‘The And’ tem inúmeras qualidades, mas com enredo pesado e poucas nuances, compromete seu ritmo

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz na sala multiuso do SESC Copacabana, “The And” narra as desventuras de uma personagem errante, que vaga pela cidade sem ser acolhida, sem ter onde ficar, sem esperanças ou perspectivas. Ainda assim, tenta encontrar soluções, sobrevive. A peça esboça o que poderia ser uma reviravolta, contudo, e apesar de suas inúmeras qualidades, a começar por sua equipe de criação e cada um de seus elementos, acaba ficando em uma nota só.

O belíssimo cenário de Fernando Mello da Costa emoldura nichos que são uma espécie de espaço privado desorganizado e sem dono. Em parte, lembram mesas de cabeceira, pequenos armários; em parte, escombros. Além de um delírio visual, permite à atriz um trânsito desprovido de sinais de afeto, o que ambienta muito bem o que a peça retrata.

O figurino de Claudio Gabriel e Isabel Cavalcanti, como o cenário, traz um acúmulo de sentidos e, através deste acúmulo, uma sensação de vazio. São diversas peças de roupa que cobrem a atriz, que por vezes se desfaz de uma ou duas peças, mas sem nunca encontrar um conforto, como se nada fizesse diferença.

A direção musical de Marcelo Alonso Neves, a iluminação de Renato Machado e a atuação de Isabel Cavalcanti fazem o contraponto desta soma de referências, instaurando o clima que permeia a peça: uma desesperança completa, uma tristeza, uma resiliência que é quase uma apatia. Acompanham a saga da personagem errante e sobrevivente enquanto cenário e figurino, de alguma forma, sugerem a ideia de uma cidade, um ambiente externo, presente (materialmente) e ausente (afetivamente).

Apesar da beleza de cada um dos elementos descritos, e mesmo de sua relação, “The And” não vai além da ideia de um não pertencimento. Colocada desde o início, esta sensação perpassa a peça sem se transformar; em alguns momentos, há até perspectivas de melhora que colorem um pouco o quadro geral, mas é tão rápido e indiferente, dentro do espetáculo, que não chega a, de fato, surpreender o espectador. No fim das contas, a peça tem um andamento constante, sem nuances, e isto acaba afetando seu ritmo.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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