‘Tudo o que há Flora’ – Vendo o espetáculo, a alegria aflora!

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Seria estranho dizer que alguém consegue produzir humor sobre a solidão. O que há de engraçado nesse sentimento? Nunca nos esqueçamos, porém, de que, como já dizia o saudoso compositor Billy Blanco, “O que dá pra rir dá pra chorar. Questão só de peso e medida”.

É preciso assistir ao espetáculo “TUDO O QUE HÁ FLORA”, no Teatro Ipanema, para entender o que eu disse acima. Você há de rir, e muito, assistindo à peça, porém não pode se limitar a isso. É preciso entender que o que se está vendo, na verdade, pode “não estar acontecendo”; que o que parece ser pode “não ser”; que, acima de tudo, faz-se necessária uma reflexão sobre o que provocou o riso.

Um grupo jovem, e ousado, no melhor sentido da palavra, corajoso, o grupo “NOSSA! CIA DE ATORES”, é o responsável por tal “disparate” e façanha: fazer rir da solidão. Ou por causa dela.

Trata-se da primeira produção do grupo, que escolheu um texto muito bem escrito, a primeira obra dramatúrgica, da jovem LUIZA PRADO, a qual lhe rendeu o título de melhor autora, no “5º Prêmio Botequim Cultural” (2016), e que está agradando muito aos que já assistiram ao espetáculo, como eu (três vezes).

                                                                                        SINOPSE

FLORA (LEILA SAVARY) espera, ansiosamente, a chegada do marido, ARMANDO (RAINER CADETE), para o almoço.

A fixação por arroz faz com que o cardápio da casa seja monotemático. Quando não é dia do tradicional arroz de forno, as opções variam entre o arroz à piamontese, o arroz com feijão e o arroz de pato. A demora do marido ainda traz à tona aquela ingênua ansiedade. Nada como os privilégios de um casal apaixonado.

Quando a rotina parece cumprir o seu papel, o inesperado irrompe pela porta. Uma perseguição leva dois sujeitos a invadirem o seu apartamento.

Diante da iminente chegada do marido e da presença de dois homens em sua casa, FLORA precisa reviver um silêncio, que ela insiste em tentar esquecer.

Será que tudo o que se evita, naquele apartamento, é tão nocivo e traiçoeiro assim?

Paradoxalmente, a “aldeia global”, termo cunhado por Herbert Marshal McLuhan, o destacado educador canadense, intelectual, filósofo e teórico da comunicação, para designar o planeta Terra, prevendo o fenômeno da globalização, aproxima as pessoas, mais e mais, por intermédio da tecnologia e das ferramentas das chamadas redes sociais, entretanto leva essas mesmas pessoas a um ato recluso de “ensimesmamento / ensimesmação”, uma espécie de primo-irmão da solidão, tema da peça em tela.

Ratificando o que disse e me apropriando do “release” da peça, enviado pela assessoria de imprensa, “Enquanto a internet encurta distâncias, em plena era das redes sociais, e cria uma imensa e, até há pouco tempo, inimaginável malha de conexões interpessoais, a solidão e a incomunicabilidade estão, paradoxalmente, cada vez mais presentes no mundo contemporâneo. Esse é o ponto de partida de “TUDO O QUE HÁ FORA”, que tanto desafia a “lógica” das relações humanas.

A ideia e a carpintaria do texto são de uma felicidade incrível, fruto de uma mente privilegiada da dramaturga, que estreia com o pé direito. O que não falta, no texto, são criatividade e surpresas.

E como ele surgiu? Segundo a própria LUIZA PRADO, que já escrevia, e ainda escreve, roteiros para a televisão e o cinema, há quase três anos, a experiência da escritura desta peça é a concretização de uma grande paixão, que sempre teve: a de escrever para TEATRO. O processo se deu da seguinte forma: “Os meninos me chamaram, para escrever uma peça, para eles, a partir de umas ideias soltas, depois de ler um conto do avô do LUCAS DRUMOND, um dos atores do espetáculo, em 2014, que falava sobre uma mulher solitária, que esperava pelo marido. (O conto se chama “Dora, Uma Mulher Sem Sorte”. O avô do LUCAS é Théo Drummond, jornalista.) A partir disso, fiz uma primeira versão e tivemos encontros, para discutir o de que eles gostavam, o de que não gostavam, e eu voltava, para seguir com o texto. Quando o DANIEL HERZ entrou no processo (…), ele me pediu mudanças! E eu, como sou super ansiosa e rápida, praticamente, reescrevi a peça em quatro dias. E, com as novas propostas que levei, já estávamos bem próximos do que temos hoje. Fomos apenas, durante o, ensaio, lapidando, vendo o que funcionava, o que não funcionava. Acompanhar o processo todo de ensaio foi essencial, para enxergar o que ainda precisa de reforço dramatúrgico, quais piadas funcionavam, em quais momentos era preciso ‘absurdar’ ou ‘desabsurdar’, entender qual trama ainda podia ganhar mais potencial e amarrar todas as pontas que ainda tinham ficado soltas”.

