‘Traga-me a Cabeça de Lima Barreto’ – Documento ficcional de excelente qualidade

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

De uma cabeça privilegiada, saiu uma ideia, que entrou em outra cabeça, igualmente fértil, a qual lhe deu forma. E, do abstrato, fez-se o concreto, num palco de TEATROE que “concreto”!

A ideia, uma ficção, veio do consagrado ator, autor, diretor, produtor, iluminador, um “faz-tudo”, em TEATROHÍLTON COBRA, que teve, em LUIZ MARFUZ, o arquiteto de um belo texto, concretizado, no solo “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto”, pelo próprio COBRA.

Assisti ao espetáculo com uma expectativa “x” e saí de lá totalmente encantado com o monólogo, carregando muitos “x”, além da minha expectativa.

A ideia é excelente; o texto, brilhante, assim como a atuação do ator, muito bem dirigido por FERNANDA JÚLIA.

A temática, infelizmente, ainda é bastante atual, pois trata de racismo, discriminação racial; aqui, ela é fortemente ampliada, pela teoria da eugenia, uma falsa ciência, surgida à época em que viveu o grande escritor brasileiro, orgulho da nossa literatura, LIMA BARRETO (1881-1922), negro, “pisoteado, sem o devido reconhecimento de sua inovadora obra literária, em vida” (HILTON COBRA).

“A eugenia (ou eugenismo) é um termo criado, em 1883, por Francis Galton (1822-1911), significando ‘bem nascido’Galton definiu “eugenia” como ‘o estudo dos agentes, sob o controle social, que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente’.

O tema é bastante controverso, particularmente após o surgimento da eugenia nazista’, que veio a ser parte fundamental da estúpida ideologia de ‘pureza racial’, a qual culminou no Holocausto, promovido pelo sanguinário criminoso Adolf Hitler.

Mesmo com a, cada vez maior, utilização de técnicas de melhoramento genético, usadas, atualmente, em plantas e animais, ainda existem questionamentos éticos quanto a seu uso com seres humanos, chegando até o ponto de alguns cientistas declararem que é, de fato, impossível mudar a natureza humana.

Desde seu surgimento, no final do século XVIII, até os dias atuais, muitos historiadores, filósofos e sociólogos declaram que existem diversos problemas éticos sérios na eugenia, como a discriminação de pessoas por categorias (…).” (Wikpédia, com adaptações.)

Muito mais do que isso, trata-se de algo ignóbil, vil, desprovido de qualquer noção de respeito à dignidade do ser humano.

Os ocorridos encenados não são verídicos, mas bem poderiam ter sido. Só o fato de se imaginá-los como uma verdade já nos indigna, da mesma forma como o teor das frases projetadas, durante o espetáculo, retiradas de publicações de eugenistas, os quais tiveram a insensatez, para dizer o mínimo, de considerar a raça negra como inferior.

 

SINOPSE

 

Partindo de um texto fictício, logo após a morte de LIMA BARRETO, os eugenistas exigem a exumação do seu cadáver, para uma autópsia, a fim de esclarecer “como um cérebro inferior poderia ter produzido tantas obras literárias – romances, crônicas, contos, ensaios e outros alfarrábios – se o privilégio da arte nobre e da boa escrita é das raças superiores?”

É a partir desse argumento que se desenvolve o espetáculo, com LIMA se defendendo de tal infâmia e, ao mesmo tempo, num tom de deboche, destilando, de forma bem sarcástica, seu veneno contra os opressores, dizendo-lhes o óbvio: a cor da pele é apenas um detalhe racial, genético, que diferencia um ser humano do outro, apenas em termos de raça, igualando-os, porém, na condição de seres humanos.

