Tonico Pereira comemora 50 anos de carreira estreando seu primeiro monólogo e admite: ‘Uma apreensão só’

Luiz Maurício Monteiro

Tonico interpreta Sócrates sendo julgado por ter ideias contrárias à sociedade e à religião

Se Tonico Pereira fosse um bolo, a receita seria mais ou menos assim: uma porção de simplicidade somada a uma generosa dose de sinceridade, autocrítica a gosto e 0% de glamour. Esta foi a impressão que o próprio ator deixou nessa entrevista ao RIO ENCENA para falar sobre “O Julgamento de Sócrates”, o primeiro monólogo dos seus 50 anos de carreira recém-celebrados, com estreia marcada para sexta-feira (03/11), às 20h, no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema.

No bate-papo, o primeiro ingrediente daquela receita que ficou claro foi a sinceridade. Sobre o convite de Ivan Fernandes – que assina a direção e o texto livremente inspirado na obra do filósofo grego Platão – para encarar o desafio do primeiro solo da carreira, Tonico admite:

– Fiquei numa apreensão só. Porque nem sou ideologicamente chegado a monólogos, sou mais do diálogo – diz Tonico, de 69 anos, natural de Campos dos Goytacazes, que contribuiu com Ivan na direção.

Presente no imaginário popular como o fanfarrão Mendonça, de “A Grande Família”, o ator faz em “O Julgamento de Sócrates” um trabalho que pode surpreender a muita gente. Mas não a ele próprio! No palco, o ator interpreta o próprio filósofo do título se defendendo das acusações de ter ideias diferentes daquelas estabelecidas pela sociedade e pela religião. Sempre procurando interagir com a plateia – por ser mais do diálogo – ele traz essa situação do personagem para a realidade de hoje, desempenhando um trabalho bem diferente daquele da série da TV Globo.

– Fiz vários personagens, inclusive no teatro, não ligados à comédia. As pessoas associam, mas não é uma especificação na minha carreira – destaca o ator, que há bem pouco tempo estava no ar, na TV Globo, como o Abel da novela “A Força do Querer”.

Já a cereja do bolo, ou melhor, o encerramento da entrevista, que está na íntegra abaixo, Tonico contemplou com muita simplicidade. Ao falar sobre sonhos, ele não titubeou:

– Meu sonho é a sobrevivência!

Este é o primeiro solo do experiente ator Foto: Victor Pollak/Divulgação

Como é chegar a 50 anos de carreira encarando seu primeiro solo?
Fiquei numa apreensão só. Porque nem sou ideologicamente chegado a monólogos, sou mais do diálogo. Mas vou estabelecer um diálogo com a plateia. Assim faço meu monólogo.

Mas partiu de você encarar esse desafio?
Nunca quis fazer. Foi convite do Ivan e do Caio (Bucker, diretor de produção). Aceitei até mesmo porque num monólogo, eu posso errar que ninguém vai reclamar. Não sei mesmo porque me escolheram. Mas eu venho me descobrindo meio “socratiano”. Talvez seja isso.

Se identifica com Sócrates?
Falo do método, porque sou uma pessoa sem ilustração acadêmica, não li nada demais, quase nada. E ele nunca escreveu nada. Meu legado foi dado por velhos, adoro velhos, desde criança. Meus amigos não tinham minha idade, era o sapateiro do bairro, o barbeiro. Com 14 anos, tinha amigos advogados. Essa é a cultura que me foi introjetada. Essas foram as pessoas importantes para a minha formação oralística. Gosto dessa experiência, dessa troca de vida, porque o idoso é sábio, além de ter um manancial de raciocínio incrivelmente capaz de receber da criança também, o que torna a relação enriquecedora.

O grande público te vê ligado à comédia, pelo Mendonça, mas esse é um trabalho bem diferente.
Fiz vários personagens, inclusive no teatro, não ligados à comédia. As pessoas associam, mas não é uma especificação na minha carreira. Atendo e gosto de fazer tudo, principalmente no viés da tragicomédia, aí sim é a minha linha. O personagem fala, e eu ponho isso de forma atual, porque Sócrates fez uma obra para todo e qualquer tempo. Eu coloco como se fosse um crítico dos governos de hoje. Tento atualizar e dar a visão dele para o que acontece agora.

Você vem de uma novela, de outra peça, “Os Sete Gatinhos”, e de ensaios para “O Julgamento de Sócrates”. Como deu conta dessa maratona?
É mais do que uma maratona. Fazer uma dessas coisas separadamente, já seria uma maratona. Ainda fiz dois curtas e estou me preparando para um outro nessa semana em Goiás. Então é uma loucura! Mas eu tenho uma coisa para mim: eu posso estar morto, mas se me jogarem em cena, sou capaz de ressuscitar e atuar. É um grande remédio para mim, me eletrizo, tomo atitudes que o Tonico não tomaria. Estou aqui morto de cansado, mas quando entrar em cena, terei a certeza de que estarei vivo.

E os ensaios para esse monólogo?
Ensaiamos pouco. Eu não decoro o texto. Preciso é de um entendimento do que está ali. Não adianta decorar, porque se eu decorar sem ter esse entendimento, estarei fazendo uma grande merda.

Para encerrar, fale um pouco mais desses 50 anos de carreira.
Nunca tive sonho de ser ator. O sonho que eu precisava que se tornasse realidade é sobreviver. Sou oriundo de uma família pobre, não tenho nenhuma afinidade com glamourização, nem porra nenhuma. Meu sonho mesmo era a sobrevivência.