Não há a menor dúvida de que o processo deu certo. Além de dinâmico, o texto é recheado de um humor inteligente, com “tiradas” surrealistas, de puro “nonsense”, filhote do “Teatro do Absurdo”, em pleno século XXI, com “subversões” hilárias de alguns provérbios e frases feitas, do imaginário popular, emprego “inoportuno” de alguns termos (troca de um por outro), provocando a inversão de valores, tudo isso resultando num espetáculo leve e bastante divertido, muito também em função da agilidade nos diálogos. Mas sem perder a seriedade, que está nas entrelinhas.

De acordo com LUCAS DRUMMOND, “FLORA é uma dona de casa, que cumpre um ritual diário, enquanto espera o marido para o almoço. O que poderia ser a história de amor de um casal feliz, aos poucos, revela um lado sombrio”.

LEILA SAVARY acrescenta: “Queríamos falar sobre como as pessoas conversam, mas não se escutam e, muitas vezes, vivem em uma aparente normalidade, que nunca existiu, tentando esconder a solidão e suas imperfeições”.

Arremata THIAGO MARINHO, o terceiro elemento fundador da companhia (RAINER CADETE, o quarto em cena, atua como ator convidado dos três): “Para contar essa história, os três pensamos em seguir uma linha tragicômica. Procuramos uma linguagem que fosse, ao mesmo tempo, engraçada e que provocasse reflexão. Foi assim que chegamos ao TEATRO do ‘absurdo’, com seus jogos de palavras e humor nonsense”.

Por algumas vezes, os atores falam da existência das ações “entre três paredes”, o que, para o público em geral, passa como um fato qualquer. Para os iniciados em TEATRO, entretanto, fica bem clara a intenção do texto – leia-se “da dramaturga” -, que é a de mostrar que os personagens têm consciência da total quebra da “quarta parede”, aquela invisível, por meio da qual o público percebe as ações, tem acesso aos fatos. É como se tudo tivesse de acontecer dentro de uma caixa, fechada, com “quatro paredes”, porém, intencionalmente, existe a demolição de uma delas, permitindo que a plateia assista, teoricamente, de forma passiva, à trama, evitando mexer-se e, supostamente, sem se deixar envolver, emocionalmente, com os atores, o que, convenhamos, é difícil acontecer. A “quarta parede” é apenas imaginária, para os atores, que a têm como elemento que evite sua desconcentração. Neste espetáculo, é impossível evitar a quebra da “quarta parede”, o que encoraja a plateia a assistir à peça de forma mais crítica, inserindo-se na trama, identificando-se com os personagens e, consequentemente, refletindo sobre o que viu.

DANIEL HERZ, assina a direção, com a sua marca de competência, já tão conhecida do público amante e conhecedor de TEATRO. Toda a ação se passa num exíguo espaço cênico (o cenário é uma atração à parte e será comentado mais tarde), dentro de uma ambientação caótica e claustrofóbica. A direção conduz o texto por uma linha tênue, entre o ser e o parecer, contando, para isso, com a brilhante interpretação de um quarteto de atores: LEILA SAVARY (FLORA), RAINER CADETE (ARMANDO, o marido) LUCAS DRUMMOND e THIAGO MARINHO (os dois amantes, irmãos, anônimos).

A direção amplia o dinamismo do texto e produz cenas rápidas, ágeis e muito bem construídas, em termos de marcações, levando-se em conta, reitero, o restrito espaço para os atores agirem.

Não há como destacar a atuação de ninguém, no magnífico trabalho de interpretação do quarteto. Todos, a despeito da pouca idade, iniciaram bem cedo seus estudos em TEATRO, com excelentes mestres – e continuam estudando, como deve ser mesmo -, já atuaram em vários espetáculos de sucesso, o que lhes concede experiência e os credencia a subir ao palco (ou embaixo dele) e dar o seu recado, de forma irretocável. Parabéns aos quatro!!!

Quando adentrei o teatro e me deparei com o cenário da peça, fiquei completamente apaixonado por aquela visão, em primeiro lugar, tão provocativa, instigante, que dá margem a muitas especulações, com relação às surpresas que desfilarão pela peça. É fantástica a obra de FERNANDO MELLO DA COSTA e nenhuma palavra conseguiria descrevê-la, a não ser que o cenário permite ações em dois ambientes, um deles totalmente definido – a sala de uma casa simples – e o outro escandalosamente “à deriva”, servindo à imaginação dos espectadores, ainda que pareça ser um porão ou andar inferior de uma casa. Mas não é. É o que queiramos que ele seja. Nada melhor que vê-lo, “in loco”, para assimilá-lo como uma obra-prima da cenografia. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos do cenógrafo. Poucos elementos cênicos, entre eles três bancos giratórios e três buracos no chão, por onde os personagens entram e saem e que levam a um “porão”, repleto de eletrodomésticos, caoticamente amontoados.

A ótima cenografia dialoga, o tempo inteiro de ação, com a magnífica iluminação, do mestre AURÉLIO DE SIMONI. Ou vice-versa. Há muitas variações de luz, exigidas pelo texto e sacramentadas pela direção, com o devido aval criativo de AURÉLIO. Focos pontuais e muito rápidos acompanham a dinâmica da ação cênica.

Os figurinos, de Antônio Guedes, cumprem o seu papel, sem maiores detalhes, são bem adequados aos personagens, e a trilha original, de Pablo Paleólogo, também é bastante interessante.

Um espetáculo que tem de ser visto por quem gosta do bom TEATRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.