A partir desse embate com os eugenistas, a peça mostra as várias facetas da personalidade e da genialidade de LIMA BARRETO: sua vida, a família, a loucura, o alcoolismo, sua convivência com a pobreza, sua obra não reconhecida, o racismo, suas lembranças e tristezas…


Com este belo espetáculo, HÍLTON COBRA celebra os 135 anos do nascimento de Lima Barreto, os 15 anos da Cia dos Comuns, fundada por ele, e os 40 anos de carreira artística. O espetáculo pode ser, portanto, resumido como uma bela e merecida celebração.

De acordo com o “release” da peça, enviado por MÁRCIA VILELLA (TARGET ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO)“LIMA BARRETO definia sua obra como ‘militante’. Sua produção literária está, quase inteiramente, voltada para a investigação das desigualdades sociais, da hipocrisia. É justamente essa vocação (‘arte militante’) que aproxima COBRA de LIMA BARRETO”, com o que concordo plenamente. Ali, sob os refletores e expondo-se aos olhos e ouvidos críticos de seus espectadores, COBRA se mostra um grande militante da causa negra. Mais que isso, da causa antieugenística; mais ainda, da tolerância, em todas as suas manifestações.

“Hoje, discutir racismo, através de um autor, como LIMA, no TEATRO, é dar uma contribuição extraordinária para esse tema. Também é um carinho que queremos fazer com LIMA BARRETO – um autor tão pisoteado, tão injustiçado, que pensou tão bem esse Brasil, abriu, na literatura brasileira, ‘a sua pátria estética’ (os pisoteados, ou loucos, os privados de liberdade – esses são os personagens de LIMA BARRETO).”, explica COBRA.

O trabalho é apresentado, oficialmente, como um “projeto artístico-investigativo-formativo”, para o que não é necessária qualquer explicação. Basta assistir a ele. Ainda propõe uma imersão na contribuição da obra do provocativo escritor e, certamente, faz com que cada espectador deixe aquela Sala mexido e pronto a mergulhar num mar de reflexões.

texto é genial, mesclando ineditismo com frases de eugenistas e do próprio LIMA BARRETO. Tudo o que é dito se encadeia muito bem e se apresenta de uma forma meio didática, porém não enfadonha; muito ao contrário, é dinâmico, valorizado pela magnífica e irrepreensível atuação de HÍLTON COBRA, um ator de grandes possibilidades técnicas, que, parecendo imantado, atrai os espectadores, desde sua entrada triunfal em cena, e mantém essa atração até o apagar do último refletor. Dono de um carisma, de um talento e de uma gigantesca presença de palco, HÍLTON nos brinda com uma atuação inesquecível, um convite a voltar àquele espaço, para aplaudi-lo mais e mais…

FERNANDA JÚLIA, do NATA (Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas), assina uma direção brilhante. É ela quem diz, no já citado “release”“O diálogo crítico e politizado sobre negritude é um disparador potente do fazer cênico do NATA. Esses elementos foram fundamentais, para que eu percebesse quais caminhos trilhar, na construção do espetáculo. Sou uma provocadora e problematizadora, por natureza, e acho que a encenação deve seguir este caminho – provocar a reflexão e problematizar o que está posto. São dois caminhos que sigo e que fundamentam minhas escolhas poéticas e estéticas. Sou uma encenadora negra e afirmativa, desejo sempre colocar, em cena, a beleza, a grandiosidade e as vitórias do meu povo.” Quem for assistir ao espetáculo há de encontrar tudo isso no trabalho de FERNANDA.

Outros elementos contribuem para o sucesso da encenação, como o cenário, simples, mas muito interessante, a serviço do espetáculo, de MÁRCIO MEIRELES; a acertada luz, do grande mestre JORGINHO DE CARVALHO; o simples, despojado e belo figurino, de BIZA VIANNA; a direção de movimento, assinada por ZEBRINHA, e a excelente direção musical, a cargo de JARBAS BITTENCOURT.

Recomendo, com empenho, este espetáculo e espero poder encontrar uma oportunidade de revê-lo, tal foi meu encantamento por ele.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A MAIOR DIVULGAÇÃO DO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE