‘Tive essa preocupação’, admite Isaac Bernat, diretor branco à frente de espetáculo sobre racismo

Luiz Maurício Monteiro

Rodrigo (E) e Izak com o assistente de direção musical João Loroza e o ator Drayson Menezzes (Kaleidoskópica)

O título fala por si só: “O Encontro – Martin Luther King e Malcolm X” promove um cara-a-cara fictício entre dois dos maiores nomes da história quando o assunto é luta contra o racismo. Entretanto, o drama, que tem estreia marcada para essa quinta-feira (04), às 19h, no Teatro Sesi Centro, trata do preconceito contra o negro através da direção de um… branco. Responsável, ao lado de Aline Mohamad, por encenar no Brasil o texto do norte -americano Jeff  Stetson, Isaac Bernat admite uma preocupação permanente com a repercussão do trabalho. E tal pensamento é justificável, afinal, muitas vezes hoje em dia hoje em dia, há um patrulhamento severo nas redes sociais, muitas vezes acompanhado de uma generosa dose de intolerância.

É certo que Isaac apenas dirige e não sobe ao palco para viver um negro, mas o recente caso de Fabiana Cozza serve de exemplo. Anunciada em maio como intérprete de Dona Ivone Lara (1921-2018) no musical sobre a trajetória da sambista, a atriz e cantora, que fora indicada pela própria família da homenageada e se apresentara com a própria algumas vezes, foi alvo de críticas nas redes, principalmente por parte de membros de movimentos negros. O motivo: seu tom de pele mais claro do que o de Dona Ivone, mesmo ela se declarando negra. Após a polêmica, Fabiana deixou o papel.

— Vejo da mesma forma como se fosse um diretor negro dirigindo um espetáculo sobre preconceito contra judeus, muçulmanos…  Mas eu tenho aprendido muito sobre racismo, nos ensaios falamos sobre isso… Não houve problema, pelo contrário, foi tranquilo. Mas eu tive essa preocupação e vou continuar tendo — confessa o diretor, de 57 anos, em entrevista ao RIO ENCENA.

Sob a direção de Bernat, estão os protagonistas Izak Dahora e Rodrigo França, intérpretes, respectivamente, de Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), assassinados nos anos 60, ambos aos 39 anos, devido à causa que defendiam. No texto de Stetson, traduzido por Rogério Corrêa, e com direção musical de Serjão Loroza, os icônicos personagens representam não só a militância pela causa negra, mas também suas próprias essências como seres humanos. Esta, aliás, é uma razão para Isaac ter votado por uma versão fiel à peça original – muito premiada nos EUA – e também acreditar num público heterogêneo na plateia, outras questões tratadas no bate-papo abaixo.

Vocês fizeram alguma adaptação para a realidade do Brasil ou procuraram ser fiéis o máximo possível ao texto original?
Fiéis o máximo possível. A peça se passa no (bairro) Harlem, nos anos 60, perto da época da morte do Malcolm. Não faria sentido adaptar, porque os personagens são reais. Eles existiram e ainda existem na memória de todos. É claro que tem a reverberação para nós do Brasil, porque o racismo aqui continua existindo. Há essa relação muito clara, mas preferimos não fazer nenhum tipo de adaptação.

Isaac é um dos idealizadores da peça Foto: Reprodução/Facebook

Dizem que só quem sofre preconceito tem base para falar sobre preconceito. Como você, sendo branco, se sente ao dirigir uma peça sobre racismo? Confortável, seguro?
Vejo da mesma forma como se fosse um diretor negro dirigindo um espetáculo sobre preconceito contra judeus, muçulmanos… Este texto me foi apresentado pelo Gustavo Aliani, diretor da CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), onde dou aulas. Eu gostei e conversei com a Aline Mohamad , que é negra, e decidimos fazer. Então, não me chamaram para este projeto, eu é que tive a ideia. E talvez ele nem acontecesse se não fosse esse movimento. Mas eu tenho aprendido muito sobre racismo, nos ensaios falamos sobre isso… É claro que quem sofre, sabe mais, quem entra numa loja, e as pessoas ficam olhando, achando que vai acontecer algo. É evidente que o branco não tem noção na pele do que é racismo, mas eu, por exemplo, sou judeu. E, sem querer comparar, vivi na infância, de alguma maneira, o preconceito. Acho a sua pergunta muito pertinente, porque a peça tem o lugar da fala e da escuta, e eu escutei bastante as falas dos envolvidos negros. Isso me ajudou a entender ainda mais a questão. Então, acho que é possível, sim, um branco dirigir uma peça que fala sobre racismo. Não houve problema, pelo contrário, foi tranquilo. Mas eu tive essa preocupação e vou continuar tendo.

Você é um dos idealizadores da peça. O que te motivou a trazer esse texto para o Brasil?
É um tema muito importante. O racismo é uma doença, um mal que assola a humanidade. O preconceito tem que acabar, porque existem jovens morrendo por serem negros. Politicamente, para mim, é importante falar disso. É uma contribuição minha. E o texto, que é perfeito na minha opinião, fala de dois homens iluminados. E é importante as pessoas conhecerem, principalmente o Malcolm. O Martin é mais conhecido, mas o Malcolm, que muitos podem achar violento, contribuiu demais para alertar o mundo sobre essa questão. A discussão interessa a todo mundo. É importante para humanidade, não só negros, mas brancos também.

E que público vocês esperam? Majoritariamente negro?
Nós fazemos para todos os públicos, inclusive para quem tem preconceito. Talvez estas pessoas mudem um pouco o ponto de vista. A comunidade negra vai nos prestigiar, mas espero que o Rio de Janeiro todo venha. As pessoas precisam pensar nesse assunto, e nós esperamos contribuir.

Como esse texto repercutiu nos Estados Unidos? Houve algum tipo de polêmica?
Pelo que lemos de críticas que o autor nos mandou, não vi polêmica. Não sei se houve contra a crítica que a peça faz. Mas, na verdade, este texto é muito equilibrado. Ele expõe com clareza os pensamentos dos dois personagens, e você vê que o autor estudou. Eu li a biografia do Martin e do Malcolm e reconheci ali a preocupação que ele teve com a realidade. Óbvio que tem a liberdade poética, já que este encontro nunca aconteceu de verdade, mas é aí que entra o teatro. Tem um momento em que eles se olham, e um diz: “Imagina onde nós poderíamos chegar se déssemos nossas mãos”. Tem essa ideia de união dos dois, mas também tem muita fundamentação. Não é só coisa da cabeça do autor. Então, é muito claro tudo o que ele quer dizer. A peça mistura o documental e o lado muito humano dos dois personagens. Tem de tudo!

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