contemporâneas, etc…

Estes elementos aparecem para mim sem qualquer justificativa dentro da montagem. Não é um espetáculo que “atualiza” o célebre texto de Jarry. Não é um “Ubu Rei de hoje”, por exemplo. A peça se desenvolve toda na Polônia, como uma briga pelo reinado, etc. Também não entendi o que órgãos sexuais têm a ver com a peça de Jarry, que não tem foco nenhum em sexualidade (ainda que seu protagonista seja machista, misógino, etc.). O que consigo depurar de certas escolhas é a busca pelo cômico através de coisas absurdas (como celulares em uma trama medieval ou vaginas enfeitando cômodos reais).

Na outra vertente do que a peça traz como busca “sem preço e sem sentido” (e, desta forma, semelhante à obra de Jarry) pela graça, existem elementos que parecem se encaixar como uma luva na estética de “Ubu Rei”: o figurino e a atuação de Marco Nanini. Ambos carregam um absurdo em si, que transborda um tempo ou um contexto específicos.

Os figurinos parecem uma colcha de retalhos formada por referências de lugares e tempos tão distintos que é impossível definir. Vemos palhaços, vemos a cultura afro, vemos o feudalismo. É de fato uma indumentária própria para aquela incoerência, daquele lugar indefinido, sem perspectivas, fora do tempo. Muito bom!

A atuação de Nanini – que está comemorando 50 anos de carreira –  colore tudo o que foi dito até aqui com uma perversidade que emerge com naturalidade, e isto é o que existe de mais violento: o “Pai Ubu” em nenhum momento questiona seus atos, se arrepende de nada, em nenhum momento julga nada do que faz como demasiado ou minimamente desnecessário. Não há nada mais violento do que a naturalidade ao lidar com a violência. E Nanini imprime esta naturalidade. Não só na faceta perversa, mas também na grotesca, do “Pai Ubu”.

Com todos os méritos de encenar “Ubu Rei” hoje, como um espelho do absurdo do mundo em que vivemos, fica a dúvida do porquê de certas escolhas cênicas tão dissonantes da obra de Jarry.

Um abraço e até domingo que vem!

Dúvidas, críticas e sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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